3.26.2010

«Tese e Antítese»


I

Já não sei o que vale a nova idéia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacchante após lúbrica ceia...

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...

Mas a idea é n'um mundo inalterável,
N'um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!



II

N'um céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A idéia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que a fecunde o sangue dos heróis!



Antero de Quental, in "Sonetos"

3.25.2010

«Fotografia de Coimbra»


















Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde,
Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra.
Coimbra são as fotografias reveladas de um rolo antigo,
esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos,
Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado
apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater,
e esse é um milagre de deus que transcende deus.

José Luís Peixoto, in 'Gaveta de Papéis'

"Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia."

3.04.2010

Corrente II














'Vuel Villa',
Xul Solar (1936)




Assim, quero estacar
e ganhar raízes na terra ainda húmida;
crescer verticalmente, encher os pulmões do mundo,
de braços abertos aos céus e aos ventos;
mostrar vestes verdes e o corpo contorcido,
que abana e não cai.

Depois, quero ser talhado para planar
e fundear nas frescas águas límpidas
dos rios que às vezes são como grandes planícies;
deslizar com a leveza do casco,
com a força das velas, seguindo a corrente
de mãos intensas na roda-do-leme.

Por fim, quero navegar as grandes ondas,
atravessar os mares e imensas tempestades,
fazendo fé contra qualquer borrasca;
alimentar a água com o sal derramado
pelos panos eivos e mastros despedaçados;
sem nunca deixar afundar a esperança,
cumprindo-se o destino das terras prometidas.


Eterna Idade



Um dia vais descobrir
a idade das árvores,
a idade das pedras,
a idade da terra que pisas.

Um dia vais reconhecer
que mais nada interessa,
que muitas coisas são inúteis,
que o desperdício é a tentação dos tempos.



Idade Eterna



Um dia vais fazer as malas,
partes só em viagem e nem avisas,
se calhar porque assim queres
ou então porque muito precisas.

Um dia vais poder olhar
para o lado ou para trás no caminho,
vês que estou lá, no lugar do pendura,
isto se não pretenderes levar por companhia
apenas algumas recordações.



«Transcendentalismo»

(A J. P. Oliveira Martins)

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto mundo — por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade —
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Vôa e paira o espírito impassível!

Antero de Quental, in "Sonetos"