
rosa-brava, malmequer...
se as palavras são remédio
que morra o tédio, sim
e seja livre quem estiver.
Das flores que se conhecem odores
só as distinguem quem souber
viver livre de amores e assim
saber de cor os códigos e as cores
para colhê-las bem quando quiser.
Sem fazer nada para agradar
chegará o contento quando vier
que, de chá em chá, fica sem desdém
quem souber esperar para voltar
e regressar como convém.
Acaba a ceifa em banhos quentes
onde o trigo se leva pelo joio,
onde se deixa só o restolho em planícies
dos corpos nus que queimam as línguas
e quantos dentes as bocas têm.
Sem esperar pela maré mudar,
o vento de agora não é de azar,
não há valor em dar tudo o que se tem...
será sempre o mesmo casaco axadrezado
que acaba por se trocar e vem.
Por isso devem manter-se os padrões
sempre que os alvores do acaso
sejam prole de maiores pavores
que sabem roubar lágrimas às dores
e fazer das parcas horas dias maiores.
A cada passo de avanço a recusa,
recuo-o também para fechar os portões
que a tasca não empresta fiado,
serve de aviado, não aceita cartões...
ah, e é domingo, os correios não abrem.
Fico eu a mitigar porque razão
a miséria no mundo é tanta,
o papel de carta é pequeno
e a vontade de me fazer confuso
explica tanta coisa sobre o mundo.
Contudo tenho como único propósito
não encontrar justificação do modo
como não encontro o coração
de encontro a outro tão só e vazio,
que não desejo e não me é pertença.
Sabe-se, que tenho o meu algures
muito bem guardado e luzidio,
que este outro que uso é emprestado
e estimo-o, aquece e mantém-me acordado,
por maior vontade que tenha de devorá-lo.
Esta dádiva de coração
tem um bater compassado
que não encontro noutro lado
e tem toda a atenção do mundo
num olhar demorado.
Esta combinação de consciência
tem as cores das horas sem tempo,
tem os ponteiros num juízo acertado
que entrega em mãos frias o corpo
e me impedem de revoga-lo...
Se escrever não tem remédio,
não importa o que já foi escrito,
que eu quero ser um condenado
e para isso espero também ter tempo
mesmo quando o meu anda mal parado.
Nestas calendas reais que se destruam os contos
onde recobro a veemência de antigos cantos
que se afloram sobejamente em mim
nos futuros de um passado agora presente
que me prima, acalenta e consente.
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