12.31.2010

Dizem-me..

























para gostar de todo o mundo
como se gosta de amêndoas e dos seus sabores,
mesmo quando uns são amargos e outros mais doces,
apenas sustentáveis à base dos seus licores.

para esquecer as rosas sem espinhos
que mesmo assim dilaceram mais
do que as que os apresentam como garras,
vincos de diamante que nunca estalam
e que ignoram certas as suas cores.

para firmar beijos como dentadas de maçã,
em sulcos brancos por entre vermelhos lábios quentes,
em canoras notas de silêncios prolongadas
de ausências próximas e nunca indiferentes.

para requebrar a rocha que me preenche o peito
e que agora se derrete em sóbria transformação,
ao fazer-me esquecer que ainda existe uma noite fria,
ao afastar-me do mar seguindo estrelas-guia,
ao retemperar o calor e recobrar-me o coração.

para caminhar sem me molhar e assim melhorar
as coisas de um passado que já não me aflige mais,
mesmo que se lhes disfigurem as suas memórias,
um novo ano apenas para se sentirem os momentos
com toda a intensidade com que atingem o presente
em deslumbramentos e desgoverno pelo martírio das vitórias.


12.17.2010

Bovarístico



























nunca vi
um olhar tão próximo
tão dentro de mim
numa proximidade cristalina.

nunca me senti assim
tão verdadeiro (tão confortável)
nesta presença recíproca
que tem novo início em cada fim.

nunca chamei por ti
mas sempre chegavas
numa anunciação de paz
fazendo-me da fantasia teu arlequim.

nunca esperei o teu regresso
outrossim sempre que voltavas
numa ausência quase fugaz
entre conversas de botequim.

agora quando fecho os olhos
tudo o que vejo é o teu olhar
e entrego-me aos sonhos em boletim
sem receios de acordar.

12.16.2010

P. João







"Podes contar ao mundo como eu te procurei
Quando me for embora diz que te encontrei."





12.13.2010

Os Poemas




























Os poemas não se dobram como as camisas,
não se lavam, nem se passam a ferro.

Os poemas não são um erro,
são vários, diversos, expandidos.

Os poemas não fazem mal,
muitas vezes são mesmo precisos.

Os poemas são o que fica por dizer,
não a escravatura dos versos.

Os poemas não se engraxam,
não têm uso numa só estação.

Os poemas são ruidosos quando se acham,
são réus silenciosos da opinião vigente.

Os poemas não são dignos de desleixo,
têm a cor da palavras numa transfiguração exigente.

Os poemas não são passado ou futuro,
nem como se sente o presente.

Os poemas são apenas poemas,
palavras de alívio no conforto dos tormentos.

12.12.2010

«Modelo de Admissão» - Sylvia Beirute























é como disseste:
só uma pessoa que ama outra
pode e sabe guardar o seu silêncio, mover as suas
falhas orgânicas e os seus vultos erguidos,
ler os erros que não são mais do que instintos que perdem
a consciência, tornando-se
autênticos e desmetafóricos.
e uma falha no silêncio pode não gerar uma fala
ou outro silêncio, sequer meter um ebulidor da
linguagem, bem como
uma falha no tempo de morrer pode não querer
representar a vida comunicante.
uma coisa é certa, e assim o oculto: um quilómetro
enrolado será sempre um quilómetro,
ainda que manifeste uma memória imediata,
uma distância perto.


Sylvia Beirute, in 'uma casa em beirute'

12.08.2010

Resfriamento






























Na minha terra há borboletas
que são pacotes de açúcar que esvoaçam
vazios, empurrados pelo vento,
vezes sem conta é a chuva que lava as ruas
e o frio empalidece as mãos.

As trepadeiras-azuis protegem-se nos beirais,
os corvos-marinhos sobem o rio,
os carros chapinham na estrada,
não reconheço as pessoas por causa dos chapéus
e dos agasalhos que lhes aquecem o corpo.

O café arrefece muito mais rápido,
as esplanadas estão desertas,
os dias fazem-se cinzentos e silenciosos,
as roupas cheiram aos fumos da lareira
e os autocarros seguem apinhados.

O peito arde-me em pleno,
a música leva-me para outros trópicos,
as minhas noites são quentes,
sonhos meus que dormem descansados
e não compreendem a apatia da estação.

As ruas quase desertas cheiram à terra
onde as borboletas passeiam livres,
o vento desseca as roupas nos estendais,
os pássaros não vocalizam consoantes em vogais
e o café, esse já arrefeceu, está frio de mais.

11.27.2010

«Notebook»



























Cubes by River Hunt ('03)



I watch as the whole country slides by below the wing.

Deep red clays and burned out browns, followed by snow bleached peaks
and now the flat geometry of the middle lands.
Hundreds of miles of patchwork squares and circles, an occasional
building group here or there isolated and tiny city clusters shrinking
in the capillary sprawl, grey and lifeless from above.
What is this all about?
The ground moving does not really alter my perspective up here.
Nothing seems to affect my view these days.
My life beyond stable, static.
35 years, 10 years, almost 5 years.
All these time line hash marks seem have ground me to a halt.
How do dreams and hopes end up frozen?
How can I get back that burning desire?
I am at a standstill now.
The days goes in and out and I get nowhere.
Still no great clang of astonishment, no brilliant flash of light,
no steeple with a wide view.
All that surrounds me, all the things that I have gathered and continue to gather
at such an obscene rate seem to be stones tied to the cuff.
Weights to make the freedom of the river that much harder to realize.
And all these stupid metaphors, what is one to do?
The idea of chucking it all seem so inviting.
To throw myself headlong into a love affair with some beautiful unknown person.
Or a trip off alone in the wilds never looking back.
But I can't help myself I must always look back.
Life is so beautiful in the rearview, everything in golden light and very still.
Faces and places, feelings, thoughts, embalmed forever.
That wall in Chapel Hill.
Karen lying on the bed by that sunshaded window, Johnson City,
listening for footsteps and not yet through.
The soft mountains green at 7 years old and 8 and 9.
Laurie's face in that photograph.
The old Volkswagen parked by the gate of those brown fields.
That red tractor leaving traces as it plotted across before Tom and I
our eyes wild with it.
La Sagrada Familia in Barcelona.
Los Angeles palmtrees looming like endless flagpoles and reflected overhead
in the rear windows like arching spiders.
Hovering just 20 minutes ago above the cotton ball clouds.
The first gig in Berlin, Mud Club with the gate coming down.
The stained glass windows of St.Tom's seen close up in movie camera view.
All the envelopes full of tiny snapshots collecting dust.
My mother as a small girl in a burnished white dress.
My wife as a young mother.
All the girls who's initials have been L.S.
The feeling of almost drowning beneath a glassy blue surface.
Kissing Mary in the dark.
Old movies my first attempts all hazy and bleached out blue.
Cody in his leather jacket.
Amanda driving the old wrecked blue plymouth across the Canadian landscape.
My life in a frozen moment a fly's eyes faceted view of all the moments
which make up the full strand.
Do any of these moments mean even the slightest thing?
Michael dragging off the opium pipe in the shaded green of his back yard.
How much easier if the past were a black hole if we had amnesia.
Bright sun skating it's way and fractured kite like beads through
the pine trees outside Susan's house.
How many of my memories are created or reinforced by the documentation of them?
Do we film events only to be able to see them in retrospect?
To see them as though they were the actual moments themselves
burned onto our retina?
To see them as though they were really what we saw at the time?
I don't really remember anything.
I only recall pictures, snapshots of events I may have been present at.
Televised pictures of the revolution no where near here on mine too.
I recall written words of my own past equally with those of times and
places I have little business knowing anything about.
I never really been to sea, never driven down an endless straight ribbon of
highway into the next state, never floated on a swiss alpine lake or borrowed
deep into the earth fossil corridor of time.
Is it even possible to reach out and touch another person?
To dent their flesh with my fingertips?
Why all the conventions the walls to prevent such happenings?
What can you show me?
What can I tell you?
How many years have we been apart?
Where have you been all my life?
When can I see you again?
I'm sick of the sight of you.
All the dichods head butting me one against the other.
Tearing my soul in two directions at once.
Ripping at the seams of my consciousness.
Babbling on and on in my mind.

Lee Ranaldo, in Amarillo Ramp (2000)

11.25.2010

«abre todas as portas» - Luís Alberto de Cuenca






















Abre todas as portas: a que conduz ao ouro,
a que leva ao poder, a que esconde o mistério
do amor, a que oculta o segredo insondável
da felicidade; a que te dá a vida
para sempre no gozo de uma visão sublime.
Abre todas as portas sem te mostrares curioso
nem ligar nada às manchas de sangue
que salpicam as paredes das habitações
proibidas, nem às jóias que revestem os tectos
e aos lábios que na sombra procuram os teus,
nem à palavra santa que espreita nas ombreiras.
Desesperadamente, civilizadamente,
contendo o riso, secando tuas lágrimas,
no extremo do mundo, no final do caminho,
a ouvir como assobiam as balas inimigas
em volta e como estão cantando os rouxinóis,
não duvides, irmão: abre todas as portas.
Embora não haja nada dentro.



Luís Alberto de Cuenca
(tradução de José Bento)


11.21.2010

Quedas d'Água






De bocas cheias de acústicas
vogais fonéticas assim abertas
às matas e grotões tropicais
dizem sempre que ao coração
so-li-dão o bem que ele pede
e nunca o mal que se quer,
se afogam súbitas e aflitas
como as pedras do passado
que lhe vão atando os pés
e as fazem beber inebriadas
águas lúcidas de um futuro
que apodrece nos pulmões,
por não as deixarem respirar
vão esquecendo o momento
presente em que se perdem
para só depois se acharem
ignorando as quedas d'água
que o sol alumia em boa luz.

11.20.2010

«e tu, sempre tu» - Gil T. Sousa





















e tu,
sempre tu
num prodígio de luz

a enlouquecer-me
as sombras


Gil T. Sousa, in 'exercícios de esquecimento'

11.15.2010

Oferenda


















Olho por olho
Dente por dente,
Eu nunca pedi que me dessem o presente.

O natal ainda está próximo,
Isto é tão certo como pretender que ele seja diferente
Ou que sua objectividade seja simbólica
E não preciosismos de enfeite.

Desistam homens das ilusões
Mas não da família, dos corações.
Desejem muito, esperem pouco,
Guardem em vós as mais reais aspirações.

Nova Flor



























Adis Abeba
fica nos confins do mundo
lá ao calor do sol
lá na dor ao sul
onde a noite dorme
em nova flor de tudo
e em fome de incensos.

Faz-lhe o corte
quem lhe faz a corte
faz-se jardineiro
quem lhe agrada o galanteio
oferecem-lhe o céu defronte
quando o que pede são as estrelas
que se escondem para lá do horizonte.

Próprio e Pessoal
























Injectas tanto gelo na corrente sanguínea
Que sinto a tua dormência alastrar-se ao espírito,
Tanto que o meu coração te pede anti-congelante.
Esperam-se inseguras as quedas se algum dia o peito quebrar
Porque sei bem que não aguentas mais o frio nas mãos,
Vai cair de vez para pomposamente se estilhaçar no chão
Soltando um sorriso infantil e sonhador
Que questionando afirma como tudo está tão bem,
Quando nunca está.


Por detrás fica a tinta que escorrendo
Descreve poças geladas e lamentos,
Olhos nus que nunca entendo e que não temendo
Apenas pedem por umas luvas quentes,
Novelos de lã e remendos
Que sempre vou esquecendo.
Ficam só das palavras a harmonia,
Das coerências a cor, dos gestos a melodia
E das essências a sua certeza.

11.09.2010

«Meia-noite e os Braços como Plantas» - Sylvia Beirute



meia-noite e os braços como plantas
e não: o sonho não tem um picotado.
embora o que mais tenhamos feito na vida
fosse inventá-lo e por aí recortado
todas as raízes sem pontos de exclamação,
dividido o excesso - metade
dentro, metade fora -, visto a infância
regressar com um amanhecer distinto
e objectos cortantes de tarde ou amor.
e não: a inteligência não subentende
os sonhos - nem o contrário; não: um
corpo não se espiga em vida e morte,
a sua identidade é apenas medida
de cada sentença.
e então há uma meia-noite de braços
como plantas onde fazer descansar
as ilustrações abertas, fazer-me livre para
título de poema, comprometer-me
com a monarquia de cada bicho.



11.08.2010

Salto



Balança agitada, como tudo em seu redor,
Não sente que também estremece com o salto
E não apenas o velho chão de madeira do seu quarto.

Na visão do mundo, os seus equilíbrios perturbados
Nunca conseguiram superar o caro enjoo dos ponteiros
Que são para todos como que objectos danificados.

Então atira-se ao abismo, sem medos,
Sem cama de rede ou corda de segurança,
Pensando que é assim que se aprende a voar.

Esquece-se de abrir as asas
E apenas atinge o colchão das penas
Que depois ao acordar fica de novo frio.


Outros Princípios



Escrevo com outros propósitos
Para novas formalidades,
Sem conjecturas, sem diagnósticos,
Nem as artimanhas que desnudam as eternidades
Ou fins sem inícios do que não se pede.
Escrevo, sim, para desconstruir realidades
Que desvanecem com o que existia de leal,
Ilusão que não se entende,
Princípios de coisa nenhuma
E que não deviam ter importância.

«Efémeras»






















1 Mudou do dia para a noite.
Foi uma mudança indesejada. De dia estava vivo e à noite estava morto.
2 Mudou de carro. Mudou de nome. Mudou de aspecto. Mudou de profissão.
Mudou de residência. Nunca ninguém conseguiu perceber porquê. Nem ele.
3 Num momento estava vivo e noutro já estava morto.
Nem teve tempo de pensar que a vida é como um interruptor, apagou-se de repente.
4 Matou-se lentamente, muito lentamente, por isso, quando estava quase a chegar ao fim,
teve que voltar ao início e matar-se de novo. Era um perfeccionista.
5 A morte apanhou-o descalço, completamente desprevenido, mas uma coisa é certa,
estivesse ele com calçado ligeiro e também não teria conseguido fugir dela.
6 A Morte encontrou-o vivo. Por pouco tempo.

11.07.2010

Desanexo
















Iguazu, Rendy Pangemanan




Imperatriz ilusão dos sonhos,
Até os homens notáveis têm os seus devaneios
Desejando muitas vezes o que não querem.

Na Amazónia ainda existem índios que acreditam em Tupã,
O criador que desceu à terra num trovão e soprou vida nas formas homens,
Depois deixou-os com os espíritos do bem e do mal e partiu.

As verdadeiras histórias nunca têm principio nem fim
Quando se abre um livro a meio e começa-se a ler
Sem entender o que estava escrito nas páginas anteriores.

Jurupari é o deus da escuridão e do mal,
Que visita os índios em sonhos assustando-os com pesadelos e preságios,
Já Kurupi só em noites de lua cheia atormenta a vida dos índios e dos animais.

Só importa descobrir o que segue em frente,
Preferencialmente páginas brancas e tinta
Para quando escrever algo novo não assusta.

Os dois filhos de Abaangui disparam flechas ao firmamento,
Formaram correntes e treparam até ao céu onde ficaram,
Transformando-se no sol e na lua.

Um livro pesado e fechado na cabeceira serve só como conforto.
Não ajuda adormecer e não pode assim ser compreendido,
É como um descanso silencioso, uma almofada dos sonhos.

O rio chama dois jovens amantes para fugirem numa canoa
Mas Naipi estava prometida ao pajé de Mboi - filho de Tupã
E Tarobá é condenado a contemplar eternamente Naipi sem poder tocá-la.

Há livros que se abraçam,
Que se levam em qualquer viagem,
Que se memorizam em palavras, texturas e cheiros.

Furioso com os fugitivos, Mboi na forma de uma grande serpente
Penetrou na terra, retorceu-se e formou as cataratas de Iguaçu,
Tarobá foi transformado numa palmeira e Naipí numa pedra junto ao grande abismo.

Dizem que os livros ardem mal,
Que as pessoas são livros abertos,
Mas nem sempre é verdade.

Ainda há índios que dançam em adoração ao sol,
Que temem que a noite possa conquistar os amanheceres
E que fazem fogueiras para afugentar os demónios da floresta.


«E espero por ti...»



«E espero por ti porque sei esperar, porque nos genes ou na aprendizagem da sabedoria mais íntima e preciosa, há uma voz firme e incessante que me pede para esperar por ti. E eu gosto de ouvir essa voz a embalar-me de noite antes de, tantas e tantas vezes, te encontrar nos meus sonhos, e a acalentar-me de manhã, quando um novo dia chega e me faz pensar o quão longa e inglória pode ser a minha espera.»

Margarida Rebelo Pinto, in 'Diário da tua Ausência'.



11.06.2010

Proscrito



Os revolucionários franceses em resistência à opressão da monárquia
Defendiam o direito de todos à liberdade, à propriedade e à igualdade.
O nascimento, a tradição e o sangue deixavam de ser vistos como filtros sociais.

A desigualdade social e de riqueza perduraram até hoje.
Na prática, surgiam novos filtros, como dinheiro e propriedade,
Capazes de garantir a seus detentores prestígio social.

Os revolucionários franceses também defendiam um exército de homens livres
A única forma de assegurar uma nação de homens livres, iguais e fraternos.
No passado, lutar pelo rei era uma obrigação que fazia parte da condição de súbdito.
Na nova França, o serviço militar tornava-se um dever do cidadão livre para com o Estado.

Este Governo não era respeitado pelas outras camadas sociais.
Os burgueses mais prestigiados sentiam a sua esfera de influência diminuir
E passaram a acreditar na necessidade de uma ditadura militar,
Uma espada salvadora, para impor a ordem e a paz, a autoridade e os lucros.

Neste cenário surge Napoleão, inicialmente entusiasmo pelos Jacobinos,
Lutou na Revolução contra a opressão e o absolutismo.
Acabou por concentrar nas suas mãos todo o poder,
Mesmo consolidando as conquistas burguesas da Revolução.

Napoleão conseguiu assim imortalizar-se como monarca iluminado,
Impôs a exaltação do Estado e do poder do soberano,
Um despotismo esclarecido movido pelos ideais iluminados de progresso.

Napoleão evitou assim que camadas inferiores da população subissem ao poder,
Derrubou o Governo do Diretório e acabou com a República,
Perfilado com os Girondinos defensores de uma Monarquia Constitucional.

Napoleão fez-se eleger cônsul-geral e restaurou a ordem e a paz,
Organizou o governo, a administração, a polícia, a magistratura e as finanças.
Tomou medidas despóticas, antiliberais e restabeleceu a escravidão nas colónias.

Pela sua crescente popularidade proclamou-se cônsul vitalício e depois imperador,
Coroou-se rei da Itália, divorciou-se da imperatriz Josefina e depois casou-se de novo,
Com Maria Luísa, a filha do imperador austríaco.

Como exímio estratega de forte espírito de liderança abraçou grandes conquistas.
O exército francês aumentou o número de armas e combatentes,
Tornou-se o mais poderoso de toda a Europa.

A guerra era permanente contra as potências vizinhas,
O que levou aliança de todas as potências europeias e foi derrotado, preso e desterrado.
Depois surgiu a restauração, a monarquia foi de novo instaurada.

Os ideais revolucionários foram assim proscritos,
Os Jacobinos foram assim proscritos, Napoleão foi também proscrito,
O desejo de liberdade sempre adiado, assim, progressivamente proscrito.



11.01.2010

«Voz de Outono» - Antero de Quental

















Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
— «Mais te valera, nú e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!» —


Antero de Quental, in "Sonetos"

Às vezes...



Às vezes gosto da sensação,
Parece que tudo tem sentido.
Às vezes gosto de estar errado,
Só na incerteza de manter-me vivo.

Às vezes gosto de falar com as paredes,
Escutam e não se confundem com o resto.
Ás vezes gosto de falar com elas como falo contigo,
Serve para ganhar coragem e ouvir-me atento no eco.

Às vezes gosto das estranhas contradições,
Fascinam-me e confundem-me naturalmente.
Às vezes gosto dos problemas, das dúvidas e das aflições
Coisas que aquecem e explodem sem me deixar indiferente.

Às vezes gosto saber que sinto o fascino em demasia,
Nunca vi mal nenhum nisso e é ai que o problema começa.
Às vezes gosto de saber que nem sempre se pode existir assim,
Não tem sentido, não será esse o princípio, não é essa a minha promessa.

Das Estações


























- Quantos comboios já perdeste na vida?
- Alguns... muitos!

- Alguma vez te enganaste na carruagem?
- Poucas, mas sim, já me enganei.

- Também já adormeceste na viagem e não sabias onde estavas?
- Imensas, acontece-me isso muitas vezes...

- O que aprendeste com tais experiências?!
- Não sei, diz-me tu, é suposto aprender-se algo útil com essas falhas?
- Sim, óbvio que é, mas tu claramente não aprendeste nada. A tua saída já passou,
era aquela ali atrás... Tentei acordar-te, foi um esforço em vão!





Amargura




Tudo começou por não existir um ponto fixo no universo que servisse de permeio
Entre o que nunca foi e o que nunca será que resume a eterna teimosia do presente.

Foi por isso me desfiz da armadura prateada que servia como vil máscara de enfeites
Para largar todas as defesas e assim saborear na pele as mais leves brisas que passam.

Que até ao fim dos dias existirão tempos em que as minhas vontades serão rejeitadas
Acabando facilmente por aceitar que talvez seja o maior recluso dos seus habitantes.

Que há coisas que se não nos pertencem nunca devemos hasteá-las como nossas
Nem sempre tudo pode ser tão eterno como se esperava ao aceitar-me só mortal.





«Necrológio dos Desiludidos do Amor» - Carlos Drummond de Andrad


























Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.


Carlos Drummond de Andrade, in 'Brejo das Almas'

10.30.2010

Proposta























Para escrever é preciso um método,
proponho não usar nenhum.
Para ser lógico deve recorrer-se à razão pura,
proponho uma racionalidade divergente.
Para julgar é preciso compreender,
proponho um juízo ausente.
Para ser verdadeiro é preciso mais claridade,
proponho labirintos esfumados.

Salas de espera nunca fizeram falta,
ao contrário de mesas atulhadas de papéis,
recortes de jornais, fotografias velhas,
copos ressequidos e garrafas vazias...
Não fazem a escrita, apenas consolam o tédio.