10.30.2010

Proposta























Para escrever é preciso um método,
proponho não usar nenhum.
Para ser lógico deve recorrer-se à razão pura,
proponho uma racionalidade divergente.
Para julgar é preciso compreender,
proponho um juízo ausente.
Para ser verdadeiro é preciso mais claridade,
proponho labirintos esfumados.

Salas de espera nunca fizeram falta,
ao contrário de mesas atulhadas de papéis,
recortes de jornais, fotografias velhas,
copos ressequidos e garrafas vazias...
Não fazem a escrita, apenas consolam o tédio.


10.29.2010

Efémera















Sol, Ernesto von Rückert (2009)





Procuro algo longínquo
durante instantes
capaz de te oferecer
um conforto fácil de suportar
a força que te sustem.

Que o feito no efeito do seu brilho
se faça sentir adimensionalmente
como um gigante vermelho
que expande colapsa e contrai
ao conquistar um lugar no vazio.

Só para originar no espaço reprimido
um novo enfeite do tempo efémero,
um ponto celeste mais luminoso,
algo que na realidade já não existe
quando fatalmente nos atinge.


Perdulário





























Perdulário
Cimento de céu e terra
Que despreza os seus interesses
Enquanto aguarda no ponto onde se esperam
Os abismos da ininteligibilidade inaudível das palavras
Pela simples descoberta de uma irregular caligrafia imperfeita
Que fala como se às vezes tivesse razão para ser entregue por completa
Às asfixias e apneias do coração bradicárdico ou dos sentidos clandestinos
Erguidos em ânimos de prantos extintos que nos deixam ser a voz do desejo
Através dos corpos que se alimentam das febris tentações sedutoras do silêncio
Para assim caminharem descalços os olhos brilhantes no locupletar dos estigmas
E das marcas perduráveis que nunca são superficiais para se cauterizam triunfantes.


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«O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem.»

Eugénio de Andrade, in "Rosto Precário"

10.01.2010

«misericordia tua magna est super me»





"Os homens assemelham-se a relógios a que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um homem vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto refrão da eterna caixa de música, frase por frase, com variações imperceptíveis." Arthur Schopenhauer

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«AGORA SOU EU A FALAR»





Agora sou eu a falar. Conheces esta palavra? Como é que se diz isto? Eu estou apaixonado por ti. O que é que eu preciso de fazer para tu me veres. Nada, não faças nada. Mas pelo menos pára de olhar para todo o lado. Olha para mim. Eu preciso muito de olhar para ti. Sim, assim. Agora não consigo dizer. Não, não é difícil, só não consigo deixar de dizer. Quando deixar de ver a tua cara o mundo vai ficar tão pobre de repente que não sei se vou aguentar. Eu sei que vou aguentar, mas não sei como é que vou aguentar e não sei, sobretudo, se devia aguentar. Eu sei que tu sabes, mas se quiseres podes dizer. Repete lá. Eu não me importo, faz de mim o que quiseres. Já te disse. Tu também podes fazer o que quiseres, mas dentro de limites. Sim, tu falas muito bem e tudo, mas mesmo tudo o que dizes é verdade ou também é verdade. Há muito tempo que não dizes um único disparate. Se quiseres podes dizer um agora. Sim, é verdade. Mas tu não ligas às coisas que eu digo, e se quiseres que eu pare de falar basta pousares a tua mão sobre a minha nuca. Assim. Agora és tu a falar.

Agora sou eu a falar. Não tenho vergonha nenhuma. Podes-me beijar mesmo aqui que eu não me importo. Diante de toda esta gente, que eu não me importo. E podes chorar a pensar nele que eu também posso começar a chorar a pensar nele, na admiração por ele, nisto de ele ser assim e ninguém mais saber. E podes-me contar todas as outras histórias que eu não me importo. Eu ouço, conta lá. Não faz mal. Eu conheço essas histórias, mas não faz mal. Repete lá. Sim, isso, essa é a mais bonita. É esta a mais bonita. Tu só não estás apaixonada por ele porque insistes em dizer que nunca estiveste apaixonada, mas isso é a mesma coisa que me dizeres que estás apaixonada por ele. Eu não me importo ou então eu importo-me muito. Como é que se diz esta palavra? Diz lá. Eu estou muito apaixonado por ti. Peço-te desculpa. Que música é esta? Vai dançar e depois volta. Eu não saio daqui. Se quiseres podes dar-me um beijo diante desta gente toda que eu não me importo. E podes fazer o que quiseres. Sim, tu fazes o que quiseres. E se quiseres que eu pare, diz: pára. Mas eu não vou parar. Hoje à noite podes fazer comigo tudo o que quiseres. Tudo, tudo. Desculpa, mas eu agora não quero falar. Agora és tu a falar.

Fala comigo. Fala. Não te ponhas assim a olhar para mim. Pareces um miúdo mimado que se não tem logo o que quer faz birra. Faz birra, faz. Eu gosto. Tu gostas. E ele também gosta. Olha que isto não vai voltar a acontecer. Isto? Isto não acontece nunca. Ela fala assim porque pensa antes de falar. Antes do pânico devemos ficar quietos a pensar. Não faças nada antes de fazer o que quer que seja. Sim, pânico. Olha os teus olhos. Sim, se pudesses havias de ver. Se tu soubesses não eras assim. Não eras. Deixavas de existir. Sobrevivemos, está bem, sobrevivemos. Eu não consigo pensar. Olha as minhas mãos, os meus dedos. Eu não consigo pensar. Vais dançar? Que música é esta? Que palavra é esta? Esta. Agora cala-te.

Agora vou repetir tudo do começo. Ouve. Agora sou eu a falar. Depois és tu a falar.


Pedro Paixão, in "A Noiva Judia" ( Edições Cotovia, 1992)