9.27.2010

Elegia Natural
















Oh floresta, que és mãe das brumas,
Oh mar, que és pai destes madrigais,
Oh vento, que és filho das planícies,
Meu padrinho dos vendavais.

Oh chuva, que enches tanto os mares,
Choras lagos e rios em sagrados rituais,
Procissões que encharcam os campos
Que dão alimento aos pardais.

Oh sol, que secas o sal das lágrimas,
Tanto crias nuvens como as abnegais,
Tu iluminas os dias e aqueces a terra
Da qual, exaltado, não sei fugir mais.

9.16.2010

«Praia do Esquecimento»















Night Specter on the Beach,
Dali (1934)



Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.


David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"

9.08.2010

Correria






















'A Desolate Rejoinder',
Chuck Bloom



Nunca procurei o coração nas ruas
nas raras ocasiões em que me encontrou.
Quando ele perseguia-me eu deslizava
correndo sempre mais rápido.
Quando não caminhava veloz
aparentemente não estava.

O coração nunca esteve presente
quando não sabia o que queria.
Era eu quem fechava os olhos
de forma a fingir-me ausente.
Era eu que não o encontrava no passado
e só agora lhe reconheço as palpitações.