1.30.2010

«Passado, Presente, Futuro»



Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.



José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

O Íntimo e o Vulgar





A vergonha que leva uma pessoa a não querer falar a ninguém das suas relações mais íntimas é uma auto-advertência do espírito; em cada confissão, em cada descrição, facilmente a distorção se insinua e o que é mais delicado e indizível transforma-se num instante em algo vulgar.

Hugo Hofmannsthal, in "Livro Dos Amigos"

1.25.2010

Cognoscitiva











'Metamorphosis'
(Vladimir Kush)



Deixem a matemática para as máquinas
que a lógica do mundo não é para nós...

Em cada trimestre apreendo novas estações,
empurro o método do mundo para trás
e ele, empurra-me sempre para a frente.

1.24.2010

Estigma Ficcionista


Se eu escrevesse como não imagino
parecia um daqueles escrivães agradáveis,
graciosos no grafar da escrita,
nos arcos das consoantes,
na distropia das letras.
Em trópicos quentes procuro a seriedade
sem o rigor subversivo dos trajes,
velam-se estigmas ficcionistas.
Trabalho a bem do progresso,
reponho parábolas por afinidade,
alimentos que não servem a ninguém
e por isso ofereço-os ao papel.
Se pudesse não recorrer à tinta,
usaria-a no mesmo arranjo
por tamanha simpatia às calamidades.

Confissões Antinómicas














O que sou
E o que quero ser
Distingue-se das aparências...
Todos nós vivemos desconhecendo
Estas mesmas divergências.

Faço-me compreendido
Quando o que busco é incompreensão
E estou sempre à espera que digam:
- Tu escreves que sim,
Mas dizes que não!

Só que o mundo esconde a verdade
A realidade é sempre a mais fiel ilusão...
Há momentos em que só posso ser
O oposto da minha própria contradição.

1.23.2010

Ascese - o teatro dos gladiadores


Já bastam de teatros,
O que o povo quer é sangue escarlate
Oferecido pelos peitos abertos dos
Escravos-guerreiros, para epitáfio
Dos seus rostos rosados de êxtase.

Esquartejam-se os membros
De quem se compadece,
Priva-se o coração aos traidores
E tudo o que se escuta
São rumores da multidão
Em apoteose.

Exclama-se por novo herói
Que o anterior pereceu em combate,
Deixou de ser valente
Ao perder a coragem para dilacerar
E a sua força vital foi parar
Às tribunas de Télos.

Um outro, mais astuto, venceu!

Subversivo
















O poeta das sensações
quando escreve fala dos outros,
raramente pretende ser ele próprio.

O poeta é recorrentemente mentiroso,
como um daqueles cobardes honestos,
que quase sempre diz que é o engano
e só ele é que acredita na verdade
com a imaginação.

Eu sei que não tenho fé nele,
da sua mensagem apreendo apenas
sombrias vagas de ilusão.

O poeta também tem sentimentos,
prefere é abranger-se das sensações
e distribui-as ordenadas pelas prateleiras,
com excessos reservados às validades
e à frontalidade dos rótulos.

Quando o produto expira,
atira-o para o arquivo
esperando que lhe seja atribuído
o conforto da baixa espiritual.

Findar

«Findae, senhora, que
o bom dia é escuro.»

Com as irradiantes cores da primavera outonal,
Chega num cumprimento de olhares,
Que o inverno vai próximo e o frio sente-se
Partilhando o mesmo mudo gesto
De quem compreende e espera por outra aurora.
Que só o silêncio nos reconhece,
Aforismos e diletantismos de uma nova era.
Não será esse o ritmo da natureza?
Já outra não será a minha demora,
Clareza que se empalidece com o tempo,
Com as horas, com as estações.

Findai, senhora, findai os mistérios...
Que é de morte o meu desalento,
Subscrevo de memória a origem do espanto
Na melancolia deste quebranto.
Perco-me na beleza da elegância,
Sigo pelo autismo, finco-me de desesperanças.
Porque não é de sede ou fome que corisco,
Mas venho da ilusão, fraco e combalido
Por me enfatizar pelas folhas
Sem as subversivas cores fundamentais,
Que padecem pelos passeios e pelos jardins.

Divergências, paradigmas, aflições...
Renego as minhas sem outras pretensões.
Nego-lhes os ventos e os vendavais,
Que as suas palavras nunca chegam
Aos limites de outras sensações.
Encontrei-me com a ostracização do ego
Na incapacidade de atingir falsos objectivos,
Abneguei-me dos raros efeitos
E nunca precisei viver de sedativos,
Que a minha essência tem o ânimo livre
De um louco caminhante clandestino.

Resiste a adoração pelo fascínio
E as suas feições perdem-se para além dos olhares.
Fossem elas mais do que brumas e derrotas,
Sejam eles mais do que mistérios e antecipações,
Meros radiantes, abismos de luz...
Dilacerando os pensamentos, os juízos e as razões,
Asfixiando as mudas deglutições
Em falsas esperanças e surdos bramidos
Assombrados pelas ondulantes primaveras do silêncio
E que me cegam com os mais básicos caprichos
Em que se deleitam tanto os desejos, como as fantasias.

1.20.2010

«Estrada de Fogo»


Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;

encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho do fogo,
que de campo em campo aberto

seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

1.02.2010

«A Tradutora»


tu lês. antes de ti, ela muda as palavras. antes dela,
eu escrevo. eu passei por aqui, ela passou por aqui,
tu passas agora por aqui.

entendes isso? ela está onde tu estarás. eu estou onde
ela estará. eu corro pelas palavras, ela persegue-me.
tu corres atrás de nós para nos veres correr.

eu escrevo casa e continuo pelas palavras. ela segura
as letras da casa e escreve vida. tu lês vida e entendes casa
e vida. eu não sei o que entendes.

eu corro. ela corre atrás de mim. tu corres atrás dela.
não existimos sozinhos. sorrimos quando paramos,
quando nos encontramos. aqui.


José Luís Peixoto "A Casa, a Escuridão"