5.28.2010

Despertar Canónico (p.1)



Tempos de agitação
que agora vivo
sem espaço de me anunciar
ou de me fazer esquecido,
estando apenas dividido
entre o passado e o futuro
que me sustenta.
O que não fiz assim fica
no tédio de quem complica
um dia mais, sem ver.

Gostava de acordar
nas horas do meu tempo,
ser decidido, não inibido,
nas palavras em que medito.
Interrompo as representações
se escasseiam razões para fingir,
é útil acordar amanhã
e encontrar-me onde possa existir,
renovando o que sinto
na mais pura consagração
dos efeitos que guardo
na minha idealidade.
Até de dia sonho com o luar,
mas é apenas o sol
que se esconde nas nuvens
como me escondo eu
atrás dos tempos desinquietos.

Despertar Canónico (p.2)


Padeço imóvel
aos transtornos da vida,
julgo que por outras aflições
encontro a alma
um pouco mais decidida.
Agora é tarde
para quem quer voltar atrás,
se a máquina oferecesse
uma outra aventura
talvez esta seria igual,
porque me é banal
como a minha indiferença.
A sensação que perdura
projecta-me na vontade
de quem se esquece
que o orgulho esmorece
em números incompreendidos.

Não procuro o que perdi,
nunca esperei ser nada
para além do que hoje sou…
apreendendo a lição coragem
de quem agarra com empenho
o controlo determinado
das obrigações do seu tempo.
Por vezes esqueço-o
ao notar sem agrado
o fútil débil sabor
de horas desperdiçadas
que usei em seu louvor,
numa angústia descomprometida
do que podia ter feito
e não o fiz, hoje sei.

Despertar Canónico (p.3)


Agora, o vento afasta
a neblina que encobre
as minhas miragens,
encontro os meus horizontes
com a nitidez das palavras.
Nada em mim mudou,
nem a vontade de me esconder
em dúvidas e lamentações
de tudo aquilo que quero ver.
Amanhã quero ser assim,
e como o saberia antes?
Emancipado navegador
de desmedidos sonhos diletantes,
sem crenças angustiantes
no herói que não sou.

Agora que o sol já aquece
e os deuses regressam
a quem os aclamou,
procurarei as novas razões
que dispensarão de justificações
para os demónios da consciência.
Guardarei em mim as profecias
de quem solenemente anunciou
esta minha estranha passagem,
porque agora é tempo
de atravessar as águas agitadas
e venerar a outra margem,
onde vivem as ilusões
de quem inspira fantasia
em dissimuladas confissões.
Procuro todos os dias,
para sorrir, novas razões
onde esta alma desprendida,
acordando como o sol,
se faça anunciar
numa explosão canónica
de números exaltantes.

[Fev.07]

Anseios da vida*




"Quem é que manda no que é meu?
É a gramática, ou sou eu?"
(Gomes Leal)

Não quero ser poeta
se desgraça é o meu destino,
apenas necessito de escrever
com rasgos curvos da caneta
o meu verso libertino.

Desorientado e sozinho
pela sensibilidade emancipada,
não quero ser profeta
se uma minha estrada deserta
por mim não for traçada.



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«Espaço Sombrio»





"Aqui, porém, nada pode ocorrer. Em vez de testemunhar a presença, atributo da paisagem, do lugar, este ambiente só evidencia a ausência. A luz que invade aquele espaço sombrio não vem, como o raio na paisagem, revelar o que ali está acontecendo. Ela traz justamente o que ocorre lá fora, o que não se passa ali." (W. Caldas)

5.26.2010

Morte dos Desejos







Sou feliz quando defendo
Com agrado e sem medo
Os sonhos que nunca atinjo.
É certo que nesta sina,
Ocultando tais desejos,
Persigo uma poesia clandestina
E vejo nela a minha vida.
Não procuro pôr um fim
À minha sede e outras vontades,
Às minhas simples excentricidades,
Ao meu próprio entendimento.

Sou feliz enquanto consigo sonhar
Afastando-me do desalento.
Compreendo que pela definição de alma,
Por mais abstracta que seja,
Existem sempre personalidades fortes
E outras ternamente fragilizadas...
Todas têm os seus defeitos
E as suas legítimas vantagens.
Todas têm medos e excessos,
E em todas habita coragem.
Estranho é pensar que cada qual
Aprende de diferentes modos
A mesma mensagem,
A mesma lição canónica
E daí extraí outras conclusões.

O que nos move a destruir os sonhos?
Nunca devemos viver sem eles
Enquanto os desejamos e procuramos
Conhecemos as suas verdadeiras intuições.
Eu não ambiciono a morte dos desejos,
Dedico-me apenas às suas aparições...
Não me canso de os afirmar,
Se me dão vida, se me indicam o caminho
Que ruma à calma da tranquilidade não esvaecida…
Não receio encontrar o sofrimento,
Apenas disfarçarei as cores
Com que ele me pinta os dias em aflições
E pensar-me feliz neste triste contentamento.

Pela minha consagrada insignificância,
Pela minha erudita ignorância,
Sim, afirmo... Sinto-me feliz!
Porque tenho sonhos desmedidos
E não cobiço a sua morte,
Nem abdico dos seus dolorosos desejos
Se nunca me esqueço de fielmente os desvendar.
Antes prefiro esgotar-me e morrer na praia
Do que um findar pálido nas lágrimas do seu mar.


[2008]

5.25.2010

Agora e Sempre




Diz-se que o Universo foi criado
Mas compreendo que ele criou-se,
Pensa-se que a Vida foi gerada
Mas num franco entendimento
Para mim é claro que esta gerou-se.


E como era no Princípio
O medo ocupou o vazio
Foram criadas fracas suposições
Para suportar e controlar
A nossa fome profunda
Por ávidas imaginações.


Agora são claras as fiéis afirmações,
Os conhecimentos organizados e os valores
Que nos propõem encontrar sem fantasias
Para que assim seja permitido libertar-nos
De tudo aquilo que sempre nos aprisionou.


E como era no princípio
Agora e sempre
Tudo se transforma,
Regenera e evoluí.
O vazio não é uma invenção...
Apenas foi ocupado,
Organizou-se e proliferou.


[2008]



5.24.2010

Fenómeno Criativo

















"Fever", Jacek Yerka



Procuro uma separação existente
Entre o sujeito e o seu ambiente,
Um espaço onde possa
Criar e inventar
Numa irracionalidade divergente.

Preso na minha ilusão
Agora observo tais cerimonias
Sob a luz de um externo olhar,
Onde me deparo
Com uma estética distinta
Da concreta lógica inicial.

Seguirei o mesmo caminho,
Serei o mesmo viajante
E verei o que nunca vi
Se assim não me desviar
Num tempo mais distante.

Construo outro tempo
Desconstruindo pensamentos.
Por mais que me consiga fingir
Perpetuarei a mesma visão,
Os mesmos deslumbramentos.

Assim abdico
Do que não é meu,
Daquilo que nunca fui,
Um fantasma de mim próprio.
Assim, crio novas formas
Com os mesmos traços
Em que me perdi…
O fenómeno criativo
De tudo aquilo que não vivi.


[2007]

Dias Iguais





Fecho-me em dias sempre iguais,
a luz que me esconde não chega
à sombra que eu habito.
Falta-me a nobre vontade
mesmo sonhando tão alto,
porque nada consigo mudar,
nem a forma como escrevo.
Sou diferente durante
um mesmo monótono dia
perseguindo a cobarde agonia
dos tempos que não vivi.
É fácil tornar o meu dia
mais cinzento, na humildade
de uma cor sempre igual.
É tão fácil sonhar,
imaginar até desfalecer,
esgotar-me em fraqueza
e, por fim, adormecer...
Voltando a sonhar
com as novas cores
dos dias sempre iguais
onde me deito.


[2007]




Razão Plutónica





Diz-me como poderei governar
um reino que não existe
ou como me torno escravo
duma razão que resiste,

Desconheço as horas
as origens deste momento
como o longínquo tempo
que me levou ao tormento,

Assim como renuncio
ao motivo da aparição
no encontro descomprometido
dessa confusa aflição,

Não digo o que sinto
e penso em projecção
nas dúvidas que atraem
as feições ígneas da atracção,

Vivo vivendo e procurando
essa admiração que não dorme,
admiradora de fábulas e mitos
escondendo-se de quem se esconde...

E aqui estou
escravo da minha fraqueza
mas fiel à certeza
que sincero sou quando me vejo
fora do platonismo que nunca recusei.


[2006]



Padeço por sonhar





Andando perdido
Não esquecido
Confuso na solidão,
O mar de gente
À minha volta é frio
Não aquece o coração.

Contudo encontro rumo
Para tudo há solução
Não vale a pena chorar em vão.
Sou um bem perdido
Cheio de satisfação,
Vejo-te como uma oásis
Neste deserto de multidão.

Lágrimas não as sei em sonhos
E no teu olhar fecundo de felicidade
Só o bem procuro alcançar
Com um coração que é cego,
Incoerente por sonhar
Quando deixa um sofrimento que não se vê
E vive morrendo por te encontrar.


[2006]



5.22.2010

Comunicação





Em pensamentos soltos
Por ideias dispersas
Num complexo modo de falar,
Agradeço à palavra
Estranha incógnita amiga
A ajuda emprestada
E a eterna bondade
Que me sustém
Quando, enfim, escrevo…

Soltar um grito
De que me vale,
Se ninguém me compreende
Se ninguém me escuta,
Porque não falo
Porque me escondo.

Sigo por um novo caminho
Estranho rumo impossível,
Por me consciencializar
Por perder o medo,
Assim ganhar coragem
E, enfim, mostrar
Um estranho lado ausente.


[2005]



5.20.2010

Mente (esperança vitória)





No planalto da ânsia
Que é a minha alma
Dorme um guerreiro
Dos tempos idos.
Descansa das guerras
E batalhas que sonhei
Procurando alcançar
O que os meus olhos não vêm,
A paz que sempre procurei
Nas calmas e ardentes
Razões de sonhar.
Sou um ser inconstante
Um sonhador errante
Destemido de imaginação,
Consciente da desgraça
E da desilusão.
Sei muito bem o que é sonhar em vão,
Mas só assim anda contente
O meu triste coração
Numa breve alusão a felicidade.


[2005]




Sem se ver (fogo que arde)



"Chama" chama-me...
Vem me aquecer
Que não é frio o que sinto
É sede de verdade
E não minto
Vem me ver.
Não é uma dúvida
Não é um sacrilégio
Vem simplesmente
Vem…
Para me escutares
Para me queimares
Vem…
Com o teu fogo
Com o teu calor,
Vem…
Para só depois
Se sarar assim esta dor.


[2004]

Escriba



Se fosse poeta
Pintava a escrever
E as minhas palavras
Soavam a música
Numa melodia celestial.
Mas não sou poeta
E o que escrevo
Não está mal
Nem errado,
Mas a sua verdade
Tem outra cor...
É a marca do sonho
É o espelho doutra dor.
Não é como se pensa,
Mas é assim que tem que ser.
Esta minha crença
É a esperança de vencer.


[2004]

5.16.2010

«Bom e Expressivo»





Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: — Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...

Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

5.14.2010

Poema-conteúdo


«Um verdadeiro poema não tem significado.
Quanto mais vazio um verso, mais perfeito é.

A poesia é uma fraude sublime, leitor.

Uma burla nobre.»


Gerrit Komrij, 1978







O verso mais importante de um poema é o primeiro
Serve de mote ao marcar o seu nascimento;
Faz o poeta escrever.

Todos os outros que se seguem são de explosão,
Sem assentes regras formais e com muito experimentalismo,
Onde as palavras procuram-se na transfiguração
Dos vocábulos que se rematam e concentram a inconstância;
Fazem o poeta continuar.

O último é a redenção,
Mesmo sem o virtuosismo de uma esmerada conclusão,
Útil para o poeta fechar o poema.


Sete-Setes




Baltasar Sete-Sóis
Que mal fizeste tu ao mundo,
Se foi pela ganância de outros
Que te subtraíram uma mão?
Blimunda Sete-Luas,
Mulher liberta de futuro
Que vês as virtudes invisíveis do mundo,
Porque vagueaste nove anos sem rumo?
Sete-Sóis, de apelido Mateus,
Homem pragmático, homem simples,
Soldado, carniceiro, construtor e boieiro.
Sete-Luas, para tantos outros de Jesus,
Acolhes as vontades dos moribundos
E vives sem regras que te escravizem,
Vês às escuras o que os outros não vêm na luz.


Sete e sete vezes sete;
Sete sóis, sete luas, sete esferas celestiais,
Sete céus, sete planaltos do monte do purgatório, sete candelabros de ouro,
Sete colinas de Roma, sete reis, sete imperadores, sete igrejas,
Sete mares e sete maravilhas do mundo antigo.
Sete virtudes, sete pecados, sete sacramentos, sete trombetas de Jericó,
Sete tabernáculos, sete arcanjos no trono de Deus,
Sete degraus da Escada de Jacob;
Sete estrelas, sete candelabros, sete selos, sete cornos,
Sete pragas, sete olhos, sete trovões,
Sete os raios da luz sem fim, sete as cabeças da besta, sete as da Hidra,
Sete as de outros seres surreais e de outras aberrações.
Sete os dias da criação do mundo, sete os dias da semana,
Sete os dias de transformação da Lua;
Sete artes, sete cores do arco-íris, sete notas da escala musical.
Sete chakras, sete grupos de vértebras, sete orifícios craniais,
Sete anos por cada fase de transformação pessoal.


5.04.2010

«Esperar não custa»










Esperar não custa
se for esperar por ti,


na espera imagino que estás,
que te dás ...


... e mesmo se não vieres
ter comigo

eu estive contigo!




Martin Guia, in 'Fios Invisíveis em Canteiros de Pedra'

5.03.2010

Palavras e Imagens


























Sabes que cada imagem
Vale mais do que mil palavras,
Mas quantas imagens ao certo são precisas
Para descrever a intensidade
De uma só palavra ao pormenor?

Reconheces este quadro,
Lês-te a biografia do autor
E de todas as especulações rigorosas,
Por mais claro que seja o seu significado,
Nunca conheceste o pintor.

Muitas palavras são gastas
Quando se procura traduzir a essência de uma obra.
Aprende-se a utilizar a visão e o quadro torna-se branco,
Surge repleto de intersecções e apresenta-se como uma pintura.
Como pode um cego tomar consciência das suas feições
Sem ser recorrente uma necessária alusão às palavras?


Outras Idades II



Há dias que tenho dezoito anos
Outros há que tenho oitenta e um.
Se não conhecesse bem esta idade
Ou mesmo o tempo que tenho,
Possivelmente não teria nenhum.

Que idade têm os meus anos,
Quanto a hora agora me faz?
Se não é pelo bater das horas,
Passando pela ponte dos dias,
Que viver tanto a vida me apraz?

Se a idade verdadeira
Não vem descrita nas faces,
Nem vestes, nem nos enfeites,
É porque se esconde na profundidade do olhar.
Assim, quanto tão velho mais novo me encontro
Fiel e crente na imortal plenitude.

AVIVA



Encontrei-te num outro dia,
Já não te via, sei lá, há que tempo.
O local pareceu-me a jeito,
O diálogo fugaz e delicado,
Descomprometido ao contrafeito.
Ainda me retenho perturbado
Pelo espanto que dedicas à visão.
Soube bem como o tempo castiga
E somos nós escravos na sua servidão,
Que os ponteiros não param
Quando te deixam o olhar sem evasão.
Relembro como era realçado
Pelas sombras que o encobriam
No seu brilho etéreo radiante…
Agora, sem pinturas e feitiços que enfeitam,
Mostra-se num semblante mais profundo,
Cansado e carregado.

Sei que também estou envelhecido
Pelo passar de poucos muitos anos.
Deixei de sorrir, de me pasmar patético
E trago nos olhos cravados
Um aflitivo boicote aos ponteiros.
Como tantos outros conhecidos
Reconheces que estou mais alto e esquelético
Mas todos sabem que sempre fui assim,
Embora nas diferentes proporções
De um descondicionado ecléctico.
Nada interessa o que dissemos,
O que importa é que falámos…
Sim, agora tenho barba que se desfaz diariamente,
Tomei controlo no tamanho e ordem dos cabelos
E é de saudade ou outra coisa aparente
Que se me transbordam os olhos, enquanto os teus
Foi tão-somente um gosto voltar a vê-los.

5.02.2010

Chagas


Palavras que devoram enternecidas
As vontades do meu alimento,
Brancas eternidades que pasmam
E só assim me prendem
Como as raízes das memórias
Que vivo vencidas e sem glória,
Pelo que espero, soturno e incauto.

Tiro férias, não descanso,
Vivo só e desatento.
Se não me falta o pão, nem a carne,
Sei que escrever não me enche a boca de sustento
Por mais que a sede das letras se faça maior,
Que maior ainda é a dor e deixar de sonhar.
Quanto do viver é arrastar-se,
Quanto me resta para ser verdadeiro
E ainda assim precisar de acreditar
Que vencer será sempre continuar.