12.08.2012

O que a vida me deu
























as pessoas são sempre boas de conhecer
se não sendo aquilo que parecem
parecem aquilo que são,
na certeza de que é bom
encontrar mentes novas
fraternas e interessantes
de bem perto ou de paragens distantes,
mais ou menos bem falantes,
com maior sentido ou honesta desorientação,
por mero acaso ou sugestão.
enfim, pessoas verdadeiras como o são
(aqui o poeta não procura apropriar nenhum dos sentidos).

chegou a altura
em que já não gosto de sair
pelo menos como o fazia,
acho normal esta noção.
já conheci todas as pessoas que gostava de conhecer
agora só procuro mantê-las comigo
para ser verdadeiro,
porque assim sei quem sou.

o que a vida me deu
foram os outros que me ofereceram,
os outros são aqueles quem gosto encontrar
ao fazerem parte desta experiência
e até nas minhas conquistas estiveram comigo
(aqui o poeta defende que as verdadeiras pessoas de quem se gosta
são as que nos aplaudem nas vitórias,
a vida já é um fracasso desde o início e estes não são assíduos em funerais).

12.01.2012

Falta de comparência

























Agarro-me tanto
às palavras que esqueço,
os teus gestos pálidos
em acenos delicados,
os teus acessos
olfativos apurados
ou os teus olhos calmos
tácitos de tão indignados

tem dias assim
que não me sinto aqui,
mas é contigo que estou
por mais que não esteja,
sempre que o teu corpo
me chama e eu sou
o próprio interdito
às coisas lá de fora

deixo esta ausente
silhueta de vazio,
este corpo espremido
em perfil de estátua,
este vento em rodopio
perdido entre rios de tinta
para ter prazer em dar
e ser sempre pelo desejo
que o faço

tudo é simples de explicar
se ambos esquecermos
os muros da razão
e as palavras fingidas,
sinais de ferro e fogo
marcas cingidas ao corpo,
as oscilações das marés
que encalham os barcos

nós se-parados
não nos movemos,
juntos pudemos ir
a qualquer lado,
paragens desentendidas
fora de mensagens
em embarcações interditas,
travessias além-mar.

11.20.2012

Sinais

























Dá-me um sinal
um só basta
que nesta cegueira
toda uma constelação
que me ofereças
nunca será suficiente
se não mostrares
o seu propósito.

11.18.2012

Arvorecer


























Faz-te crescer
nas tuas raízes
alastra-as profundas
sobre a terra
a teus pés
o que pisas
é o meu coração
alimento-te
e do orvalho bebes
este desejo pungente
de te fazer florir
quando acontece
na noite quente
a escuridão sem luar
abaixo dos ramos
onde livres
os teus braços
apertam os céus
enquanto o vento
nas velas comando
numa exclamação
à falta do sol
que eu sinto
como se sempre sós
sofressem as estrelas
e todo o universo
chorasse por elas
no êxtase da aclamação
ao seu brilho absoluto
como fértil harmonizador
da encarnação floral.

11.05.2012

À tua pergunta

























que resposta te posso dar
se nunca soube que poeta ser
e nem tenho todos os dias
o mesmo brilho no olhar

não sei bem que versos faço
escrever para mim é recurso
para me livrar do embaraço
e arrastá-lo para outras moradas

sei que sou um homem só
e nem sei bem como o faço
escrever sempre me soube
a outra forma de fracasso.

11.04.2012

Polar

























os teus poemas estão mortos
os versos perderam o sabor dos dias,
ficam só os traços na simpatia
das curvas do copo sobreposto
às linhas da manta estendida,
às figuras do teu rosto.

recorda que o que não se dizia
era necessário se entender,
o quanto não se explicava
era tudo aquilo que acontecia
no silêncio da noite sem estrelas
que dava lugar à luz do dia.

encosto-me agora ao parapeito
da janela vejo a lua nascer
separada apenas pela sua sombra,
quando os sonhos não existem
somos só entregues à vida
pelas vontades dirigidas aos sentidos.

morre-se todos os dias
quando o sol não nos aquece,
será sempre o mesmo calor
que nos manterá vivos
e nós sós que somos o maior dos sóis
separados somos apenas escuridão.

8.21.2012

Beija-flor




















quando ando descalço
na rua
quando me logro
noutro amor
só um nome chamo
beija-flor

o meu erro é
recorrente
nunca lhe dei atenção
e o engano repete-se
tanto quanto o seu
perdão

sem se poupar
ao fracasso
talvez espere
por compaixão
cessar as fugas
que o coração
sempre tem

quando tão pouco
me cega
quando não vejo
outra luz
só um nome salvo
e só esse seduz.

8.06.2012

Nós dois




























nós dois
ali sentados à beira-rio
eu segurando um copo vazio
e tu olhando as estrelas

não foi o beijo na face
que me despertou
quando pelo frio sentido
o cansaço nos aconchegou

e o calor de novo veio
das horas silenciosas
do sereno passar das águas
do teu corpo só

enquanto contemplava
no passado fundo do copo
quase tão vão quanto eu
as previsões do futuro

e não foram os fogos
não foram obrigações
não foram só os beijos
indiferentes às constelações

o olhar não se deixa ocupar
pelas incertezas
não se deixa vencer pelos medos
que derrubam os corpos

e dentro da muralha de cada um
pulsaram exércitos de rebeliões
pelo prazer da branca conquista
da qual se nutrem as paixões

não basta negar
o que ninguém entende
não basta esquecer
as recordações

só os dois
à margem do rio
tu aquecendo um corpo morto
e eu retomando à vida.

8.02.2012

«Labirinto» - Luís Ferreira

















Houve um olhar,
Que vestiu o meu rosto
Submerso nos traços dos rios
Que fixaram o perímetro da pele.
O desejo perdido
Evaporou-se no último gesto
Quando se fechou o ímpeto das tardes,
No assombro de uma máscara.
Ainda espero,
Que a paisagem minta,
Afagando as urzes
Quando todas as palavras acordarem.



Luís Ferreira, in O céu também tem degraus

7.31.2012

A dança dos pássaros

Birds-In-The-Sky-You-Know-How-I-Feel-Photograph-Michelle-Firment-Reid-Copyright-2011





















a dança dos pássaros
começa pela manhã
quando o sol desponta
fazendo da noite afronta
e do ar fresco redenção.

a dança dos pássaros
começa pela manhã
à sombra dos dias azuis
que dão vida aos ninhos
e harmonia aos beirais.

a dança dos pássaros
começa pela manhã
envolta em chilreios
como crianças no recreio
felizes mais um dia são.

a dança dos pássaros
começa pela manhã
e termina ao fim da tarde
num ziguezaguear de rodopios
uma extática procissão.

7.29.2012

Quantas vezes
























quantas vezes
serás a fuga ao real
para alguém
quando tu já sabes
que a ilusão é verdadeira?

quantas vezes
procurarás convencer
que pode ser real
esta ilusão
feita de verdade?

quantas vezes
mostrar-te-ás real
neste mundo de ilusão
em que poucos acreditam
quantas vezes mais?

7.26.2012

A criança

















a criança
não sabe quem é
não sabe o que ser

a criança
não sabe o que quer
não sabe escolher

a criança
não sabe da sua nescidade
não sabe das suas ilusões

a criança
não sabe que só viver é pouco
não sabe que ainda nada viveu

a criança
não sabe que o é
nem sabe quem morreu

7.24.2012

Síntese



















o tempo não tem espaço
como o espaço não tem tempo
eu tive um espaço de tempo
e o tempo no espaço era meu.

agora eu não tenho tempo
pouco mais tenho que espaço
onde o tempo não é tempo
e o espaço não é espaço.

este tempo não é o meu tempo
o espaço não é o mesmo espaço
eu não tirei espaço ao tempo
tive apenas o que era teu.

7.16.2012

«O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias» - José Luís Peixoto







O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos , labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto,
era a tua pele. antes de te conhecer existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde,
muito longe de mim. dentro de mim, eras tu a claridade.



José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'



7.14.2012

Votos migratórios



quando vinhas
do mar
era feliz,
depois
logo deixavas
o sol
e a terra

em busca da primavera.

falaram-me
que tinhas
coração de pássaro
e eu
bem sem querer
acreditei nisso,

inspirado
emocionei-me dum salto.

pelo calor
foram as estações
primeiras,
os dias 
agora frios
das chuvas
dos ventos
e últimas folhas.

do litoral
ainda espero
alcançar o horizonte,
meu destino
que paira
sem rédeas o
futuro contingente
que ocupará outro lugar.

7.07.2012

Promessa de flores






















procuro-te
em imitações baratas,
nada encontro que satisfaça
esta mesma vontade que ficou.

os anos
pesam como flores,
a cada porta outros corredores
em cada um labirintos e novas paragens.

bem sei
deixei-me levar por uma maçã,
a sua réplica mantenho-a intacta
aqui onde falham promessas de flores.

7.05.2012

Penas escritas
























a caneta quebrou
não há pena que me console

a tinta derrama
não é o papel que a escolhe

nada me importa mais
que a veemência do silêncio

a palavra embirra
por ser mais forte sai.

7.04.2012

«Personagem» - Cecília Meireles



























Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.


Cecília Meireles, in 'Viagem'

6.29.2012

Torres em vogais



















Ainda não te encontro pelos cantos
onde os sonhos vão transbordando.
sabes que não fico calmo
quando a vida passa pelos dias suspirando.
há algo especial em ti,
algo muito especial.


Podia ver-te cegamente em todos os lugares,
já não me conheces e como eu me sinto vão
ao sonhar o que nem em delírios se sonha.
na verdade não há nada verdadeiro
para lá do que é certo em mim,
a esperança não é real.


Desconheço esta poesia
que contradiz todas as outras que se agitam aqui,
nunca saberás com clareza o que eu vi.
nada me convence mais com estrelas brilhantes,
luz sobre o céu acima que tornam simples perceber
que a distância é a maior das fortalezas.

6.08.2012

«Escrevias Pela Noite Fora» - Helder Moura Pereira

























Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Helder Moura Pereira, in De Novo as Sombras e as Calmas

6.06.2012

Transbordo



by Lynne Taetzsch























Aqui,
onde fica a tua ausência
prende-se a consciência dos dias loucos
em que o amor era teu
em que o corpo era meu
em que o tempo era tempo.

Agora,
onde a tua presença me falta
retêm-se imagens nítidas do que fomos
na agonia dos silêncios inexplicados
na cortesia dos ventos quebrados
na tua face em rios e o meu desejo.

6.05.2012

«Névoa ou sintaxe» - Liberto Cruz



Webster, Mark A.














***

Na paz súbita do canto
me surpreendo
em manso aviso
e, insone, embarco
na jangada incerta.

Não isentas, as veias sabem
e em silêncio depõem,
de coragem, rios.
E a calma é tão fecunda
que adolescente, parto.

Na secreta angústia,
serena, a memória me confina
e válido, num grito me anuncio.

Liberto Cruz
(Poesia Reunida: 1956-2011)

5.26.2012

Perfeições



























Olhar meigo, cabelos cor da noite
Silenciosos e rebeldes como as ondas do mar,
Fazem brilhar a dança do sol sobre o azul
No profundo céu do meu olhar
Naqueles dias em que as nuvens se afastam
Só para venerarem o teu sorriso sincero.
Tudo pára se tudo é contemplação,
Contagia-me o teu encanto
Ao sorrir-me esta aflição.

Procurei-o nos meus destinos
Mas nada de original encontrei,
São outros os dias de cansaço e tristeza
Em que mesmo assim não desanimei.
Até que o vento falou-me de ti,
De como é doce o teu suave deslizar,
Esclareceu-me que no tempo certo
Vais voltar, como tudo isto é mágico
E não será trágico este meu sonhar.

Quando abro a caixa das minhas fantasias
É a tua essência e não outra que procuro.
Julgo-me sempre mais perto do que pensava,
Nunca é simples de chegar onde os sonhos nos levam.
Quando fecho os olhos, é lá que te encontro,
Nos meus pensamentos, onde me faço dispersar.
Quando acordo a luz enche a escuridão,
Não encontro o teu olhar, mas ainda está aqui
No lugar em que não dou por mim só nesta ilusão.

Gostava de destruir a fortaleza
Que cresceu em meu redor,
O manto negro que me abraça.
Esta espessa capa de frio ardor
Que me aconchega na imensidão,
Como a que a todos nós nos encanta
E do som ouvido enche o coração,
Também envelhece como eu
Ao ritmo compassado da satisfação.

Gostava de te oferecer as asas de um anjo
Mas desvaneceriam ao fazê-las sonhar,
Nunca seriam pensadas para voar…
Apenas votadas ao teu encanto.
Por vezes desejo-te somente felicidade,
Na súplica afirmação do meu espanto.
A tua voz, o teu sorrido, é eterna saudade
Quando persigo no meu caminho olvido
A ternura da minha vida, esta ansiedade.

Os reencontros são sempre fugazes,
Espero sempre por novas manhãs,
Mesmo que breves e clandestinos.
Não abdicarei por outros, os meus desígnios
De fielmente perpetuar nos teus enigmas
as minhas dúvidas, nos teus segredos
Outras admirações, tamanha bondade
Com a justeza de um apaixonado
Rendido às tuas francas perfeições.

5.22.2012

Doces de beijar



by S A Mosaic, London






















Lábios doces de beijar,
procuro o prazer nos teus
e nunca fico satisfeito,
tais caprichos merecem preceito
para que saciem os meus,
desejosos que estão dos teus
para por fim ao segredo...
oh, e arder como quem ama.


Lábios doces de beijar,
que outros que não os teus
em profundos silêncios guardados
quando tocam os meus,
sempre impacientes e recobrados
quando encontram os teus
em furtivos gracejos demorados,
oh tão sofredores que são.


E quando enfim com valentia
roubo uma dúzia de beijos,
cerram de volúpia os desejos
e dos suspiros faço canção,
de cores rubras na face
perco-me na carne dos teus,
lábios doces que beijo...
oh como enlouquecem os meus.

5.19.2012

«A Mulher Mais Bonita do Mundo» - José Luís Peixoto




estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 



José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

4.13.2012

Asserção






Arrested Expansion or Cardiac Arrest
by George Grie



















mesmeriza-te pela minúcia das coisas indeléveis,
a sua própria pequenez tem proporções gigantescas
e não me apoio nesta afirmação em razões de proporções,
em muitos princípios não existem questões de perspectiva,
a metafísica é transcendente à subtileza do todo conhecido
e eu apenas me pasmo assim com a magnitude astigmata de um míope
pela certeza de não haver qualquer tratamento para a essência desta realidade.

2.19.2012

No cimo das árvores


"Chi vuole guardare bene la terra deve tenersi alla distanza necessaria." ~ Italo Calvino



































Um dia subi a uma árvore
para ter melhor visão do chão,
é difícil descrever a sensação...
devia subir mais vezes às árvores,
transformar-me num ser arbóreo como Cosimo,
pois só pelo hábito encontramos os grandes prazeres.


Um dia subi a uma árvore
para ver melhor a montanha,
é difícil deslindar de onde parte
mas chega ao céu mesmo quando não é azul,
resiste solidamente apontando a direção mais certa...
e a montanha sempre ali onde a novidade não é uma descoberta.

2.16.2012

sentimentos.






































nem sempre é facil falar dos sentimentos

por vezes não sei explicar o que sinto

muitas vezes não consigo dizer o que sinto

todas as vezes escrevo melhor o que sinto

raras vezes sou bem mais entendido por isso.


nem sempre é fácil descrever os sentimentos

por vezes sei esconder pouco do que sinto

muitas vezes consigo falar pouco do que sinto

todas as vezes não escrevo mais do que sinto

raras vezes sou tão-pouco mais explicito se o fizer.

2.07.2012

Qualquer coisa



























há qualquer coisa
que queria muito dizer-te...
que está bastante frio agora
e as noites são demasiado longas assim.

há qualquer coisa
que queria mesmo dizer-te...
que não me recordo,
o tempo foge de mim num voo largo.

há qualquer coisa
que queria tanto dizer-te...
que os meus dias estão diferentes
e as noites não são as mesmas sem ti.

há qualquer coisa
que queria dizer-te...
que te adoro,
talvez isso seja pouco.

há qualquer coisa
que queria dizer-te...
que sinto
e não sai.

1.14.2012

País vencido




















este meu país
prostrado a caprichos externos,
à coquetterie europeia e mundana,
à domesticação de elites famintas.
este meu país vendido
e enfraquecido de si mesmo
ou que consciente disso
se revê em mísera candura,
em desgraça e desprezo,
em contínua insignificância
e subordinação ao que vem de fora,
quando cá dentro tudo parece intragável
e tão intratável como a angústia ascética.
o meu país, aquele que
esqueceu o sebastianismo,
perdeu a sua lusitanidade
e renuncia à nacionalidade
fazendo-se esquecido no declínio
das ilusões de um império não cumprido.
oh minha pátria perdida,
oh meu portugal vencido...
que é feito de ti, meu país,
agora quando mais preciso?