12.01.2012

Falta de comparência

























Agarro-me tanto
às palavras que esqueço,
os teus gestos pálidos
em acenos delicados,
os teus acessos
olfativos apurados
ou os teus olhos calmos
tácitos de tão indignados

tem dias assim
que não me sinto aqui,
mas é contigo que estou
por mais que não esteja,
sempre que o teu corpo
me chama e eu sou
o próprio interdito
às coisas lá de fora

deixo esta ausente
silhueta de vazio,
este corpo espremido
em perfil de estátua,
este vento em rodopio
perdido entre rios de tinta
para ter prazer em dar
e ser sempre pelo desejo
que o faço

tudo é simples de explicar
se ambos esquecermos
os muros da razão
e as palavras fingidas,
sinais de ferro e fogo
marcas cingidas ao corpo,
as oscilações das marés
que encalham os barcos

nós se-parados
não nos movemos,
juntos pudemos ir
a qualquer lado,
paragens desentendidas
fora de mensagens
em embarcações interditas,
travessias além-mar.

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