6.18.2010

José de Sousa Saramago
(n. 16/11/1922 - f. 18/06/2010)






















Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

[in "Os Poemas Possíveis"]

6.12.2010

Castelo Enlevado




















Le Fantôme du Hollandais Volant, George Grie




Um castelo que se ergue distinto
no alto de uma falésia à beira-mar,
levantado a tijolos, escórias e pedras,
aparentemente velho no seu ar.

Muitas são as paredes, portas e janelas
ocultas pelo denso musgo esverdeado
e pela complexa teia de grandes heras
que as cobrem e juncam o escudo enlevado.

Grande muralha o circunda a par do mar,
intencional tamanha barreira invencível
que só se de bom desejo for a descoberta
franqueia-se a passagem que atravessa.

Não esconde nenhuns tesouros antigos ou relíquias,
está só absorto, adormecido, ao abandono dos tempos
e as grandes vitórias que lembra do distante passado
são apenas derrotas sofridas e sangradas pelos ventos.

Os nobres que na imaginação ainda lá habitam
não se alimentam de carnes e vivem da escrita,
não fazem guerras, não usam armas, só cogitam,
escondendo-se da luz estelar como um eremita.

Escutam o mar que abaixo embate furioso
nas rochas que compõem o marítimo penedo,
mas por mais bravas que se refreguem as investidas,
as altas ondas erguidas vencem lentas no seu medo.

Esperam os grandes homens que a muralha desvaneça,
não que cobicem o que o castelo recôndito nada tem...
apenas porque incautos estranham a sua triste sentença
de mirar fixamente o horizonte, as terras d'Aquém e d'Além.

Diário Nocturno



A madrugada vê-me como eu a vejo
Quando acabo de chegar dos sonhos.
As suas palavras são terramotos interiores
E, por muito maior que seja o meu desejo,
Tamanhos são os meus horrores.

A manhã chega num abraço de luz
Que guardo num grande porta-retratos.
As suas reflexões são espelhos nítidos
E, por mais que aprecie cenários abstractos,
Místicas são as intuições ilusórias dos sentidos.

A tarde persegue-me como uma continuação
Quanto mais pesado me trata o almoço.
As suas sensações são juras de paz
E, por muito que me castigue a razão,
Apenas sei do que me sinto capaz.

A noite começa num chamamento do graal
Querendo num desabafo oferecer-me as trevas.
As suas pretensões são pedidos de abandono
E, por mais que me impeçam as reservas,
Destemidas são as aspirações que me roubam o sono.


" Tudo no homem se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos..."




Hol Baumann - Endless Park (Human, 2008)


«Eu considero inteligente o homem que em vez de desprezar este ou aquele semelhante é capaz de o examinar com olhar penetrante, de lhe sondar por assim dizer a alma e descobrir o que se encontra em todos os seus desvãos. Tudo no homem se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos, um terrível verme pode corroer-lhe as entranhas e devorar-lhe toda a sua substância vital. Muitas vezes uma paixão, grande ou mesquinha pouco importa, nasce e cresce num indivíduo para melhor sorte, obrigando-o a esquecer os mais sagrados deveres, a procurar em ínfimas bagatelas a grandeza e a santidade. As paixões humanas não têm conta, são tantas, tantas, como as areias do mar, e todas, as mais vis como as mais nobres, começam por ser escravas do homem para depois o tiranizarem.
Bem-aventurado aquele que, entre todas as paixões, escolhe a mais nobre: a sua felicidade aumenta de hora a hora, de minuto a minuto, e cada vez penetra mais no ilimitado paraíso da sua alma. Mas existem paixões cuja escolha não depende do homem: nascem com ele e não há força bastante para as repelir. Uma vontade superior as dirige, têm em si um poder de sedução que dura toda a vida. Desempenham neste mundo um importante papel: quer tragam consigo as trevas, quer as envolva uma auréola luminosa, são destinadas, umas e outras, a contribuir misteriosamente para o bem do homem.»

Nicolau Gogol, in 'Almas Mortas'



6.10.2010

«Dúvida»


Eu corro atrás da memória
De certas coisas passadas
Como de um conto de fadas,
De uma velha, velha história...

Tão longe do que hoje sou
Que nem sei se quem recorda
Foi aquele que as passou,
Ou se apenas as sonhou
E agora, súbito, acorda.

Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra"

«Ilusão Perdida»



Florida ilusão que em mim deixaste
a lentidão duma inquietude
vibrando em meu sentir tu juntaste
todos os sonhos da minha juventude.

Depois dum amargor tu afastaste-te,
e a princípio não percebi. Tu partiras
tal como chegaste uma tarde
para alentar meu coração mergulhado

na profundidade dum desencanto.
Depois perfumaste-te com meu pranto,
fiz-te doçura do meu coração,

agora tens aridez de nó,
um novo desencanto, árvore nua
que amanhã se tornará germinação.

Pablo Neruda, in 'Cadernos de Temuco'
[Tradução de Albano Martins]

«Do Fim dos Segredos»




Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já.

Júlio Pomar, in "TRATAdoDITOeFEITO"

6.08.2010

Expressionista




Já não queres saber
Ou nunca o quisestes,
Que foi van Gogh
Com redundância do significante
Na saturação das cores, reincidências da luz
E movimentos de dispersão gestual,
Que pintou Caminho de Ciprestes
Sob o céu estrelado de Saint-Rémy.


Não sabes
Ou não queres saber,
Que Skrik é o grito infinito da Natureza,
Um momento de profunda angústia,
De grande desespero existencial,
Que Munch imortalizou com a ansiedade de um pôr-do-sol,
No silêncio das cores, línguas de fogo e vermelho-sangue
Sobre o azul profundo e as docas de Oslofjord.


Nunca quiseste
Ou já não queres saber,
Que Cinco Mulheres na Rua é uma pintura feia
Embora vistam roupas elegantes,
Para Kirchner, elas são diletantes das regras tradicionais
E ele é contra a regularidades das formas e dos equilíbrios.
São como cinco aves grotescas, figuras de anúncio e presságio
Que deambulam por aqui e por ali,
Como corvos sinistros rondando as presas sem destino
Onde a sua individualidade submergiu nas peles de luxo,
Nos chapéus elegantes com plumas guerreiras, nos tacões em estilete,
Nos casacos extremamente aerodinâmicos
E onde nada lhes prende a atenção por muito tempo,
Sob o frágil brilho da agitada Berlim.


Pede o desejo, Dama, que vos veja:
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,
Que não queira perpétuo o seu estado.
Não quer logo o desejo o desejado,
Só por que nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana:
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,

Assim meu pensamento, pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre e humana,
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

6.07.2010

«Quem Me Mandou a Mim Querer Perceber?»


Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXII"

«Metodologia»


Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
que tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

«Estranho é o Sono que não te Devolve»


Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Daniel Faria, in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

6.05.2010

«Fresta»


Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado

Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

«Tentação»

Eu não resistirei à tentação,
não quero que de mim possas perder-te,
que só na fonte fria da razão
renasça a minha sede de beber-te.

Eu não resistirei à tentação
de quanto adivinhei nesta amargura:
um sim que só assalta quem diz não,
um corpo que entrevi na selva escura.

Resistirei a te chamar paixão,
a te perder nos versos, nas palavras:
mas não resistirei à tentação
de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi
e que na terra toda não mais vi.

Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"

"I've been at this far too long..."




"I STAND CORRECTED", VAMPIRE WEEKEND (2008)


You've been checking on my facts
And I admit I have been lax
In double-screening what I say
It wasn't funny anyway

I stand corrected

No one cares when you are wrong
But I've been at this far too long
To act like that when we should be
In perfect harmony

I stand corrected

Lord knows I haven't tried
I'll take my stand
One last time

Forget the protocol
I'll take your hand
Right in mine

Perseverança Nativa



Suspenso em divagações
Suporto a arquitectura
Dos mitos, das ilusões.
Tento expandir-me
Para além da altivez
Que não consigo desenhar,
Que não consigo descrever
Se não me dedico a compreender.
Apenas sinto o mundo
Um dia de cada vez,
Prevendo-me num futuro
O qual já se desfez.

E tudo o que eu hoje fiz
Voltarei a tentar amanhã,
Sempre um amanhã
Que não chega,
O qual nada me diz.
É claro, como este dia,
Que tenho essa percepção,
Se não o soubesse
Dedicar-me-ia à decepção.
Estando farto de confusões,
Saturado por indefinições
No muito tempo que deverá passar
Até encontrar verdadeiras soluções.

Continuarei a sonhar
Com o que me fez mudar,
Como a desejar com consciência,
Em renuncia à minha demência,
Com o meu mundo melhor.
O sangue que em mim circula
Ainda não se esgotou
Pela falta de esperança...
E a cada novo dia
Em mim solidifica-se perseverança
Fértil em altas inspirações.

6.01.2010

Inverso


Midsummer night's dream, Jacek Yerka



Fiquei sem versos
Não sei mais o que dizer
Quando oito anos passam
E nem sei mais o que escrever...
Quando as gavetas estão repletas
No sótão somam-se caixotes cheios
De cadernos amarrotados e riscados
Por tantas canetas que usei.

Poderia falar da minha vida
Mas assim não me distinguia dos outros
Poderia escrever sobre o que vejo e ouço
Mas que importância tem para mim...
Passar tanta gente à minha porta
Escutar as desavenças dos vizinhos
Fazer revoluções e reflexões
Sobre a chuva, os apupos e os anjinhos.

Uma coisa é certa e é só minha
Que da vida não me escondo na poesia
Se mesmo nisso me desentenda
Rasgo palavras sem alento e sem emenda...
Para que tudo assim fique
Tão perdido como se encontra
No bom lugar que eu escolhi
Um inverso de qualquer coisa que se pretenda.


«Perseverança»


Não digas que o trabalho é desperdiçado,
Nem que o esforço falha ou parece, no fundo;
Não digas que aquele ao dever curvado
É um entre os tantos sonhos do mundo.

Pois não é em vão que em golpes seguidos,
Com pressa medida, em fragor crescente,
O mar actua nos rochedos batidos
E invade a praia, ruidosamente.

É certo que enfrentam suas investidas,
Do seu bater forte parecem troçar,
Esmagam com força as vagas erguidas
E em espuma fazem as ondas rasgar.

Mas ele bate e bate com força
Em dias, semanas, em meses e anos,
Até que apareça mossa sobre mossa
Que mostre seus gastos, pacientes ganhos.

E os anos passam, as gerações vão,
E menores se quedam as rochas cavadas;
Mas ele, com lenta e firme precisão,
Baterá na terra suas altas vagas.

Certo como o sol e despercebido
Como duma árvore é o seu crescer,
Trabalha, trabalha sem ser iludido
P'la tenaz imagem que se pode ver.

E quando o seu fim de todo obtém,
Em sonoro embate, p'ra fender, se lança,
Seu poder imenso ainda mantém
E, inda mais além, nas águas avança.

Alexander Search, in "Poesia"

"I follow to the edge of the earth And fall off..."

Rosário dos Cânticos




Se um beijo não me dás
Sabes quando só dois são pouco,
Que o teu bem faz-me mal
E a proximidade é um sufoco.

Quando só a fingir é que se bebe
Dos bons licores a imaginação...
Sabes que uma mesa são só tábuas,
Uma cama faz-se de um colchão
E é no lago que se fervem as águas.

Por pensares-me como louco
Só a quase nada me poupo...
Para me encontrar quando me perco,
Para te receber enquanto dou,
Para assim deixar-me só
Exprimir o que não se deve.

Quando não te encontro sempre
Ou quase nunca e em qualquer lado,
Sem nunca conseguir expor
Que não acreditas no amor
E toda a vida é uma operação.
Deixa, reconheço-o...
Nem fantasia, nem perdão.

No alento dos meus pensamentos
Dignos, profundos, sinceros e ausentes
Apenas resta a ilusão que se estima,
Que me consente a apartar
Do brilho do sal e do silêncio do teu olhar...
Será assim que o princípio não tem fim,
Quando num infinito sorridente
Te deixas aproximar de mim.

[Ago.08]

«A volúpia carnal...»


















Moonwatch, Vladimir Kush.



"A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência."

Rainer Maria Rilke, in 'Cartas a um Jovem Poeta'

Encontro Eterno




Encontro-te indefinida nos meatos da vida,
Simplesmente quando não te procuro.
A verdade é que tudo nos relaciona
Até a tua própria indiferença.

Desespero ao encontra-te em toda a parte,
Quando em verdade quase nunca te procurei.
Resta-me espontaneamente este silêncio displicente,
Cada vez mais insatisfeito porque sabe o quanto errei.

Nada procuro para além de breves encontros
Onde insistentemente me deixarei desvanecer.
O que procuras tu se nunca me encontras?
Por onde ando eu se não me vês?

A eterna procura das tuas admirações
Fazem-me expirar tão clandestinamente…

Que nunca será assim frequente
Continuar num caminho inocente de excessos e faltas de ar
Sem suspirar por mais frágeis explicações banais.
Gostava de sentir-te em efectivos encontros reais,
Mas esse teu desejo epicurista condena-me à estóica contemplação.

Encontra-me…
Enlouqueço excessivamente enquanto o desejo é de compreensão.

[Jul.08]



«Portugal»


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga, in 'Diário X'