11.24.2011

atonalidades.





























Os pássaros cantam neste outono
como se fosse naquela primavera
onde tudo ficou no seu devido lugar,
agora que as folhas se desfazem no chão

sabem doentes de amores que o inverno está à porta,
trazem então o coração à boca com mudos desejos
e no seu piar sufocado pela rigidez da garganta
reivindicam saudades de um velho peito em chamas
ou da falta de um cómodo ninho ou de asas apenas
que os leve às terras onde o calor se faz presente.

Reconhece-se o bulir dos carros rua abaixo
como se fosse um bando de ondas calmas, frias
que atravessam todo trópico de manhã à noite,
escuta-se mas não se vê água nas vidraças,
nem o céu cinzento, nem a varanda alagada,
a chuva não é mais do que uma constante
que de tanto se vista já não se vê, como a rua
e os chapéus negros que vão tapando o caminho.

11.08.2011

Poetético







"Basta sentir que se poderia
viver sem escrever para
não se ter o direito de fazê-lo."
Rainer Rilke



















És mais que um tesouro,
mas há muito que os deixei de procurar
perder-se-me-ia assim a idade sem prosperar.

Fácil de entender,
o que encontro não sou eu mas outro melhor no caminho,
sem intermitentes falhas e acertos de comunicação,
coisas das tais para se compreender e julgar sozinho.

Que eu não quero
esperar por outras estações,
ansiar por demais disjunções
se foi para adormecer no mar
que se construíram as grande embarcações.

Desrespeitar
as regras e os dilemas,
outros jogos e estratagemas,
que os provérbios e profecias
foram tão somente consensos
com as palavras certas dos tempos.

Fui apenas
o que nunca soube, que nunca ligou aos dados,
entretinha-me a juntar letras em trajectos ondulados
e no meio de tudo não sou eu quem eu sou,
sou apenas um dos que desejam manter-se vivos
com as coisas que nos chamam de outros lados
e que ocupam espaços desocupados.

Patético,
nunca saber falar com estranhos,
pensar que as palavras escondem pensamentos e outros enganos,
acreditar que cada qual se descreve numa linguagem certa,
esquecer a sua própria quando lê e quando o autor não lha concerta,
esquecer-se de fechar a porta e ainda deixar a janela aberta,
julgar que a vida é um circo e há animais que gostam de jaulas,
que quebram velas, pisam terços e fogem sempre às procissões.

Isso sim!
descobrir que compreender não é julgar,
quantas vezes os códigos possíveis não têm lugar.
quando cheguei aqui tinha outra idade - a tua idade
e o unanimismo gastou-se onde os outros -ismos são sem sentido,
por vezes sofrer é não desejar e é assim que nos definimos.
os desabafos feitos de palavras que não têm um ritmo concreto
espalham-se assim banais em poemas com menos vontade do que um verso,
o que não fomos nunca o soube ao certo, cego de amorismo.

11.05.2011

Corrente
















'The Water Mill', Meyndert Hobbema,
Oil on canvas - 1660s







O que faz toda esta água
Que vem do cimo,
Que corre lá para baixo?
Desce por aí livremente,
Faz girar as pás
E agita os moinhos
Com o roçar das mós,
A força dos grãos
E os alvitres dos crivos.

Oferece o sustento do pão,
A palavra que extinguindo a fome às bocas famintas
Alimenta as esperanças de uma grande nação.

11.04.2011

escuto
















quando o tempo que passou
foi o que bastou,
para ser preciso voltar atrás
e seguir em frente,
para chegar mais além
onde não existisse um começo
que transporte tudo a um fim,
escuto...
o que ficou de ti.

11.01.2011

reducionismo


















se ser feliz é uma arte
ser feliz é ser-se outro que não o próprio
mas sendo o mais fiel a ele mesmo
na renuncia da pertença ao que lhe pertence
e não lhe pertencendo absolutamente nada,
nem a sua própria felicidade.

pela estatística bebe em média três copos entre amigos
de vinhos e outras bebidas de estranhos odores
mas como o que faz não é para seu proveito,
sabe-se que não bebeu nem um copo
mas divide a conta com contentamento
porque sente-se bem com o seu sustento.

embora não a reconheça,
nem esteja convencido da sua existência,
a sua felicidade não é dele embora lhe pertença
e nenhum dinheiro a pode comprar,
assim só pode ser feliz por não se achar infeliz
e ser verdadeiro consigo próprio.