8.21.2012

Beija-flor




















quando ando descalço
na rua
quando me logro
noutro amor
só um nome chamo
beija-flor

o meu erro é
recorrente
nunca lhe dei atenção
e o engano repete-se
tanto quanto o seu
perdão

sem se poupar
ao fracasso
talvez espere
por compaixão
cessar as fugas
que o coração
sempre tem

quando tão pouco
me cega
quando não vejo
outra luz
só um nome salvo
e só esse seduz.

8.06.2012

Nós dois




























nós dois
ali sentados à beira-rio
eu segurando um copo vazio
e tu olhando as estrelas

não foi o beijo na face
que me despertou
quando pelo frio sentido
o cansaço nos aconchegou

e o calor de novo veio
das horas silenciosas
do sereno passar das águas
do teu corpo só

enquanto contemplava
no passado fundo do copo
quase tão vão quanto eu
as previsões do futuro

e não foram os fogos
não foram obrigações
não foram só os beijos
indiferentes às constelações

o olhar não se deixa ocupar
pelas incertezas
não se deixa vencer pelos medos
que derrubam os corpos

e dentro da muralha de cada um
pulsaram exércitos de rebeliões
pelo prazer da branca conquista
da qual se nutrem as paixões

não basta negar
o que ninguém entende
não basta esquecer
as recordações

só os dois
à margem do rio
tu aquecendo um corpo morto
e eu retomando à vida.

8.02.2012

«Labirinto» - Luís Ferreira

















Houve um olhar,
Que vestiu o meu rosto
Submerso nos traços dos rios
Que fixaram o perímetro da pele.
O desejo perdido
Evaporou-se no último gesto
Quando se fechou o ímpeto das tardes,
No assombro de uma máscara.
Ainda espero,
Que a paisagem minta,
Afagando as urzes
Quando todas as palavras acordarem.



Luís Ferreira, in O céu também tem degraus