2.16.2011

Auset























fala,
não digas nada
que o silêncio do olhar nunca se cala.

escuta
a voz morna do vento suão
que vem do deserto caprichoso
como um bafo quente de passo calmo e brando.

a primavera chega em mim
de matizes verdes-menta e grinaldas,
em auroras de vermelhos-cereja e cetins celestes
que transportam de volta as andorinhas em bando
aos beirais e sítios ermos onde deixaram os ninhos.

enquanto o último gelo derrete,
descubro que o meu coração de pássaro
que se alimenta do sangue renovado em ebulição
contém ferro suficiente para fazer extinguir uma estrela
e com a sua explosão catastrófica incendiar todo um sistema.

a eterna brisa do sul
vem e anuncia-se como fértil aprendiz das horas vagas
que evapora o orvalho da terra até às extremidades dos ramos
onde se granjeiam as folhas viçosas e amadurecem as frutas amargas,
esboroando em si o sal das árvores de toda uma planície que não é mais ilusão.


2.03.2011

«Como podemos esperar» - João Miguel Jorge


























Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
«estou sentado virado para a parede desta casa»
baixo, mais baixo ainda,
«estou sentado virado para a parede desta casa».

Fazer que não haja sucedido o sucedido.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?


João Miguel Fernandes Jorge, in "Direito de Mentir"

«Sorriso Audível das Folhas» - Fernando Pessoa



















Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"