6.28.2011

«Dia não» - José Saramago
























De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas.


"Dia não", poema de José Saramago

6.27.2011

Desejo (nada maior que vontade)



























Neste momento queria estar na lua,
não que queira estar longe de alguma coisa.
Simplesmente para estar lá,
ver como são as coisas de cá.

Neste momento gostava de estar na lua,
não que desgoste de estar aqui.
Simplesmente para estar lá,
ver coisas que nunca vi.

Neste momento desejava estar na lua,
não que deseje outro lugar qualquer.
Simplesmente para estar lá,
ver sem mim esta rua.

Neste momento poderia estar na lua,
não que pudesse encontrar-me sem ela.
Simplesmente para estar lá,
ver como me vê da janela.

Neste momento a vontade é de estar na lua,
não que fique sem um outro lugar.
Simplesmente para estar lá,
ver tudo sem me preocupar.


Tudo num nada




























Não falarás da morte
nem dos males de amor,
se é vida que corre em ti
nesta luz que me atravessa.

Eu ainda estou aqui quando não vês,
qual é o motivo de não ser visto?
será por encontrar-te em toda a parte
e assim também não te ver?

Prefiro a matéria concreta e concisa do tempo,
preciso a matéria concisa e consciente do tempo,
prevejo a matéria consciente e concreta do tempo,
a matéria concreta concisa e consciente é este espaço.

As horas não têm esta idade,
a identidade das horas é especulativa,
as ilusões do tempo são esta mesma realidade
(por bem ou por mal, para nós sempre merecida).

A arte é um sinal perdurável dos homens
como marca imprecisa de si no seu espaço
e que deixam como vestígio de tempo passado
para assinalar uma madura mortalidade duradoira.

Então, será tudo isto um nada?!
é certamente tudo isto sempre um nada
se é feito com o propósito desinteressado
de registar em rigor a beleza do que é inútil.

6.06.2011

"For poems are not, as people think, simply emotions..."



…poems amount to so little when you write them too early in your life. you ought to wait and gather sense and sweetness for a whole lifetime, and a long one if possible, and then, at the very end, you might perhaps be able to write ten good lines. for poems are not, as people think, simply emotions (one has emotions early enough)—they are experiences. for the sake of a single poem, you must see many cities, many people and things, you must understand animals, must feel how birds fly, and know the gesture which small flowers make when they open in the morning. you must be able to think back to streets in unknown neighborhoods, to unexpected encounters, and to partings you had long seen coming; to days of childhood whose mystery is still unexplained, to parents whom you had to hurt when they brought in a joy and you didn’t pick it up (it was a joy meant for somebody else—); to childhood illnesses that began so strangely with so many profound and difficult transformations, to days in quite, retrained rooms and to mornings by the sea, to the sea itself, to seas, to nights of travel that rushed along high overhead and went flying with all the stars,—and it is still not enough to be able to think of all that. you must have memories of many nights of love, each one different from all the others, memories of women screaming in labor, and of light, pale, sleeping girls who have just given birth and are closing again. but you must also have been beside the dying, must have sat beside the dead in the room with the open window and the scattered noises. and it is not yet enough to have memories. you must be able to forget them when they are many, and you must have the immense patience to wait until they return. for the memories themselves are not important. only when they have changed into our very blood, into glance and gesture, and are nameless, no longer to be distinguished from ourselves—only then can it happen that some very rare hour the first word of a poem arises in their midst and goes forth from them.


rainer maria rilke, the notebooks of malte laurids brigge


Tempo Florido




"Mais vale morrer conforme
as regras do que escapar
contra elas..."
(Jean Baptiste Molière)
















tempo que passa por nós
cai como se não nos visse
aqui a braços juntos e sós
onde a curva faz uma volta.

margarida é certo o vento leva
para lá bem longe deste desterro
o orvalho encrespado nas pétalas
queimadas pelo sol tardio e quente.

tão teu o jeito bravio de crescer
de me lograr por mais sentidos
por se estimar e não haver melhor
tempo como este que não volta.

em farrapos e poucas malas
desfez-se os buracos do caminho
aos saltos como se fossem contínuos
os parcos esparsos lacónicos recontros.


Crepuscular




Os astros desconhecem o sentido,
Aos deuses nego a existência
E fico eu nesta demência
A suspirar pelo irreal.

Desconhece os meus sofismas
E descobre assim a aliteração
De propor sem mistérios
A frágil coerência da suposição.

Na verdade não sei o que me prende,
Procurando apenas ser como sou
É na falta do que me alimenta
Que descubro quem sempre me encontrou.

Em nada me sinto vencido,
Reconheço em tudo algo superior,
Conferindo-lhe com o devido respeito
O cotejo de um real valor.

Como quimera que se deslinda
E que cego assim me tem posto
Na alma que já não é minha
Um distinto crepúsculo ao meu gosto.