3.28.2011

Afectação Ingénua



















Com a graça louca dos dias
os pássaros enchem de som os beirais,
árvores velhas, bancos de jardim
chão das praças e arranjos florais.

Os expressivos perfumes matinais
são mais promessas de anti-heróis,
jactâncias invernosas e ridículos existênciais,
comentários de camas frias, campos verdes,
os mais insipientes vendavais.

A verdade é que quero mesmo,
quero muito, quero bem...
até quando fujo das pessoas
mesmo assim não vens
tingida como quem se julga carne,
incapaz de sofrer mais.

3.27.2011

Capitular

























Nunca são as promessas do café matinal que aumentam a libido,
É certamente o deleite do açúcar que o abranda e acompanha,
O fumo quente que o aconchega, a húmida névoa da manhã.

Os prazeres são fracos quando feitos verdadeiramente sem malícia,
São desvarios que transformam explícitos desejos vulgares
Em coisas tamanhas sem uma necessária lógica exigente
Sobre estandartes de guerra ou bandeiras brancas.

Nem só na aurora os sonhos tocam no mundo real,
Nem mais que um dia duram as nuvens na travessia do deserto,
E para voar? O mais importante é aprender a inspirar e a expirar...
Não basta apenas saber abrir bem as asas, assim vence sempre o cansaço.

A forma de discurso directa nem sempre é a mais certa,
Bem como complicar a vida é consequência de querer torná-la simples
Mas para agir bem o melhor é evitar pensar porque a sanidade das horas é inútil,
Nunca se pode esperar fazer grande coisa com ela, julgando o seu todo ou apenas parte.


3.24.2011

Contraforte - Ilustração




























Contraforte
reforço de muro e muralha
sustento da pressão da abóbada
que se ergue aos clerestórios
com arcobotantes e botaréus
sob a força que descai nos ombros.

Abside
magistral de cúpula e tambores
sobre trifórios imponentes
festivos miradoiros deambulatórios
das capelas radiantes
que iluminam quentes
o coro do presbitério.

Lanterna
edificante em beleza e estatura
alçado grandioso de forma voluptuosa
retocado com preciosismos ornamentais
por gárgulas jambas lóbulos
rosáceas píncaros pináculos
florões e vitrais.

Arquitrave
onde germina o portal das arquivoltas
renasce o nártex que projecta a nave
e o transeptonum tramo prudente de ligações
às colaterais arcarias tentadoras das uniões rendilhadas
para simples deleites estéticos medievais.

3.21.2011

Poente




























escolhias-te sem memórias e sem sonhos,
franzias o olhar e encolhias os ombros,
para não saber o que fazer com o presente.
apontavas aos extremos para falar do passado e do futuro
em equilíbrios virtuais, nada essenciais,
que nunca apontavam para um caminho de regresso
mas sim um turbilhão de retalhos coloridos mal definidos.
prendias-te muito ao passado,
impossibilitando a vivência dos momentos
por mais breves que eles fossem,
por mais intensos que se mostrassem.
inebriavas-te com o futuro,
de tal maneira que os instantes presentes
eram vividos como longas estações sem sabor
esquecendo que a vida são degraus
e planícies que se vão sucedendo.
não faças gastas as memórias de quem és
ou dos sonhos que te fazem
porque quem apenas vive vai morrendo,
foi o que alguém te disse.
uma alma nunca está cheia e não se espera vazia,
nem as pedras podem desejar ser eternas e imóveis
mesmo quando lhes sussurram que desistam do bom
na fatalidade de encontrar o melhor.
no meio de tudo isto deixaste-te preencher
por muita luz, tamanhas nuvens e tantos ruídos,
aprendes agora a respirar balanceando sem fingir sorrisos
para um dia descobrires que estás em frente à tua casa
novamente, com medo de abrir a porta poente
enquanto o sol se deita sobre o entardecer,
porque tudo esteve sempre ali como foi deixado,
escondido à espera de ser descoberto.


Nem sempre tudo é tão eterno como se espera, a espera sim é eterna...
uma procura imóvel feita de eternos recontros.

3.17.2011

Imputação






















Arrancas o coração do peito e atiras-mo pras mãos
não sei se estava quente ou frio, deixei-o cair precipitadamente
e a verdade é que se estilhaçou no chão em mil pedaço
para agora a luz do sol multiplicar o seu brilho.

Talvez o coração nunca tenha existido
o que me atiraste foi um corpo vazio
e se o abismo não tem fim, só o céu é um novo começo
do qual continuamente me afasto.

Vem o vento, as alturas e as vertigens
numa aceleração de mais um princípio nefasto
tão grave como paragens bruscas
onde me agarro ao que resta com a força dos braços.

Por fim deixas o teu sorriso ingénuo de inocente
que se estende magoado num olhar de marés
e se não é a tormenta que me arrasa, nem me faz doente
arrasta-me apenas para outro porto seguro.


3.13.2011

Meio-argumento






















Não há nada que me prende aqui...
A não ser o teu olhar.
Já não há nada que me prenda a ti...
A não ser o que ficou por contar.

A pior mentira é uma falsa verdade
E é por isso que eu te recuso e abjuro
Com argumentos de temor à felicidade,
Na clausura e zelo aos próprios sentidos.

É então que eu renego,
Tudo o que disse é mentira...
Já não há nada de livre aqui,
Não há nada de que tenha medo.


Actos falhados




























Ingénua e prospectiva
Vontade de um acto falhado.
Não a posso escrever com firmeza
Se as inconsistências a isso obrigam.
Os versos sobre faltas de comparência
Oferecem sempre poemas cheios deles.

«Por favor, não me analise» - Mirthes Mathias























Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu…
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!


Mirthes Mathias, in Bom dia amor! (Juerp, 1990)
Mario Quintana

3.10.2011

«Canção Amarga» - David Mourão-Ferreira






















Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
— Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu, só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
— Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

3.09.2011

Purga



























Lava as mãos
Lava bem essas mãos
Que é sangue o que as impede
De tocarem benevolentes noutras mãos.

Lava o rosto também
Lava-o com a água mais fria
Para diluir bem o tóxico pestilento
Das tuas lágrimas impróprias, impuras e pungentes.

Ao absurdo




























Escrevo palavras numa folha
que dobro em quatro porções
como quem inventa mistérios
que aspiram a coisa nenhuma.



Arremesso





























Amizade, família e amor
São dívidas que contraímos na partilha de vivências
Entre esperança, glória e alguma dor,
Por vezes.

Tanto é o que me oferecem,
Sempre tão escasso o que dou...
Transformo-me assim num arrependido,
Num eterno devedor.

Na grandeza feia do gesto
Acredito sempre de mais e de boa fé
E defendo-me para lá do grande cabo lesto,
Onde batem os ventos mas não sinto os tormentos.

Fortaleço este instinto
De resistir como um Adamastor
Às partidas, aos barcos, ao sal e à maresia,
Aqui só posso ser um fingidor.

Não passo de uma frase feita
Se é lá fora que a vida se faz,
Onde não acredito em nada
E costuro os meus próprios remendos.