4.01.2011

«Nada, só borras, só fundo» - Gerrit Komrij























Vivíamos os dois num velho palacete.
Sem chão nem tecto. De paredes nada.
So what? Palacetes diziam-nos pouco.
Era uma granja meio desmoronada.

Fazíamos sempre grandes conversas.
Nada importante. A política, o tempo.
O amor? Tá bom, íamos nós lá nisso!
Cavaco de café, um passatempo.

Bebíamos poesia dum jarro.
Nada de cristais. Um copo marado.
Conteúdo? Nada, só borras, só fundo.
Era uma poesia de tostão furado.


Gerrit Komrij, in 'Contrabando'

10 comentários:

Cristine Lima disse...

Olá, tudo bem?
Passei para uma visitinha e aproveito para te convidar à ir lá no meu cantinho também, tem novos posts.

Rita Graça disse...

A primeira estrofe lembra-me esta música:

"Era uma casa muito engraçada, não tinha tecto, não tinha nada..."

(não me consigo lembrar de como contínua)

*

Rita Graça disse...

*continua (sem acento)

Daniela. disse...

«Bebíamos poesia dum jarro.
Nada de cristais. Um copo marado.
Conteúdo? Nada, só borras, só fundo.
Era uma poesia de tostão furado.» fascinou-me por completo.

João Afonso Adamastor disse...

Rita, embora este senhor viva em Portugal (há dezenas de anos) tenho cá pra mim que ele não conhece essa música e não precisas corrigir a tua grafia, embora aprecie quando o fazes com a minha x)

Daniela, é normal o fascínio que as palavras deste poeta soltam. A maioria dos seus poemas são leves e não longos desabafos ... contudo o seu tom é mordaz, provocador, sem regras, embebido numa espécie de loucura estranha que se vai apreciando o sabor com a descoberta, versos embrulhados num puzzle irónico em que as peças desabam sobre si mesmas enquanto ainda pairam sobre o abismo ou quando se edificam lá do fundo, mas sempre com uma lucidez positiva de quem tropeça, caí e ergue-se de novo com a eterna curiosidade de tudo.

Contrabando - Uma Antologia Poética (Assírio&Alvim) recomenda-se a quem aprecia poesia não ornamental.

Daniela. disse...

É muito pior quando se quer traduzir a revolta sentida em palavras mas se sabe, à partida, que essas palavras serão punidas pela sua simples existência. Entendes?

Um Pagão disse...

Olá João. Permite-me tratar-te assim.
Obrigado pelo comentário. Foi um dos comentários mais interessantes que já recebi. Mas contudo acho que não percebeste na totalidade o que escrevi. Mas também todos os textos, para os leitores, tem centenas de apoteoses de interpretações, e cada um tem a sua. Mas gostei muito do teu comentário, e não é por não ter muito sentido com a intenção com que foi escrito que não reterei sabedoria de lá. Obrigado mesmo.

Um Pagão

Daniela. disse...

As tuas palavras maravilham-me e eu prezo-as bastante. O silêncio, já que falaste nele, é forte que nem prisões. Faz com que lhe obedeçamos literalmente e, caso isso não aconteça, acabamos por proferir palavras que, provavelmente, não eram esperadas pelo receptor. Contudo, a surpresa de expressões nem sempre corre bem, como eu dizia num anterior comentário.
Quanto às palavras que tão bem mencionaste no teu comentário, devo dizer-te que são elas que me inspiram. Aliás, digamos que as palavras são noventa e nove por cento da minha vida. São como as minhas companheiras do quotidiano, até. E muito obrigado pelas tuas, mesmo.

Rita Graça disse...

Lembrei-me do resto da música (ok, admito, a minha colega de casa estava a cantá-la quando cheguei). Reza assim:

Era uma casa muito engraçada,
não tinha tecto, não tinha nada

Ninguém podia dormir no colchão
Porque a casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque a casa não tinha parede

Ninguém podia fazer xixi
Porque sanita não havia ali.

(Descobrímos agora que a versão original é do Vinicius de Moraes. Acho que a letra que conheço é adaptada da original)

João Afonso Adamastor disse...

Ahaha, Rita eu já conhecia a música que falas, tb fui criança... sabes?! xD

Fica aqui o link pra ouvires, sempre que te apetecer, músicas infantis do Vinicius :)

http://www.youtube.com/watch?v=7BSqoooXnac