12.08.2010

Resfriamento






























Na minha terra há borboletas
que são pacotes de açúcar que esvoaçam
vazios, empurrados pelo vento,
vezes sem conta é a chuva que lava as ruas
e o frio empalidece as mãos.

As trepadeiras-azuis protegem-se nos beirais,
os corvos-marinhos sobem o rio,
os carros chapinham na estrada,
não reconheço as pessoas por causa dos chapéus
e dos agasalhos que lhes aquecem o corpo.

O café arrefece muito mais rápido,
as esplanadas estão desertas,
os dias fazem-se cinzentos e silenciosos,
as roupas cheiram aos fumos da lareira
e os autocarros seguem apinhados.

O peito arde-me em pleno,
a música leva-me para outros trópicos,
as minhas noites são quentes,
sonhos meus que dormem descansados
e não compreendem a apatia da estação.

As ruas quase desertas cheiram à terra
onde as borboletas passeiam livres,
o vento desseca as roupas nos estendais,
os pássaros não vocalizam consoantes em vogais
e o café, esse já arrefeceu, está frio de mais.

5 comentários:

Rita Graça disse...

Posso garantir que na minha rua o vento não desseca absolutamente nada por causa da humidade. E tenho provas de que os piscos vocalizam e bastante.

Mas o resto parece-me bem.

=P

João Afonso Adamastor disse...

Tinha que vir aqui uma bióloga (sempre atenta) fazer uso do seu discernimento científico e fazer uma crítica objectiva de um poema meramente subjectivo... :p

...até fiquei surpreso por não empertigares com as trepadeiras-azuis ou os pacotinhos de açúcar ^^

Mas comentários assim são sempre aceites e bem-vindos :D

Rita Graça disse...

Gosto bastante do poema mas não sou de todo a melhor pessoa para fazer comentários a trabalhos abstractos (o meu curso estragou-me). Mas foi um elogio, nontheless. :)

João Afonso Adamastor disse...

Através deste blog não espero críticas, procuro apenas partilhar algumas das composições que escrevo, essencialmente para mim e não para alguém em particular. Deixo que cada um explore o que está escrito de livre vontade e faça as suas análises da forma que mais lhe apraz.

A minha formação também é puramente científica, as letras vêm de arrasto e bem deslocadas do meu objecto de estudo. E assim como me distancio de mim enquanto escrevo, também me encontro... mas os meus poemas não me traduzem, não me definem e nunca sou tão sério como me finjo neles, por mais ou menos abstractos que sejam.

Quanto ao teu comentário, o qual agradeço porque me agrada, de modo algum o aceito como uma afronta. Apenas achei engraçado que, depois de confrontares todo o poema, pegas nos dois verbos de maior conotação científica, i.é dessecar e vocalizar, usuais nos teus domínios.

E não digas que o curso estragou-te, porque sabemos bem que não foi o curso xD

Rita Graça disse...

True that.

:)

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