10.01.2010

«AGORA SOU EU A FALAR»





Agora sou eu a falar. Conheces esta palavra? Como é que se diz isto? Eu estou apaixonado por ti. O que é que eu preciso de fazer para tu me veres. Nada, não faças nada. Mas pelo menos pára de olhar para todo o lado. Olha para mim. Eu preciso muito de olhar para ti. Sim, assim. Agora não consigo dizer. Não, não é difícil, só não consigo deixar de dizer. Quando deixar de ver a tua cara o mundo vai ficar tão pobre de repente que não sei se vou aguentar. Eu sei que vou aguentar, mas não sei como é que vou aguentar e não sei, sobretudo, se devia aguentar. Eu sei que tu sabes, mas se quiseres podes dizer. Repete lá. Eu não me importo, faz de mim o que quiseres. Já te disse. Tu também podes fazer o que quiseres, mas dentro de limites. Sim, tu falas muito bem e tudo, mas mesmo tudo o que dizes é verdade ou também é verdade. Há muito tempo que não dizes um único disparate. Se quiseres podes dizer um agora. Sim, é verdade. Mas tu não ligas às coisas que eu digo, e se quiseres que eu pare de falar basta pousares a tua mão sobre a minha nuca. Assim. Agora és tu a falar.

Agora sou eu a falar. Não tenho vergonha nenhuma. Podes-me beijar mesmo aqui que eu não me importo. Diante de toda esta gente, que eu não me importo. E podes chorar a pensar nele que eu também posso começar a chorar a pensar nele, na admiração por ele, nisto de ele ser assim e ninguém mais saber. E podes-me contar todas as outras histórias que eu não me importo. Eu ouço, conta lá. Não faz mal. Eu conheço essas histórias, mas não faz mal. Repete lá. Sim, isso, essa é a mais bonita. É esta a mais bonita. Tu só não estás apaixonada por ele porque insistes em dizer que nunca estiveste apaixonada, mas isso é a mesma coisa que me dizeres que estás apaixonada por ele. Eu não me importo ou então eu importo-me muito. Como é que se diz esta palavra? Diz lá. Eu estou muito apaixonado por ti. Peço-te desculpa. Que música é esta? Vai dançar e depois volta. Eu não saio daqui. Se quiseres podes dar-me um beijo diante desta gente toda que eu não me importo. E podes fazer o que quiseres. Sim, tu fazes o que quiseres. E se quiseres que eu pare, diz: pára. Mas eu não vou parar. Hoje à noite podes fazer comigo tudo o que quiseres. Tudo, tudo. Desculpa, mas eu agora não quero falar. Agora és tu a falar.

Fala comigo. Fala. Não te ponhas assim a olhar para mim. Pareces um miúdo mimado que se não tem logo o que quer faz birra. Faz birra, faz. Eu gosto. Tu gostas. E ele também gosta. Olha que isto não vai voltar a acontecer. Isto? Isto não acontece nunca. Ela fala assim porque pensa antes de falar. Antes do pânico devemos ficar quietos a pensar. Não faças nada antes de fazer o que quer que seja. Sim, pânico. Olha os teus olhos. Sim, se pudesses havias de ver. Se tu soubesses não eras assim. Não eras. Deixavas de existir. Sobrevivemos, está bem, sobrevivemos. Eu não consigo pensar. Olha as minhas mãos, os meus dedos. Eu não consigo pensar. Vais dançar? Que música é esta? Que palavra é esta? Esta. Agora cala-te.

Agora vou repetir tudo do começo. Ouve. Agora sou eu a falar. Depois és tu a falar.


Pedro Paixão, in "A Noiva Judia" ( Edições Cotovia, 1992)


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