5.24.2011

Aqui é agora e para sempre nunca




























Trabalhei muito que me fartei
para fazer de mim louco nesta vida
quando só parece-lo foi sempre pouco
e nunca me satisfez a simples ilusão,
até que agora reconheço enfim
que foi um esforço inútil de tão vão
que sendo mais normal do que estranho
fiz-me igual ao meu tamanho
sem nunca endoidecer de vez,
não me salvo e nem me amanho
e há tanta gente em pior condição
uns que nem com tantos empurrões
servem-se de auxílio no meu exemplo
se nada lhes garante a salvação,
neste processo meramente risível
torno-me mais que intransponível
para lá da bendita irracionalidade
que aqui e agora é presente
se para sempre é mais que nunca,
a menina da tabacaria é que tinha razão
ao deixar-se de fitas que não são laços
e sem vergonha ou outros embaraços
comer chocolates como ninguém,
assim reciclo a prata que é de estanho
para renovar os envoltórios ao meu jeito
e das armaduras fazer corações pequenos
que na vetusta arte das dobragens
mais rápido sou banal do que louco
no pretensiosismo dos problemas
da minha monstruosa normalidade.

5.17.2011

«Ela dança sobre pregos» - Gerrit Komrij





























Versos magoam, a folha angustia.
Dão guinadas no corpo, infernais.
É o teu mal: leste poemas a mais.

Melhor perderes-te em música obscena,
Melhor deitares-te a ouvir cantilena
Do fogo consumindo uma pirotecnia,

Melhor rebolares-te em sei lá quê
Do que a dor e o decoro de quem vê
Ir-se a vida na Paixão da Poesia.


Contrabando - uma antologia poética, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 31