4.13.2011

Resguardo Nocturno




























Paro um instante,
Depois de horas devorando o cenário gigante
Do meu trabalho inquietante de actor que se vai arrastando
Como aprendiz na arte de representar por códigos mecânicos
O conhecimento adquirido sobre a vida,
Pronto para agradáveis conjecturas psicanalíticas.

Estaco breve e decisivo,
Para soltar aquelas palavras cheias de sofismas dóceis
Herdeiros do mais impenetrável vazio reprimido
De tudo aquilo que oiço, vejo ou sinto...
Perturbações emocionais para chamar à atenção
Num pregoar ambulante de silêncios enigmáticos
Com a verdade própria em que me penso e desfaço.

O que seria de mim se não existissem palavras,
Onde poderia eu descansar?
Ou se não existissem de todo palavras,
Como poderia mostrar os meus delírios voluntários?
A verdade é que ainda me faltam conceitos para me alegrar...
Seria melhor devorar dicionários do que olhar o mar
Ou seguir a ciência que acredito sem discordar
Mas no fim profundo da semântica literal
Faltam sempre convicções que provem aos corações
Que sou preciso e exacto quando invoco
Os chamamentos da vida e as suas compleições,
A sua essência e as minhas paixões.

Gostava de encontrar modos simples de falar
Sem interacções poéticas e sem lamentações patéticas
Que me fizessem mesmo dispensar estas assombrações estéticas,
Gostava mesmo de exprimir-me clara e fingidamente
Num pensamento puro sem fumo ou sombras frenéticas
Para assim desvendar honesto as fiéis devoções
Que vivo como dever e dispensam outras significações.

Um milhar de noites não basta para conseguir ecoar
O grito de quem sonha por um ideal maior
Mas nas altas horas vagas a lua que clareia o olhar
Deverá ser a única que me perdoa
Velando por esta mágoa tentadora
De incessantemente desvairar.

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