8.23.2010

Duplo-Pensar

Pesados,
sentes os olhos pesados,
das costas vem a dor
e tens os membros cansados,
o sol não te serve de aconchego.

Não dormes,
nunca sonhas livremente,
descansas aos poucos e desatento
das saudades, das memórias,
do nevoeiro que vês em frente
como se o descanso fosse
pedaços de acordes desordenados,
como se a fome fosse o teu carrasco,
enquanto o coração náufrago envelhece
num corpo que sem alma não se sente,
vive só e desgovernado.

Em delírio as manhãs vêm calmas,
pudesses como eu respirar desembaraçado
sem o vinho que vem do fermento
da uva nova feita em sumo,
do outro velho e deste novo mundo,
onde tudo é vento e tudo é fumo.

Se é pelo caminho pisado
que se delimitaram as estradas,
também é por isso que se ergueram
as velas da revolta e mudaram-se as rotas
que nos marcam o rumo...
mas corres sempre veloz e andas apressado,
a vida passa-te em segredo,
num segundo maior do que a morte,
maior até que um suspiro
que percorre todo o tamanho do universo,
enquanto toda a terra equaciona o norte.

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