4.26.2011

Palavras



























Há palavras que nos beijam em suspiros
Como silêncios que nos calam firmes,
A verdade é que ambos nos matam
Comprimindo o corpo num feixe de vimes.

Outras vezes são só palavras
Que extinguem os silêncios da vida,
Os dias passam sem terem outra cor
E descobre-se uma honestidade suicida.

Há silêncios que nos beijam como lâminas
Se cada palavra é proferida como punhal,
Se respondes sempre para não ficar mal
Pedes sedento um peito aberto em chamas.

Só quem cala consente, pede mais.
Eu falo porque rejeito da dor o tormento
E dos outros não me comovem os seus ais,
O que arde em mim é ataraxia do fingimento.

Por isso não temas, o mar e as suas certezas
Que os beijos salgados no silêncio das palavras
Alimentam e extinguem-se em finas chamas raras
De alguém náufrago de si nos sonhos que desprezas.

Fácil





















Fácil é escrever
Se fazê-lo é sem sentido,
Para um escriba ou para mim.

É fácil sonhar
Como é arrepender-se
Ao fazer de cada qual o que não é.


É fácil ser a imitação
De um fogo que não arde,
Magoando sem fazer sofrer.

Difícil é pensar-se idealista
Sem tentar louvar outra dor
Por estranhos sentimentos
Que nunca definem o amor.

Difícil é ser-se honesto
Mesmo rumando à destruição,
Que ser cego é navegar o abismo
E enganar-se de encontro ao coração.


É fácil chorar,
O alívio que traz nunca é salvação.
Chorar será sempre em vão!

É fácil ser um santo,
Mas já ninguém rezará por nós
E só vivemos bem quando não vivemos sós.

Difícil é aceitar o que é real,
A mão fria que nos aquece
E que nunca se envaidece
Pela falta de desdém.

Difícil é reconhecer
Que quem nos quer bem
Implora desejos e reclama atenção
Sem pedir realmente nada em troca.


Fácil é ser-se sempre difícil
Enfrentando qualquer argumento táctil
Como uma brutal derrota que nos dispõe
Sobre estados inebriados e febris.

Fácil é roubar
Dos sonhos as tristezas
E fazer delas as alegrias em flor
Que entretêm novas estações.

Difícil é fazer-se comprometido
E não ser esse o objectivo
Por faltarem as aspirações
Que dispensem razões.


Fácil é ser compreendido
Quando o que se diz é sincero
Mesmo vestindo roupas de mendigo
Ou outras que te fazem peregrino.

Difícil é pintar aguarelas
A lápis com tons de carvão
Impossível senhor de nada
Que faz juízos da sua intuição.

Difícil é insistir num sim
Se a medo te respondem talvez,
Quando sem receio esperas um não
E o que vem não chega para inspiração.


Fácil é sofrer,
Difícil é quando não vês
Que fazes do precipício um vício.

Assim inventaram a escrita
Que solta o grito em surdina
Para dar o dito por não dito
Deste incêndio circunscrito.



4.22.2011

Estranhez






















É na praça velha onde escuto as mesmas canções
que outrora falavam aos corações quando não havia nenhuns
e aprendo a recordar enquanto me lembro de esquecer
sem nunca conseguir fazer gastas as memórias.

tu vens e dizes-me que uma alma nunca está cheia
mas mesmo assim prefiro sempre os desígnios de feiticeira
que me prendem sem me agarrarem e sem volta a dar
se são inocentes os mesmos julgamentos do olhar.

e digo qualquer coisa para não me fazer entender
que nesta estranheza comunicante procuro apenas estremecer
desconhecendo também por completo a tua língua assim te fiz
ao sentir-te estrangeira no meu próprio país.


4.16.2011

Inércia



























sou escravo das minhas próprias ambições
sou carrasco das mesmas pontuais ilusões
e sou rei de mim prórpio é verdade.

alguém quebrou os travões à locomotiva
de forma despropositada ou intencional
agora é tarde para avaliar estragos.

enfim e dito isto vá-se lá perceber a inércia
que impede os corpos de alterarem por si
o seu repouso ou o seu movimento.

4.15.2011

«Bom é que não esqueçais...» - F.Pessoa






















Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre


Fernando Pessoa

Circular

















Cleópatra, daqui escreve
Marco António, teu servo.
Encontra-me nesta mensagem,
Voltarei na luz distinta.

Quando Júlio César morreu
O nosso amor tornou-se livre
Mas Octávio venceu novo,
Em Ácio fez valor ao sangue frio.

Chegará ele com as suas legiões,
Entrará triunfante em Alexandria...
De nada valem as consagrações do triunvirato,
Protege Cesarião, herdeiro do império.

A prova há muito esperada
Que o amanhã chegou alvorece,
Desperta o mundo anónimo
Para a imagem imaginada
Da minha alma alterada
E tudo aquilo que não fui.

Propaga a existência por mais um período,
Nada efémero, puramente indistinto.
Maior que a dor do desabafo,
Reduzido pelo esgotamento do crepúsculo,
Pelo desatino do cansaço,
Em todo o limiar inconsciente.

Só um temor maior fará perder a chama
De um sempre eterno e futuro círio,
Só um desejo de sono profundo
E que nunca trás um novo amanhecer...
Não te deixes seduzir pelo conquistador,
Agora em Roma serás espólio de guerra.

Enquanto desfaço o peito de rompante,
Optarás pelo veneno da serpente.
Salvaguarda primeiros os teus filhos
Antes de executares a tua morte decente,
Esconde-os onde não os possam encontrar...
Despeço-me urgente minha amada,
Glória do pai entre os homens,
Rainha dos réis,
De um vasto império a Oriente.

4.14.2011

Simplesmente...


























Não sou capaz de lhe resistir,
Não consigo superar o seu discernimento.
Desisto de lhe fazer oposição...
Charme sedutor contra o erro de Platão.

Como posso eu resistir ao apetite dos pensamentos?
Como posso eu esquecer e negar estes tormentos?
Nunca será a beleza do artifício do meu fingimento
Um distúrbio repressivo do seu encanto honesto.

Recordo nos seus os meus enigmas
Num funesto enleio ficcional
E o intenso feitiço desperta-me outras ilusões...
Atraentes verdades, mérito de escravos e divindades.

Padeço de um severa disposição para a admiração,
Como resultado consequente do seu efeito em mim...
Aliciante, fatal e sedutora provocação
No requinte das formas simples em que se faz apresentar.

Mesmo que me desterre, envergonhado,
Para o argumento contemplativo das minhas irrealidades,
Continuamente será sincero o uso articulado
Destes ingénuos vocábulos e preciosidades.

4.13.2011

Resguardo Nocturno




























Paro um instante,
Depois de horas devorando o cenário gigante
Do meu trabalho inquietante de actor que se vai arrastando
Como aprendiz na arte de representar por códigos mecânicos
O conhecimento adquirido sobre a vida,
Pronto para agradáveis conjecturas psicanalíticas.

Estaco breve e decisivo,
Para soltar aquelas palavras cheias de sofismas dóceis
Herdeiros do mais impenetrável vazio reprimido
De tudo aquilo que oiço, vejo ou sinto...
Perturbações emocionais para chamar à atenção
Num pregoar ambulante de silêncios enigmáticos
Com a verdade própria em que me penso e desfaço.

O que seria de mim se não existissem palavras,
Onde poderia eu descansar?
Ou se não existissem de todo palavras,
Como poderia mostrar os meus delírios voluntários?
A verdade é que ainda me faltam conceitos para me alegrar...
Seria melhor devorar dicionários do que olhar o mar
Ou seguir a ciência que acredito sem discordar
Mas no fim profundo da semântica literal
Faltam sempre convicções que provem aos corações
Que sou preciso e exacto quando invoco
Os chamamentos da vida e as suas compleições,
A sua essência e as minhas paixões.

Gostava de encontrar modos simples de falar
Sem interacções poéticas e sem lamentações patéticas
Que me fizessem mesmo dispensar estas assombrações estéticas,
Gostava mesmo de exprimir-me clara e fingidamente
Num pensamento puro sem fumo ou sombras frenéticas
Para assim desvendar honesto as fiéis devoções
Que vivo como dever e dispensam outras significações.

Um milhar de noites não basta para conseguir ecoar
O grito de quem sonha por um ideal maior
Mas nas altas horas vagas a lua que clareia o olhar
Deverá ser a única que me perdoa
Velando por esta mágoa tentadora
De incessantemente desvairar.

4.12.2011

como às vezes nasce um poema



























faz um poema esvaziando os bolsos das ideias e depois apaga o rasto de tudo o que ficou de ti para que não sobre nada que possa voltar a crescer-te das entranhas.

o poema nem sempre é bem rematado apenas são abandonas as linhas a que chamas versos e todo os seu conjunto dissecará sem alimento tornando-se extemporâneo.

não esperes que a poesia vomite estrelas se não deixares sempre algo por dizer para que não te comprometas com um fim entregue ao abismo negro já que a melhor palavra é a não dita que guardas para quem se destina mesmo que não seja para ti e nem para mim.

às vezes o poema nasce na incapacidade de atribuir um termo apropriado aos pensamentos que evaporam de tão voláteis que são como se fosse altamente etílica a doutrina da sua concretização ou como se a conjunção caneta-papel servisse de comburente no processo de criação onde as ideias envelhecem rápidas e morrem antes de chegar ao escrito.

surge assim qualquer coisa inteiramente diferente do propósito original pretendido sem que se atropele a sua razão fora dos territórios calculados e como às vezes nasce um poema de forma espontanea nestas condições normais de pressão e temperatura posso metamorfosear-lhe o sentido de forma a poupar-me para usá-lo noutro dia qualquer ou assim deixá-lo ficar indistinto.

4.10.2011

Verdes Anos




















verdes anos
os que passam
os que te fazem
os que te dão

verdes anos
de calor e desejos
de clamor e sobejos
de procura e salvação

verdes anos
que ao corpo voando largos
antes pesassem leves no sentido
da semente que anuncia a despedida

verdes anos
raízes de quem te deixou
no peito a saudade de porta aberta
e no coração uma inelutável partida

verdes anos
alguém que vai é alguém que sempre fica
em avultadas recordações sem ódio e sem justiça
desta chegada que é apenas um inefável e longo adeus

verdes anos
vivências vencidas de quem mais não volta
de capa aos ombros a percorrer os escombros
destas ruas que são remendos feitos de sonhos terrenos

verdes anos
provérbios de uma vida só
que agora começa e não termina
nas memórias de um passado estorvo

verdes anos
tempos prestos de luz densa
de alguém que partiu para voltar
e ser em mim tudo o que fui e agora sou.


4.08.2011

«Canção Pagã» - Luiz Goes
























Lá longe,
Onde o sol aquece e chama
Sem distinguir os homens dos meninos.
Lá longe,
Onde não há nenhuma cama
Que saiba que há amantes clandestinos.
Lá longe
Onde a vida não arrasas
Oh maldição dos deuses pequeninos.
Lá longe,
Talvez o amor encontre casas
Lá longe, lá longe!

Lá longe,
Onde a terra ainda deixe
Bichos e homens livres pelas matas.
Lá longe,
Onde as gaivotas comem peixe
Mas não na esteira turva das fragatas.
Lá longe,
Onde não tereis futuro
Oh vendilhões da água das cascatas.
Lá longe,
Talvez o amor possa ser puro
Lá longe, lá longe!


Luiz Goes, in 'CANÇÕES DE AMOR E ESPERANÇA'
[letra: Leonel Neves; música: Luiz Goes]

4.01.2011

«Nada, só borras, só fundo» - Gerrit Komrij























Vivíamos os dois num velho palacete.
Sem chão nem tecto. De paredes nada.
So what? Palacetes diziam-nos pouco.
Era uma granja meio desmoronada.

Fazíamos sempre grandes conversas.
Nada importante. A política, o tempo.
O amor? Tá bom, íamos nós lá nisso!
Cavaco de café, um passatempo.

Bebíamos poesia dum jarro.
Nada de cristais. Um copo marado.
Conteúdo? Nada, só borras, só fundo.
Era uma poesia de tostão furado.


Gerrit Komrij, in 'Contrabando'