12.06.2011

lições de antibotânica



























só na botânica existem amores-perfeitos
onde se trata com prioridade o que se destrata por opção.

que nem todas as coisas crescem em vasos,
que nem todas as coisas precisam de terra.

todas as coisas precisam de sol e água,
todas as coisas precisam de alimento e cuidado,
de atenção e zelo, de calor e resguardo.

todas as coisas precisam do seu tempo
e são as coisas vivas que precisam mais de atenção
para pôr em si sossego na quietação do seu fermento.

nada cresce verdadeiramente só
mesmo quando se julga que esse é o modo mais correto
e sem justificações para se ter em sobejo.

sem se desprender do quanto se é em favor de outro
ou de alguma outra coisa que não o próprio e que lhe tenha valor,
não sobra para si mesmo nem o desejo de outra coisa alguma.

assim é difícil definir algo de bom, tão frutuoso e preeminente como
a superioridade de um rochedo que pelo seu redutor egoísmo é o mais elevado,
o mais confiante e o que lapida em si o seu verso em pontas de bailarina clássica.

ou então a punho fechado num grito tão seco do quanto interior se faz
como espelho de um medo que imprime balanço e que funcionando como pêndulo hipnótico
adula e embala mas nunca adormece ninguém ou alguma coisa de real.

fantasia, só fantasia e o abrigo da calmaria
quando não é o alento do vento e vai pedindo sempre aos outros mais de si,
fechando-se cada vez mais no mesmo reduto de onde reclama pelo que não há quando não dá
e pelo que não tem quando não quer.

ao encolher os ombros numa suplicante dúvida disfarçada e confusa
sabe que o que realmente deseja ou precisa não existe,
sabe porque é inexistente e em si não pode existir nada.

vejam uma flor em que não podemos admitir que se sente só por não saber o que isso seja,
apenas tem consciência de si e tinha por desejo crescer livre ou quanto muito
dentro de um vaso e à medida que crescia pedir um vaso maior para não se findar,
eis que a colocaram numa jarra e certamente irá murchar em pouco tempo.

poucos são os seres vivos que fazem em si o seu ninho,
até as plantas precisam de fazer crescer as suas raízes,
não podem abrir as asas para voar como as aves
mas alongam e delongam as suas raízes para se fixarem ao solo,
para se alimentarem da sua liberdade.

como me agrada o desassombro da liberdade,
como se me afigura essa imagem estética de proceder por vontade própria como bem nos pareça
e simultaneamente saber que é apenas um vaso chinês que muitas das vezes só contém
água e nenhuma terra que seja capaz de nos fazer suster.

11.24.2011

atonalidades.





























Os pássaros cantam neste outono
como se fosse naquela primavera
onde tudo ficou no seu devido lugar,
agora que as folhas se desfazem no chão

sabem doentes de amores que o inverno está à porta,
trazem então o coração à boca com mudos desejos
e no seu piar sufocado pela rigidez da garganta
reivindicam saudades de um velho peito em chamas
ou da falta de um cómodo ninho ou de asas apenas
que os leve às terras onde o calor se faz presente.

Reconhece-se o bulir dos carros rua abaixo
como se fosse um bando de ondas calmas, frias
que atravessam todo trópico de manhã à noite,
escuta-se mas não se vê água nas vidraças,
nem o céu cinzento, nem a varanda alagada,
a chuva não é mais do que uma constante
que de tanto se vista já não se vê, como a rua
e os chapéus negros que vão tapando o caminho.

11.08.2011

Poetético







"Basta sentir que se poderia
viver sem escrever para
não se ter o direito de fazê-lo."
Rainer Rilke



















És mais que um tesouro,
mas há muito que os deixei de procurar
perder-se-me-ia assim a idade sem prosperar.

Fácil de entender,
o que encontro não sou eu mas outro melhor no caminho,
sem intermitentes falhas e acertos de comunicação,
coisas das tais para se compreender e julgar sozinho.

Que eu não quero
esperar por outras estações,
ansiar por demais disjunções
se foi para adormecer no mar
que se construíram as grande embarcações.

Desrespeitar
as regras e os dilemas,
outros jogos e estratagemas,
que os provérbios e profecias
foram tão somente consensos
com as palavras certas dos tempos.

Fui apenas
o que nunca soube, que nunca ligou aos dados,
entretinha-me a juntar letras em trajectos ondulados
e no meio de tudo não sou eu quem eu sou,
sou apenas um dos que desejam manter-se vivos
com as coisas que nos chamam de outros lados
e que ocupam espaços desocupados.

Patético,
nunca saber falar com estranhos,
pensar que as palavras escondem pensamentos e outros enganos,
acreditar que cada qual se descreve numa linguagem certa,
esquecer a sua própria quando lê e quando o autor não lha concerta,
esquecer-se de fechar a porta e ainda deixar a janela aberta,
julgar que a vida é um circo e há animais que gostam de jaulas,
que quebram velas, pisam terços e fogem sempre às procissões.

Isso sim!
descobrir que compreender não é julgar,
quantas vezes os códigos possíveis não têm lugar.
quando cheguei aqui tinha outra idade - a tua idade
e o unanimismo gastou-se onde os outros -ismos são sem sentido,
por vezes sofrer é não desejar e é assim que nos definimos.
os desabafos feitos de palavras que não têm um ritmo concreto
espalham-se assim banais em poemas com menos vontade do que um verso,
o que não fomos nunca o soube ao certo, cego de amorismo.

11.05.2011

Corrente
















'The Water Mill', Meyndert Hobbema,
Oil on canvas - 1660s







O que faz toda esta água
Que vem do cimo,
Que corre lá para baixo?
Desce por aí livremente,
Faz girar as pás
E agita os moinhos
Com o roçar das mós,
A força dos grãos
E os alvitres dos crivos.

Oferece o sustento do pão,
A palavra que extinguindo a fome às bocas famintas
Alimenta as esperanças de uma grande nação.

11.04.2011

escuto
















quando o tempo que passou
foi o que bastou,
para ser preciso voltar atrás
e seguir em frente,
para chegar mais além
onde não existisse um começo
que transporte tudo a um fim,
escuto...
o que ficou de ti.

11.01.2011

reducionismo


















se ser feliz é uma arte
ser feliz é ser-se outro que não o próprio
mas sendo o mais fiel a ele mesmo
na renuncia da pertença ao que lhe pertence
e não lhe pertencendo absolutamente nada,
nem a sua própria felicidade.

pela estatística bebe em média três copos entre amigos
de vinhos e outras bebidas de estranhos odores
mas como o que faz não é para seu proveito,
sabe-se que não bebeu nem um copo
mas divide a conta com contentamento
porque sente-se bem com o seu sustento.

embora não a reconheça,
nem esteja convencido da sua existência,
a sua felicidade não é dele embora lhe pertença
e nenhum dinheiro a pode comprar,
assim só pode ser feliz por não se achar infeliz
e ser verdadeiro consigo próprio.

10.08.2011

Counting Clocks























Before the frozen winter fall, the leaves turn red and brown
with shadows that remind days wasted in the sky at dawn,
or in the golden hours between then and now
where the night comes out as my eyes swan,
not to frown at their swift counting clocks.

10.03.2011

Só falta o que é preciso





















Só falta o que é preciso
quando falta o que conspiro...
Para quem me perdeu
que não me espere encontrar
onde se perdeu num suspiro
o mais que não posso estar
e até onde nunca estive,
onde apenas vivi perdido
de qualquer coisa destemido
para a qual não sei voltar.

Só enquanto me penso feliz
os outros me fazem pelo contrário,
maior bondade não devo julgar
neste tempo que fico a desejar
não ser levado pelo corolário.
Que o mistério que a vida tece
não nega desejos a quem oferece
no desapego que sabe aferrar
os ávidos beijos do anonimato
que à minha boca vem parar.

Só não sinto falta quando está
o corpo de quem sinto o perfume
ou o conforto na presença ausente.
Que nunca é tarde se nunca foi cedo
para se desfazer eterno o presente
nesta sede de que se me esquece
o que foi mau de qualquer coisa boa,
o que foi bom em qualquer coisa má
e aceitar que quando falta o que é preciso,
só faz falta quem verdadeiramente está.

10.02.2011

Mutilação dos contos




















Lúcia-lima, erva-cidreira,
rosa-brava, malmequer...
se as palavras são remédio
que morra o tédio, sim
e seja livre quem estiver.

Das flores que se conhecem odores
só as distinguem quem souber
viver livre de amores e assim
saber de cor os códigos e as cores
para colhê-las bem quando quiser.

Sem fazer nada para agradar
chegará o contento quando vier
que, de chá em chá, fica sem desdém
quem souber esperar para voltar
e regressar como convém.

Acaba a ceifa em banhos quentes
onde o trigo se leva pelo joio,
onde se deixa só o restolho em planícies
dos corpos nus que queimam as línguas
e quantos dentes as bocas têm.

Sem esperar pela maré mudar,
o vento de agora não é de azar,
não há valor em dar tudo o que se tem...
será sempre o mesmo casaco axadrezado
que acaba por se trocar e vem.

Por isso devem manter-se os padrões
sempre que os alvores do acaso
sejam prole de maiores pavores
que sabem roubar lágrimas às dores
e fazer das parcas horas dias maiores.

A cada passo de avanço a recusa,
recuo-o também para fechar os portões
que a tasca não empresta fiado,
serve de aviado, não aceita cartões...
ah, e é domingo, os correios não abrem.

Fico eu a mitigar porque razão
a miséria no mundo é tanta,
o papel de carta é pequeno
e a vontade de me fazer confuso
explica tanta coisa sobre o mundo.

Contudo tenho como único propósito
não encontrar justificação do modo
como não encontro o coração
de encontro a outro tão só e vazio,
que não desejo e não me é pertença.

Sabe-se, que tenho o meu algures
muito bem guardado e luzidio,
que este outro que uso é emprestado
e estimo-o, aquece e mantém-me acordado,
por maior vontade que tenha de devorá-lo.

Esta dádiva de coração
tem um bater compassado
que não encontro noutro lado
e tem toda a atenção do mundo
num olhar demorado.

Esta combinação de consciência
tem as cores das horas sem tempo,
tem os ponteiros num juízo acertado
que entrega em mãos frias o corpo
e me impedem de revoga-lo...

Se escrever não tem remédio,
não importa o que já foi escrito,
que eu quero ser um condenado
e para isso espero também ter tempo
mesmo quando o meu anda mal parado.

Nestas calendas reais que se destruam os contos
onde recobro a veemência de antigos cantos
que se afloram sobejamente em mim
nos futuros de um passado agora presente
que me prima, acalenta e consente.


8.10.2011

Lembranças de Cannes




























Traz-me na memória de Madrid,
para que o que passámos juntos
seja não mais do nada que é
em todo o tempo que temos,
sem que na Plaza del Arrabal
faças do meu corpo um auto-de-fé.

Levo-te pelas memórias de Paris,
de Montmartre a Montparnasse
nas esplanadas de ruas iluminadas
à margem do Sena e bancos de jardim,
para que cada novo começo
não marque apenas outro fim.

Traz-me como uma recordação,
na viajem do teu regresso
em troca desta espera
aflita por conjunções.

Levo-te comigo para Cannes,
mesmo quando não sei se vou
mais além da tua redenção
no escopo desta paisagem.

«Procura da poesia» - Carlos Drumond de Andrade

























Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Carlos Drumond de Andrade, in 'A Rosa do Povo'

7.22.2011

«O Movimento das Células» - Sylvia Beirute


























a substância do verso não forma uma linha,
que o seu conjunto se assemelha
à representação de quiasmas. e então
falamos de células e da sua divisão marítima,
ouvimos, ali ao lado, alguém dizer, com a
autoridade de um LOBO:
{primeiro procuramos a solução,
depois sonhamos o problema}.
o certo é que vamos demasiado longe,
demasiado longe para a mesma certeza,
até que nos tornamos amovíveis.
de noite, cansados e sem a responsabilidade
moral de escrever um poema, e
sem mais precisarmos
de distorcer instantes na cidade subtil,
pensamos no silêncio.
{criar muita poesia é criar muito silêncio}, dizes.


( mais um dos seus muitos poemas seus que selecciono
porque a uniformidade da sua escrita nunca se esgota )

7.09.2011

Prato Limpo



come-me sem nunca lavar as mãos primeiro,
não espero mãos puras, nem frias, mas quentes
e prende-me também a lingua aos dentes
para que a ausência de palavras vença.
deves comer-me sem me lavar se quer
que a água desfaz o odor dos corpos,
roubando-lhes os sais que se trazem na pele
e que viciam até as almas mais hipotensas.
só regando com álcool é que vês crescer
a saciedade das feridas na boca por sarar,
se me faço de sal também acredito ser punhal
repete quando assim desejares mais sangue.
usa-me e não penses em poupar-me,
só o egoísmo te fará sempre prevalecer
porque é pensar-te outro que faz doer
e esquecendo-te de ti que nunca resistes.
no fim limpa os lábios à carne
feita de açúcar canela café e algodão
mas deixa o prato que se quer limpo,
levando contigo de volta impuras
as mãos soltas e para sempre tuas.

Amar é acreditar-se poeta



























Doentes crónicos de amores
são loucos os líricos sonhadores
que de tão novos para parecerem velhos
são os mais contentes sofredores
que choram os seus fulgores
pelas picadas que soam a espinhos
das flores que tão bem (es)colheram.

Por isso, matem-se a vós próprios
com os vossos corações quentes
deixai-me aqui só (não peço mais)
com um garfo de dois dentes
enquanto vão à ribeira dizer aos moços
o quanto deles vos fazem doentes
que eu fiquei assim como quis
festejando com uma taça de frutas
vermelhas e sem caroços.

Poluí-se tanto a palavra amor
com sensações que (não) se sentem
que nunca traduzem num entendimento
a mais autêntica ingenuidade
que define um sentimento
e como soubesse bem o que isso seja
sem cair no ridículo desse engano
simplesmente não digo
que é por tanto te amar assim
que na verdade não te amo.

Com tudo isto, sei
o quanto amar (uma mulher)
é acreditar-se poeta
e fazer dos outros o que não são
numa ilusão fugaz de permanência
sem quebrar um prato de redenção
neste fino presente desejo de ausência.


6.28.2011

«Dia não» - José Saramago
























De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas.


"Dia não", poema de José Saramago

6.27.2011

Desejo (nada maior que vontade)



























Neste momento queria estar na lua,
não que queira estar longe de alguma coisa.
Simplesmente para estar lá,
ver como são as coisas de cá.

Neste momento gostava de estar na lua,
não que desgoste de estar aqui.
Simplesmente para estar lá,
ver coisas que nunca vi.

Neste momento desejava estar na lua,
não que deseje outro lugar qualquer.
Simplesmente para estar lá,
ver sem mim esta rua.

Neste momento poderia estar na lua,
não que pudesse encontrar-me sem ela.
Simplesmente para estar lá,
ver como me vê da janela.

Neste momento a vontade é de estar na lua,
não que fique sem um outro lugar.
Simplesmente para estar lá,
ver tudo sem me preocupar.


Tudo num nada




























Não falarás da morte
nem dos males de amor,
se é vida que corre em ti
nesta luz que me atravessa.

Eu ainda estou aqui quando não vês,
qual é o motivo de não ser visto?
será por encontrar-te em toda a parte
e assim também não te ver?

Prefiro a matéria concreta e concisa do tempo,
preciso a matéria concisa e consciente do tempo,
prevejo a matéria consciente e concreta do tempo,
a matéria concreta concisa e consciente é este espaço.

As horas não têm esta idade,
a identidade das horas é especulativa,
as ilusões do tempo são esta mesma realidade
(por bem ou por mal, para nós sempre merecida).

A arte é um sinal perdurável dos homens
como marca imprecisa de si no seu espaço
e que deixam como vestígio de tempo passado
para assinalar uma madura mortalidade duradoira.

Então, será tudo isto um nada?!
é certamente tudo isto sempre um nada
se é feito com o propósito desinteressado
de registar em rigor a beleza do que é inútil.

6.06.2011

"For poems are not, as people think, simply emotions..."



…poems amount to so little when you write them too early in your life. you ought to wait and gather sense and sweetness for a whole lifetime, and a long one if possible, and then, at the very end, you might perhaps be able to write ten good lines. for poems are not, as people think, simply emotions (one has emotions early enough)—they are experiences. for the sake of a single poem, you must see many cities, many people and things, you must understand animals, must feel how birds fly, and know the gesture which small flowers make when they open in the morning. you must be able to think back to streets in unknown neighborhoods, to unexpected encounters, and to partings you had long seen coming; to days of childhood whose mystery is still unexplained, to parents whom you had to hurt when they brought in a joy and you didn’t pick it up (it was a joy meant for somebody else—); to childhood illnesses that began so strangely with so many profound and difficult transformations, to days in quite, retrained rooms and to mornings by the sea, to the sea itself, to seas, to nights of travel that rushed along high overhead and went flying with all the stars,—and it is still not enough to be able to think of all that. you must have memories of many nights of love, each one different from all the others, memories of women screaming in labor, and of light, pale, sleeping girls who have just given birth and are closing again. but you must also have been beside the dying, must have sat beside the dead in the room with the open window and the scattered noises. and it is not yet enough to have memories. you must be able to forget them when they are many, and you must have the immense patience to wait until they return. for the memories themselves are not important. only when they have changed into our very blood, into glance and gesture, and are nameless, no longer to be distinguished from ourselves—only then can it happen that some very rare hour the first word of a poem arises in their midst and goes forth from them.


rainer maria rilke, the notebooks of malte laurids brigge


Tempo Florido




"Mais vale morrer conforme
as regras do que escapar
contra elas..."
(Jean Baptiste Molière)
















tempo que passa por nós
cai como se não nos visse
aqui a braços juntos e sós
onde a curva faz uma volta.

margarida é certo o vento leva
para lá bem longe deste desterro
o orvalho encrespado nas pétalas
queimadas pelo sol tardio e quente.

tão teu o jeito bravio de crescer
de me lograr por mais sentidos
por se estimar e não haver melhor
tempo como este que não volta.

em farrapos e poucas malas
desfez-se os buracos do caminho
aos saltos como se fossem contínuos
os parcos esparsos lacónicos recontros.


Crepuscular




Os astros desconhecem o sentido,
Aos deuses nego a existência
E fico eu nesta demência
A suspirar pelo irreal.

Desconhece os meus sofismas
E descobre assim a aliteração
De propor sem mistérios
A frágil coerência da suposição.

Na verdade não sei o que me prende,
Procurando apenas ser como sou
É na falta do que me alimenta
Que descubro quem sempre me encontrou.

Em nada me sinto vencido,
Reconheço em tudo algo superior,
Conferindo-lhe com o devido respeito
O cotejo de um real valor.

Como quimera que se deslinda
E que cego assim me tem posto
Na alma que já não é minha
Um distinto crepúsculo ao meu gosto.


5.24.2011

Aqui é agora e para sempre nunca




























Trabalhei muito que me fartei
para fazer de mim louco nesta vida
quando só parece-lo foi sempre pouco
e nunca me satisfez a simples ilusão,
até que agora reconheço enfim
que foi um esforço inútil de tão vão
que sendo mais normal do que estranho
fiz-me igual ao meu tamanho
sem nunca endoidecer de vez,
não me salvo e nem me amanho
e há tanta gente em pior condição
uns que nem com tantos empurrões
servem-se de auxílio no meu exemplo
se nada lhes garante a salvação,
neste processo meramente risível
torno-me mais que intransponível
para lá da bendita irracionalidade
que aqui e agora é presente
se para sempre é mais que nunca,
a menina da tabacaria é que tinha razão
ao deixar-se de fitas que não são laços
e sem vergonha ou outros embaraços
comer chocolates como ninguém,
assim reciclo a prata que é de estanho
para renovar os envoltórios ao meu jeito
e das armaduras fazer corações pequenos
que na vetusta arte das dobragens
mais rápido sou banal do que louco
no pretensiosismo dos problemas
da minha monstruosa normalidade.

5.17.2011

«Ela dança sobre pregos» - Gerrit Komrij





























Versos magoam, a folha angustia.
Dão guinadas no corpo, infernais.
É o teu mal: leste poemas a mais.

Melhor perderes-te em música obscena,
Melhor deitares-te a ouvir cantilena
Do fogo consumindo uma pirotecnia,

Melhor rebolares-te em sei lá quê
Do que a dor e o decoro de quem vê
Ir-se a vida na Paixão da Poesia.


Contrabando - uma antologia poética, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 31

4.26.2011

Palavras



























Há palavras que nos beijam em suspiros
Como silêncios que nos calam firmes,
A verdade é que ambos nos matam
Comprimindo o corpo num feixe de vimes.

Outras vezes são só palavras
Que extinguem os silêncios da vida,
Os dias passam sem terem outra cor
E descobre-se uma honestidade suicida.

Há silêncios que nos beijam como lâminas
Se cada palavra é proferida como punhal,
Se respondes sempre para não ficar mal
Pedes sedento um peito aberto em chamas.

Só quem cala consente, pede mais.
Eu falo porque rejeito da dor o tormento
E dos outros não me comovem os seus ais,
O que arde em mim é ataraxia do fingimento.

Por isso não temas, o mar e as suas certezas
Que os beijos salgados no silêncio das palavras
Alimentam e extinguem-se em finas chamas raras
De alguém náufrago de si nos sonhos que desprezas.

Fácil





















Fácil é escrever
Se fazê-lo é sem sentido,
Para um escriba ou para mim.

É fácil sonhar
Como é arrepender-se
Ao fazer de cada qual o que não é.


É fácil ser a imitação
De um fogo que não arde,
Magoando sem fazer sofrer.

Difícil é pensar-se idealista
Sem tentar louvar outra dor
Por estranhos sentimentos
Que nunca definem o amor.

Difícil é ser-se honesto
Mesmo rumando à destruição,
Que ser cego é navegar o abismo
E enganar-se de encontro ao coração.


É fácil chorar,
O alívio que traz nunca é salvação.
Chorar será sempre em vão!

É fácil ser um santo,
Mas já ninguém rezará por nós
E só vivemos bem quando não vivemos sós.

Difícil é aceitar o que é real,
A mão fria que nos aquece
E que nunca se envaidece
Pela falta de desdém.

Difícil é reconhecer
Que quem nos quer bem
Implora desejos e reclama atenção
Sem pedir realmente nada em troca.


Fácil é ser-se sempre difícil
Enfrentando qualquer argumento táctil
Como uma brutal derrota que nos dispõe
Sobre estados inebriados e febris.

Fácil é roubar
Dos sonhos as tristezas
E fazer delas as alegrias em flor
Que entretêm novas estações.

Difícil é fazer-se comprometido
E não ser esse o objectivo
Por faltarem as aspirações
Que dispensem razões.


Fácil é ser compreendido
Quando o que se diz é sincero
Mesmo vestindo roupas de mendigo
Ou outras que te fazem peregrino.

Difícil é pintar aguarelas
A lápis com tons de carvão
Impossível senhor de nada
Que faz juízos da sua intuição.

Difícil é insistir num sim
Se a medo te respondem talvez,
Quando sem receio esperas um não
E o que vem não chega para inspiração.


Fácil é sofrer,
Difícil é quando não vês
Que fazes do precipício um vício.

Assim inventaram a escrita
Que solta o grito em surdina
Para dar o dito por não dito
Deste incêndio circunscrito.



4.22.2011

Estranhez






















É na praça velha onde escuto as mesmas canções
que outrora falavam aos corações quando não havia nenhuns
e aprendo a recordar enquanto me lembro de esquecer
sem nunca conseguir fazer gastas as memórias.

tu vens e dizes-me que uma alma nunca está cheia
mas mesmo assim prefiro sempre os desígnios de feiticeira
que me prendem sem me agarrarem e sem volta a dar
se são inocentes os mesmos julgamentos do olhar.

e digo qualquer coisa para não me fazer entender
que nesta estranheza comunicante procuro apenas estremecer
desconhecendo também por completo a tua língua assim te fiz
ao sentir-te estrangeira no meu próprio país.


4.16.2011

Inércia



























sou escravo das minhas próprias ambições
sou carrasco das mesmas pontuais ilusões
e sou rei de mim prórpio é verdade.

alguém quebrou os travões à locomotiva
de forma despropositada ou intencional
agora é tarde para avaliar estragos.

enfim e dito isto vá-se lá perceber a inércia
que impede os corpos de alterarem por si
o seu repouso ou o seu movimento.

4.15.2011

«Bom é que não esqueçais...» - F.Pessoa






















Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre


Fernando Pessoa

Circular

















Cleópatra, daqui escreve
Marco António, teu servo.
Encontra-me nesta mensagem,
Voltarei na luz distinta.

Quando Júlio César morreu
O nosso amor tornou-se livre
Mas Octávio venceu novo,
Em Ácio fez valor ao sangue frio.

Chegará ele com as suas legiões,
Entrará triunfante em Alexandria...
De nada valem as consagrações do triunvirato,
Protege Cesarião, herdeiro do império.

A prova há muito esperada
Que o amanhã chegou alvorece,
Desperta o mundo anónimo
Para a imagem imaginada
Da minha alma alterada
E tudo aquilo que não fui.

Propaga a existência por mais um período,
Nada efémero, puramente indistinto.
Maior que a dor do desabafo,
Reduzido pelo esgotamento do crepúsculo,
Pelo desatino do cansaço,
Em todo o limiar inconsciente.

Só um temor maior fará perder a chama
De um sempre eterno e futuro círio,
Só um desejo de sono profundo
E que nunca trás um novo amanhecer...
Não te deixes seduzir pelo conquistador,
Agora em Roma serás espólio de guerra.

Enquanto desfaço o peito de rompante,
Optarás pelo veneno da serpente.
Salvaguarda primeiros os teus filhos
Antes de executares a tua morte decente,
Esconde-os onde não os possam encontrar...
Despeço-me urgente minha amada,
Glória do pai entre os homens,
Rainha dos réis,
De um vasto império a Oriente.

4.14.2011

Simplesmente...


























Não sou capaz de lhe resistir,
Não consigo superar o seu discernimento.
Desisto de lhe fazer oposição...
Charme sedutor contra o erro de Platão.

Como posso eu resistir ao apetite dos pensamentos?
Como posso eu esquecer e negar estes tormentos?
Nunca será a beleza do artifício do meu fingimento
Um distúrbio repressivo do seu encanto honesto.

Recordo nos seus os meus enigmas
Num funesto enleio ficcional
E o intenso feitiço desperta-me outras ilusões...
Atraentes verdades, mérito de escravos e divindades.

Padeço de um severa disposição para a admiração,
Como resultado consequente do seu efeito em mim...
Aliciante, fatal e sedutora provocação
No requinte das formas simples em que se faz apresentar.

Mesmo que me desterre, envergonhado,
Para o argumento contemplativo das minhas irrealidades,
Continuamente será sincero o uso articulado
Destes ingénuos vocábulos e preciosidades.

4.13.2011

Resguardo Nocturno




























Paro um instante,
Depois de horas devorando o cenário gigante
Do meu trabalho inquietante de actor que se vai arrastando
Como aprendiz na arte de representar por códigos mecânicos
O conhecimento adquirido sobre a vida,
Pronto para agradáveis conjecturas psicanalíticas.

Estaco breve e decisivo,
Para soltar aquelas palavras cheias de sofismas dóceis
Herdeiros do mais impenetrável vazio reprimido
De tudo aquilo que oiço, vejo ou sinto...
Perturbações emocionais para chamar à atenção
Num pregoar ambulante de silêncios enigmáticos
Com a verdade própria em que me penso e desfaço.

O que seria de mim se não existissem palavras,
Onde poderia eu descansar?
Ou se não existissem de todo palavras,
Como poderia mostrar os meus delírios voluntários?
A verdade é que ainda me faltam conceitos para me alegrar...
Seria melhor devorar dicionários do que olhar o mar
Ou seguir a ciência que acredito sem discordar
Mas no fim profundo da semântica literal
Faltam sempre convicções que provem aos corações
Que sou preciso e exacto quando invoco
Os chamamentos da vida e as suas compleições,
A sua essência e as minhas paixões.

Gostava de encontrar modos simples de falar
Sem interacções poéticas e sem lamentações patéticas
Que me fizessem mesmo dispensar estas assombrações estéticas,
Gostava mesmo de exprimir-me clara e fingidamente
Num pensamento puro sem fumo ou sombras frenéticas
Para assim desvendar honesto as fiéis devoções
Que vivo como dever e dispensam outras significações.

Um milhar de noites não basta para conseguir ecoar
O grito de quem sonha por um ideal maior
Mas nas altas horas vagas a lua que clareia o olhar
Deverá ser a única que me perdoa
Velando por esta mágoa tentadora
De incessantemente desvairar.

4.12.2011

como às vezes nasce um poema



























faz um poema esvaziando os bolsos das ideias e depois apaga o rasto de tudo o que ficou de ti para que não sobre nada que possa voltar a crescer-te das entranhas.

o poema nem sempre é bem rematado apenas são abandonas as linhas a que chamas versos e todo os seu conjunto dissecará sem alimento tornando-se extemporâneo.

não esperes que a poesia vomite estrelas se não deixares sempre algo por dizer para que não te comprometas com um fim entregue ao abismo negro já que a melhor palavra é a não dita que guardas para quem se destina mesmo que não seja para ti e nem para mim.

às vezes o poema nasce na incapacidade de atribuir um termo apropriado aos pensamentos que evaporam de tão voláteis que são como se fosse altamente etílica a doutrina da sua concretização ou como se a conjunção caneta-papel servisse de comburente no processo de criação onde as ideias envelhecem rápidas e morrem antes de chegar ao escrito.

surge assim qualquer coisa inteiramente diferente do propósito original pretendido sem que se atropele a sua razão fora dos territórios calculados e como às vezes nasce um poema de forma espontanea nestas condições normais de pressão e temperatura posso metamorfosear-lhe o sentido de forma a poupar-me para usá-lo noutro dia qualquer ou assim deixá-lo ficar indistinto.

4.10.2011

Verdes Anos




















verdes anos
os que passam
os que te fazem
os que te dão

verdes anos
de calor e desejos
de clamor e sobejos
de procura e salvação

verdes anos
que ao corpo voando largos
antes pesassem leves no sentido
da semente que anuncia a despedida

verdes anos
raízes de quem te deixou
no peito a saudade de porta aberta
e no coração uma inelutável partida

verdes anos
alguém que vai é alguém que sempre fica
em avultadas recordações sem ódio e sem justiça
desta chegada que é apenas um inefável e longo adeus

verdes anos
vivências vencidas de quem mais não volta
de capa aos ombros a percorrer os escombros
destas ruas que são remendos feitos de sonhos terrenos

verdes anos
provérbios de uma vida só
que agora começa e não termina
nas memórias de um passado estorvo

verdes anos
tempos prestos de luz densa
de alguém que partiu para voltar
e ser em mim tudo o que fui e agora sou.