6.29.2012

Torres em vogais



















Ainda não te encontro pelos cantos
onde os sonhos vão transbordando.
sabes que não fico calmo
quando a vida passa pelos dias suspirando.
há algo especial em ti,
algo muito especial.


Podia ver-te cegamente em todos os lugares,
já não me conheces e como eu me sinto vão
ao sonhar o que nem em delírios se sonha.
na verdade não há nada verdadeiro
para lá do que é certo em mim,
a esperança não é real.


Desconheço esta poesia
que contradiz todas as outras que se agitam aqui,
nunca saberás com clareza o que eu vi.
nada me convence mais com estrelas brilhantes,
luz sobre o céu acima que tornam simples perceber
que a distância é a maior das fortalezas.

6.08.2012

«Escrevias Pela Noite Fora» - Helder Moura Pereira

























Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Helder Moura Pereira, in De Novo as Sombras e as Calmas

6.06.2012

Transbordo



by Lynne Taetzsch























Aqui,
onde fica a tua ausência
prende-se a consciência dos dias loucos
em que o amor era teu
em que o corpo era meu
em que o tempo era tempo.

Agora,
onde a tua presença me falta
retêm-se imagens nítidas do que fomos
na agonia dos silêncios inexplicados
na cortesia dos ventos quebrados
na tua face em rios e o meu desejo.

6.05.2012

«Névoa ou sintaxe» - Liberto Cruz



Webster, Mark A.














***

Na paz súbita do canto
me surpreendo
em manso aviso
e, insone, embarco
na jangada incerta.

Não isentas, as veias sabem
e em silêncio depõem,
de coragem, rios.
E a calma é tão fecunda
que adolescente, parto.

Na secreta angústia,
serena, a memória me confina
e válido, num grito me anuncio.

Liberto Cruz
(Poesia Reunida: 1956-2011)