7.22.2011

«O Movimento das Células» - Sylvia Beirute


























a substância do verso não forma uma linha,
que o seu conjunto se assemelha
à representação de quiasmas. e então
falamos de células e da sua divisão marítima,
ouvimos, ali ao lado, alguém dizer, com a
autoridade de um LOBO:
{primeiro procuramos a solução,
depois sonhamos o problema}.
o certo é que vamos demasiado longe,
demasiado longe para a mesma certeza,
até que nos tornamos amovíveis.
de noite, cansados e sem a responsabilidade
moral de escrever um poema, e
sem mais precisarmos
de distorcer instantes na cidade subtil,
pensamos no silêncio.
{criar muita poesia é criar muito silêncio}, dizes.


( mais um dos seus muitos poemas seus que selecciono
porque a uniformidade da sua escrita nunca se esgota )

7.09.2011

Prato Limpo



come-me sem nunca lavar as mãos primeiro,
não espero mãos puras, nem frias, mas quentes
e prende-me também a lingua aos dentes
para que a ausência de palavras vença.
deves comer-me sem me lavar se quer
que a água desfaz o odor dos corpos,
roubando-lhes os sais que se trazem na pele
e que viciam até as almas mais hipotensas.
só regando com álcool é que vês crescer
a saciedade das feridas na boca por sarar,
se me faço de sal também acredito ser punhal
repete quando assim desejares mais sangue.
usa-me e não penses em poupar-me,
só o egoísmo te fará sempre prevalecer
porque é pensar-te outro que faz doer
e esquecendo-te de ti que nunca resistes.
no fim limpa os lábios à carne
feita de açúcar canela café e algodão
mas deixa o prato que se quer limpo,
levando contigo de volta impuras
as mãos soltas e para sempre tuas.

Amar é acreditar-se poeta



























Doentes crónicos de amores
são loucos os líricos sonhadores
que de tão novos para parecerem velhos
são os mais contentes sofredores
que choram os seus fulgores
pelas picadas que soam a espinhos
das flores que tão bem (es)colheram.

Por isso, matem-se a vós próprios
com os vossos corações quentes
deixai-me aqui só (não peço mais)
com um garfo de dois dentes
enquanto vão à ribeira dizer aos moços
o quanto deles vos fazem doentes
que eu fiquei assim como quis
festejando com uma taça de frutas
vermelhas e sem caroços.

Poluí-se tanto a palavra amor
com sensações que (não) se sentem
que nunca traduzem num entendimento
a mais autêntica ingenuidade
que define um sentimento
e como soubesse bem o que isso seja
sem cair no ridículo desse engano
simplesmente não digo
que é por tanto te amar assim
que na verdade não te amo.

Com tudo isto, sei
o quanto amar (uma mulher)
é acreditar-se poeta
e fazer dos outros o que não são
numa ilusão fugaz de permanência
sem quebrar um prato de redenção
neste fino presente desejo de ausência.