11.09.2010

«Meia-noite e os Braços como Plantas» - Sylvia Beirute



meia-noite e os braços como plantas
e não: o sonho não tem um picotado.
embora o que mais tenhamos feito na vida
fosse inventá-lo e por aí recortado
todas as raízes sem pontos de exclamação,
dividido o excesso - metade
dentro, metade fora -, visto a infância
regressar com um amanhecer distinto
e objectos cortantes de tarde ou amor.
e não: a inteligência não subentende
os sonhos - nem o contrário; não: um
corpo não se espiga em vida e morte,
a sua identidade é apenas medida
de cada sentença.
e então há uma meia-noite de braços
como plantas onde fazer descansar
as ilustrações abertas, fazer-me livre para
título de poema, comprometer-me
com a monarquia de cada bicho.



1 comentário:

Sofia disse...

Fenomenal :-)
João, conheci o teu blog através do espaço "Não compreendo as mulheres" e irei certamente voltar!
Beijinhos,Sofia