1.25.2011

Estendal


"Deseja tudo,
espera pouco,
não peças nada."
Stendhal






















deseja tudo,
sonhos tão teus de cortesia
delicadezas do acaso ou do destino
com intensidade igual ao sol do meio-dia.

espera pouco,
procuras imóveis desgastam a eternidade
porque quem sempre promete nunca vem
e quem não promete é fiel na pontualidade.

não peças nada,
nem mesmo uma maçã
quanto mais a madrugada
aceita só, de bom grado e retribuí.

se não desejas não dás valor,
se esperas muito reprovas-te continuamente,
pedindo mostras o quanto és de inútil e obsoleto,
roupa que se esqueceu ao sol, sem dignidade e indigente.

desejando ambiciona ao impossível,
esperando nunca te vendas em demasia
e ao bom preço em que se julga o pedantismo,
não peças, não temas e troca os ventos por maresia.


Om mani padme hum



Morning Consciousness, Dionisio Ceballas (2004)


sem memorias ou sem sonhos não sabes o que fazer do teu presente deves aprender a respirar no meio de tudo isto
balançando sem fingir sorrisos e
deixar que a felicidade te complete com a verdade escondida em
ti por te
esqueceres que os outros receios te impedem de ser quem és e vives novo cada dia.

1.07.2011

«Todo o tempo é de poesia» - António Gedeão






















Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.


Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.


Sob a cúpula sombria
Das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.


Todo o tempo é de poesia.


Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.



António Gedeão, in Poesia Completa

1.06.2011

«Inverno estival...» - Federico García Lorca

"Tardes estivales. Cantos de imposibles.
La Templanza se duerme y reina la Paisón.
Se diría que nadie piensa en la blanca luna
Ni en Chopin amoroso ni en Schuman que se esfuma
Como luz en sombras... Roja desolación..."


























(...)
Tardes estivais. Carne, carne e carne.
As estrelas fortes dos grandes desejos
iluminam gloriosas, cheias de sonolência,
os doces mancebos, arautos de impotência
que riem eternos, formosos e feios.

Tardes estivais. Tardes estivais.
A luxúria esconde-se sobre a vossa calma.
A ânfora grandiosa das vossas
inquietudes
ao derramar-se mata as azuis virtudes.
Chorosas tardes. Naufrágios da alma.

Federico García Lorca
(tradução: Carlos do Rosário)