2.16.2010

Os meus problemas


















São versos,
entre rimas
e lamentos.

São palavras,
meros pensamentos
em estrofes de fingimento.

São poemas,
outros deslumbramentos,
grandes exercícios de esquecimento.



Segunda Vaga


O poeta enquanto homem
não pode querer mudar o mundo
se nem ele é capaz de se mudar a si próprio,
mesmo que existam uns quantos sonhos belos
depois será exigente a necessidade de acordar.

Cada qual vê as proximidades do mundo
com o seu modo único de sentir,
que é apenas aquilo que a sua constituição é capaz
e esquece que o mundo é vasto demais,
muito maior do que aquilo que lhe é possível discernir.

As sentenças da vida espelham-se sempre
com múltiplas diferentes perspectivas,
dependentes da linguagem comum,
do tempo em que são inseridas
e das compleições em que as julgam.

Se o poeta é todo aquele que cria
é natural aferir que todos nós somos aptos para tal
mesmo sem nos vermos como criadores de coisa alguma,
apenas descuramos o mesmo objecto de estudo
impondo restrições ao indecoroso triunfo da vida.

Há que viver consciente do eterno presente,
há que saber beber coisas do passado e imaginar futuros,
enquanto se põe ordem às condições que levam à poesia
para que esta se possa afirmar como tal, por si mesma,
sem qualquer meato onde tempo ou espaço se esgotem.

Há que estar em alerta às novas ideias,
há que não julgar sem compreender
para que as verdades não sejam falsas,
mas sem pôr de parte que o que é defendido
não é efectivamente a verdade absoluta.

Essa é a fantasia do homem, herói dos seus sentidos,
que acredita como real o que a sua mente conjura
só se questionando a si mesmo, mas que esquece
que o seu intelecto é uma manta de retalhos de outros
com preceitos mais ou menos alinhavados.

Defeitos e qualidades são tão somente
características às quais a sua classificação
tende divergentemente para a estupidez,
coisas concorrentes como o abstracto e o concreto
que o homem teima em traduzir repentinamente.

É certo que em tudo existe poesia, sendo a poesia uma só,
se ela fosse tão verdadeira como um fenómeno puro
chamar-se-ia matemática, só na linguagem do cálculo
as observações e descrições são universais e unânimes,
não são dependentes das formas como vemos as coisas.

Já na poesia, não é possível provar as regras
que decompõem os versos, eles apenas servem
para inventar um mundo, inútil, onde o homem
se considera inexistente para assim procurar
realizar-se nos outros, amplamente vário.

2.12.2010

«Ausência»


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

2.10.2010

Ascético














Rapto na Paisagem Povoada (1947),
António Pedro



Se é por mim que esperas,
desesperas. Vejo o tempo passar-se,
roubando anos às marés, como
grão de areia a deslizar numa ampulheta.

Sabes bem que eu vejo mal ao longe,
tudo confunde-se-me por ilusão da retina.
É por isso que apenas consigo focar o hoje,
porque é dele que respiro, é aqui que eu vivo.

Também é assim com o coração,
que frequenta razões, outro lugar
enquanto não dou corda aos lamentos.

Depois vou-me desdobrando em sonetos
e vejo bem de perto, com a respiração,
os ponteiros transbordarem de movimentos.

Desprezo



Vale a pena prostrar-se verdadeiro,
Quando o mundo julga por partes
E não esboça um traço inteiro?

Vale a pena expressar-se honesto,
Se é pelo artificio que a humanidade
Reage à beleza do gesto?

Há quem nada desfaça,
Há quem tudo despreze...
São beneméritos outros confrades
Por assim aplacarem as honestidades?

«O Poema Original»


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.



Ary dos Santos, in 'Resumo'

2.03.2010

Pequena Confidência


No seu olhar julgava existir um código claro que decompunha por mágica formulação, onde me pasmava calmo e aflito, sem qualquer comparação, absorvendo pela pobre janela da minha alma toda a sua gentil, franca e esperada salvação. Nele apenas encontrei encantos e inspiração, razões que por si só fomentam à exclamação das formas em que me expresso e lhe destino tão cobarde e louca, patética, fatal admiração. Como fraco sou com esta inaudita consciência, sem mesmo assim fazer-lhe frente e resistir, confiando-lhe pequenas coisas que são versos placidamente descritos, feitos com a intenção dos sonhos imaginados, como retratos de luz, que lhe ia contando em segredo e que ela simplesmente fingia não ver, confidências que nem mesmo eu conseguia resguardar do mundo. Resta somente esgotar-me neste estranho ardor onde soturno reconforto-me e cauterizo apenas por desejar que o frio não ultrapassado, de tão gasto, oculto, estranho e maltratado, já não se consinta sentir com a breve indiferença dos meus estóicos pensamentos consagrados aos pequenos todos que me dão vida e humildemente sempre espantei.


"Os instantes de grande dor ou de grande agitação, mesmo na história universal, têm uma necessidade que convence; desencadeiam um sentido da actualidade e um sentimento de tensão que nos oprimem. Essa agitação pode provocar seguidamente a vinda da beleza e da luz, assim como da loucura e das trevas; o que se produz reveste, em todo o caso, as aparências da grandeza, da necessidade, da importância; distingue-se e destaca-se dos acontecimentos quotidianos."


Hermann Hesse, in 'O Jogo das Contas de Vidro'

2.02.2010

A uma ilusão



Uma ilusão praticável
no excesso de preparação,
os modos e gestos
com que invoca
por tamanha delicada
avidez e atenção.

Poderia ser imperfeita
que desse modo, consciente
não me desvincularia
de todo e qualquer
parecer favorável,
sem nunca por em causa
a sua aparência real
complexamente adorável.

Poderia mesmo ser perfeita
mas duvido da sensação
artificial, não concreta
onde qualquer percepção
orienta à ilusão.


2.01.2010

Estudo sobre o acordar




Amanhece
enquanto viajo numa irrealidade
onde aparentemente fui enganado
por mim próprio.
Acordo enfim
tudo se encontra no mesmo lugar
à excepção do meu entendimento
e as horas que se seguem
são o verdadeiro tormento.

Sonhos tão fortes
e não só leves pesadelos
num despertar violento
desse som disforme.
Organizo a vida
num turbilhão de informações
de dados extraídos inconscientemente
no recalcamento das horas vagas
ausentes de esforço físico.

Levanto-me cansado
viajei toda a noite
sem passar o tempo em claro
acordo só alienado.
Penso-me esgotado
mas sigo rumo ao novo dia
devaneando acordado.
Que sem o alarme soar
todos os sons parecem ruído
todos me fazem despertar.

Procuro no céu a luz
mas não a vejo
ainda é demasiado cedo
ficam as dúvidas e o nevoeiro
ficam os mistérios e as brumas.
Por isso gosto de me fazer
como o sol nas manhãs
em que se esconde nas nuvens.

Gosto de acordar
e encontrar-me no céu
sem tristezas, sem mágoas
no conforto das alvoradas.
Gosto de acordar
e reconhecer-me
como reconheço o dia.
Acordar e viver como devia
quando todos os sonhos
são tão somente fantasia.

Singular Inspiração


«A inspiração poética

é um delírio equilibrado

(mas sempre "um delírio")»




Espero que encontres
no caminho dos meus lamentos
as verdades que sinto
e não fracos fingimentos.
O meu desejo
não é passageiro,
é humilde e sincero,
com o devido respeito
da fidelidade por inteiro.


Gostava de ser aceite
como uma pessoa diferente,
mesmo que me desculpe
por viver num tempo ausente.
Apenas procuro encontrar
em tão sublime compreensão
o modo como me expiro
pelos desejos de rendição.

As vontades puramente felizes
são uma correcta expressão
de um outro efeito divino,
sem aparente explicação.
Só me resta a nobre certeza
e estas francas aspirações,
ao soltar enigmas
em segredos transparentes

e outras estranhas fatais suposições.

Não sei se vês,

neste passeio pela vida,

a forma como te aceno

com as feições do pensamento.

Mas eu irei estar sempre aqui,

em todo e qualquer momento,

procurando no teu ar
a mais sincera satisfação.

Fazendo de tudo para te agradar
na mais voluntária dedicação...

que adorar-te é respeitar-te,

pelo sim e com o não.


Hoje sou poeta,
amanhã posso tentar ser homem...
mas se as palavras
que me consomem
não te chamam à atenção,
pouco ou nada do que sou
poder-te-á encantar
da mesma forma como dominas
tão singular inspiração.