10.29.2010

Perdulário





























Perdulário
Cimento de céu e terra
Que despreza os seus interesses
Enquanto aguarda no ponto onde se esperam
Os abismos da ininteligibilidade inaudível das palavras
Pela simples descoberta de uma irregular caligrafia imperfeita
Que fala como se às vezes tivesse razão para ser entregue por completa
Às asfixias e apneias do coração bradicárdico ou dos sentidos clandestinos
Erguidos em ânimos de prantos extintos que nos deixam ser a voz do desejo
Através dos corpos que se alimentam das febris tentações sedutoras do silêncio
Para assim caminharem descalços os olhos brilhantes no locupletar dos estigmas
E das marcas perduráveis que nunca são superficiais para se cauterizam triunfantes.


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«O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem.»

Eugénio de Andrade, in "Rosto Precário"

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