5.26.2010

Morte dos Desejos







Sou feliz quando defendo
Com agrado e sem medo
Os sonhos que nunca atinjo.
É certo que nesta sina,
Ocultando tais desejos,
Persigo uma poesia clandestina
E vejo nela a minha vida.
Não procuro pôr um fim
À minha sede e outras vontades,
Às minhas simples excentricidades,
Ao meu próprio entendimento.

Sou feliz enquanto consigo sonhar
Afastando-me do desalento.
Compreendo que pela definição de alma,
Por mais abstracta que seja,
Existem sempre personalidades fortes
E outras ternamente fragilizadas...
Todas têm os seus defeitos
E as suas legítimas vantagens.
Todas têm medos e excessos,
E em todas habita coragem.
Estranho é pensar que cada qual
Aprende de diferentes modos
A mesma mensagem,
A mesma lição canónica
E daí extraí outras conclusões.

O que nos move a destruir os sonhos?
Nunca devemos viver sem eles
Enquanto os desejamos e procuramos
Conhecemos as suas verdadeiras intuições.
Eu não ambiciono a morte dos desejos,
Dedico-me apenas às suas aparições...
Não me canso de os afirmar,
Se me dão vida, se me indicam o caminho
Que ruma à calma da tranquilidade não esvaecida…
Não receio encontrar o sofrimento,
Apenas disfarçarei as cores
Com que ele me pinta os dias em aflições
E pensar-me feliz neste triste contentamento.

Pela minha consagrada insignificância,
Pela minha erudita ignorância,
Sim, afirmo... Sinto-me feliz!
Porque tenho sonhos desmedidos
E não cobiço a sua morte,
Nem abdico dos seus dolorosos desejos
Se nunca me esqueço de fielmente os desvendar.
Antes prefiro esgotar-me e morrer na praia
Do que um findar pálido nas lágrimas do seu mar.


[2008]

5 comentários:

Salomé Gonçalves disse...

Este diz-me muito, vou por uma parte no meu blog, sim? =)
Beijinho*

João Afonso Adamastor disse...

Obrigado .P

Rita Graça disse...

E este é o poema dos dias felizes. O dos dias tristes está algures no passado deste blog e intitula-se 'Quase nada ausente'.
Podes continuar a descrever os meus vários estados de espírito.

*

João Afonso Adamastor disse...

Apesar de 'Quase nada ausente' aparecer em Dezembro de 2009 neste espaço, as suas origens perdem-se algures no velhinho 2007, um outro tempo.

A maioria dos poemas (com a excepção desta última vaga) não têm datas, não considero importante identificar o tempo em que realmente surgiram. Tanto vou apresentando poemas frescos, como outros que vou descobrindo na gaveta de papéis e que se encontravam esquecidos.

E sim, podia continuar a descrever os teus vários estados de espírito... mas isso não era a mesma coisa! ^^

Rita Graça disse...

As nossas linhas de acontecimentos são diferentes e a minha cruza-se com a tua quando encontro poemas teus. Podem fazer parte do teu passado mas são uma parte do meu presente. As datas, se tiverem valor, é só para ti. =) *