12.06.2011

lições de antibotânica



























só na botânica existem amores-perfeitos
onde se trata com prioridade o que se destrata por opção.

que nem todas as coisas crescem em vasos,
que nem todas as coisas precisam de terra.

todas as coisas precisam de sol e água,
todas as coisas precisam de alimento e cuidado,
de atenção e zelo, de calor e resguardo.

todas as coisas precisam do seu tempo
e são as coisas vivas que precisam mais de atenção
para pôr em si sossego na quietação do seu fermento.

nada cresce verdadeiramente só
mesmo quando se julga que esse é o modo mais correto
e sem justificações para se ter em sobejo.

sem se desprender do quanto se é em favor de outro
ou de alguma outra coisa que não o próprio e que lhe tenha valor,
não sobra para si mesmo nem o desejo de outra coisa alguma.

assim é difícil definir algo de bom, tão frutuoso e preeminente como
a superioridade de um rochedo que pelo seu redutor egoísmo é o mais elevado,
o mais confiante e o que lapida em si o seu verso em pontas de bailarina clássica.

ou então a punho fechado num grito tão seco do quanto interior se faz
como espelho de um medo que imprime balanço e que funcionando como pêndulo hipnótico
adula e embala mas nunca adormece ninguém ou alguma coisa de real.

fantasia, só fantasia e o abrigo da calmaria
quando não é o alento do vento e vai pedindo sempre aos outros mais de si,
fechando-se cada vez mais no mesmo reduto de onde reclama pelo que não há quando não dá
e pelo que não tem quando não quer.

ao encolher os ombros numa suplicante dúvida disfarçada e confusa
sabe que o que realmente deseja ou precisa não existe,
sabe porque é inexistente e em si não pode existir nada.

vejam uma flor em que não podemos admitir que se sente só por não saber o que isso seja,
apenas tem consciência de si e tinha por desejo crescer livre ou quanto muito
dentro de um vaso e à medida que crescia pedir um vaso maior para não se findar,
eis que a colocaram numa jarra e certamente irá murchar em pouco tempo.

poucos são os seres vivos que fazem em si o seu ninho,
até as plantas precisam de fazer crescer as suas raízes,
não podem abrir as asas para voar como as aves
mas alongam e delongam as suas raízes para se fixarem ao solo,
para se alimentarem da sua liberdade.

como me agrada o desassombro da liberdade,
como se me afigura essa imagem estética de proceder por vontade própria como bem nos pareça
e simultaneamente saber que é apenas um vaso chinês que muitas das vezes só contém
água e nenhuma terra que seja capaz de nos fazer suster.