6.01.2010

Inverso


Midsummer night's dream, Jacek Yerka



Fiquei sem versos
Não sei mais o que dizer
Quando oito anos passam
E nem sei mais o que escrever...
Quando as gavetas estão repletas
No sótão somam-se caixotes cheios
De cadernos amarrotados e riscados
Por tantas canetas que usei.

Poderia falar da minha vida
Mas assim não me distinguia dos outros
Poderia escrever sobre o que vejo e ouço
Mas que importância tem para mim...
Passar tanta gente à minha porta
Escutar as desavenças dos vizinhos
Fazer revoluções e reflexões
Sobre a chuva, os apupos e os anjinhos.

Uma coisa é certa e é só minha
Que da vida não me escondo na poesia
Se mesmo nisso me desentenda
Rasgo palavras sem alento e sem emenda...
Para que tudo assim fique
Tão perdido como se encontra
No bom lugar que eu escolhi
Um inverso de qualquer coisa que se pretenda.


1 comentário:

Eutímicas disse...

Lindo, João. "Rasgo palavras sem alento e sem emenda..."


Belo lugar esse seu!

Beijo