4.29.2010

O Justiceiro, Gago e Honesto



Um dia conheci um homem bom e justiceiro
Que deambulava nas ruas para proteger inocentes…
Mas de tanto ser perseguido e por ser forasteiro,
Foi ele a primeira pessoa que salvou.

Uma vez conheci um homem que gaguejava
Que era incapaz de fazer mal a alguém…
Mas de tanto morder a língua e fugir à zombaria,
Até deixou de falar por completo.

Outrora conheci um simples homem honesto
Que não era capaz de expressar sarcasmo…
Mas de tanto negar a hipocrisia e desconhecer a ironia,
Morreu só, sem saber que doença tinha!

Falsas Ficções




- Como se estivesses tão longe
Na proximidade que fomento
E por não falar noutras línguas
São ficções estes lamentos.

- Como se estivesses tão perto
Na distância em que alimento
Todas as palavras que sei
E que traduzem falsos tormentos.

Nova Cor



Deixou-me há muitos dias,
nem por tudo estou contente.
Julgava-a demais,
apenas opunha-se diferente.
Ficou perdida na escola que frequenta,
Algures entre a mesa e o professor,
esperando que ninguém a encontre.
Ela sempre foi minha e, por isso,
tem outro imenso valor.
Mesmo assim comprei uma nova
mas de uma outra cor.
As palavras vão saindo bem
pela ponta da sua esfera
que só pára de escrever quando a tinta acaba.
Foi por isso que adquiri logo uma
que me sorriu quando a vi.
A outra não a vou querer mais,
ou então talvez até vá
se a encontrar…
só que esta nova é bela no grafar
e a escrita da outra era má!

4.12.2010

Le Soleil Aubergine

















Não há dias em que deixe de pensar
Que o passado nunca foi meu como esperava
E só o presente tem sentidos diligentes.

A verdade é desconhecida
E tento em vão saber ainda
Se o apreço é ironia,
Se a desgraça é simpatia.

Nosce te ipsum
Ou não reconhecerás mais ninguém,
Descobre o que te indispõe e consome
Até que a Maiêutica brilhe em ti,
Que a palavra nunca morre.

Só o diálogo deve resistir,
Deve ser vivo e não um jogo.
Questiona para descobrir
Que encontrar-se é quando se lê
E não quando se escreve
Os falsos monólogos que são banais.

Nunca esperei desvendar por comparação
Certezas de algo que se encerra e finge,
Somos meros simulacros de nós próprios.
Quando as aspirações são ideais,
Todos os padrões são excessivamente impessoais
Para se ter a índole de um homem que reza
E espera que o céu desça à terra.

Fora os dias em que penso
A maior beleza que se esconde no valor,
Todos os outros são derrotas.
Dias em que vagamente esqueço
O sol da manhã e o anoitecer,
O mundo que dorme de modo demasiado frio,
O entendimento que é emocionalmente subjectivo...
Até atingir a miséria e não viver mais de paixões mas de amigos.

4.11.2010

Satisfação Comprometida


O tempo passa
tão demasiadamente depressa
que não te deixa viver
intensamente os momentos
de um modo que te contente,
mesmo sem que a esperança esmoreça.
Os anos perdem-se,
entre os dias dos meses e as estações.
O passado parece-te
longinquamente ausente
e o futuro que há-de vir
um horizonte continuamente distante.
As horas já não fazem sentido,
não as vives como desejas
e enquanto do mundo surgem queixas
o essencial fica por definir.
Esperas clemente,
em voluntária ansiedade,
por mais um ocaso...
Fechas os olhos e repousas,
deixas-te ir a flutuar solenemente
para lá dos limites dos sonhos
que vives só como fieis fantasias,
quiméricas sensações não sentidas
e despertas o sol antemanhã.
Vives numa contínua satisfação comprometida,
majestosamente já sofrida...
O requinte avassalador do funesto trespassar
que te presenteias o mundo com o olhar.
Talvez num instante efémero de infinito
o coração seja mais verdadeiro que destemido
para que consigas libertar com estrondo
a mágoa tentadora de um desejo perdido
pelo teu coração não poético.
Os nossos destinos
reservam-nos sempre novos encontros.
Perdoa-os por mais que se atrasem,
outros já esperaram por ti...
Segue graciosamente a discordar
mas sem tentar encontrar
outros sentidos trágicos
ao que se procura acertar,
porque num qualquer contratempo
vais deixar de te descrever
através de um espelho irregular.

4.08.2010

Fuga e Contraponto



















Fantasmagórica penitência
Distinta e pertinente,
Será esta essência manifesto
De uma ausência clarividente.
Trata por vós o disfuncional afecto
Com finezas tão próprias,
Discorridas flores de valdevinos,
Que fazem dos reais sonhos gracejos
Em enigmas sofredores e peregrinos.


Rumai por aí fora e encontrai-vos,
Que eu para voltar sempre nunca volto
A marear por entre os tempos banais.
Faço do pouco o espanto e do muito nada,
Profano sete quintas, pântanos e vendavais,
Que a vontade da sede pagã de tão vil é vã
E só por convicção ao farto canto beberei mais
Quando acalentado pelo já tardio vento suão
Ou por divertimento de outras insolvências surreais.


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«Fala a Loucura»

"Que digam de mim tudo o que quiserem (porque eu não ignoro como a Loucura é, todos os dias, reduzida a pedaços, mesmo por aqueles que são, ainda de todos, os mais loucos) mas, no entanto, sou eu, eu só, que, com a minha influência divina, distribuo a alegria pelos deuses e pelos homens."

Erasmo de Roterdão, in 'O Elogio da Loucura'

4.06.2010

Concerto




Pesado coração e corpo-lento,
Pedaço confuso de sofrida interjeição,
Que gira quebrando as voltas do temperamento
E se não impera é tão somente imperfeição.

Olha-te peregrino e desconhece-te,
Não queiras ser vidente de transparências,
Como se desconhecesses o que vês no espelho
Por entre cores, cifras, cômputos e reticências.

A segurança do passeio não é para ti
Porque em vez de folhas pisarias outra gente,
Caminha antes, assim adiante, pelo meio da estrada
Mesmo com o corpo frio e o sangue quente.

Sublime gracejo venerável e decido
Tu que conheces quando surgirá uma nova aparição
Que se irá exprimir livre, tempestiva e não convencional,
Sem fazer dos outros favores o amparo da obrigação.

4.01.2010

Ágon



"Não ir ao teatro é
como
fazer a toilette sem espelho."
A. Schopenhauer






Os actos somam-se, a retórica repete-se
E as longas assonâncias chegam à peça
Sem mais didascália entre canevas e diegese.
Que quando o êxodo começa, o elenco despede-se
E é
ainda de pé que
o pano se fecha.