12.31.2009

luan oniuaba









oh sangue lamacento. que da cor dos orbes vislumbro os campos frios da carne em putrefacção. que são como rios sedentos pelos tons dos vinhos pardos. que são as sombras e os cinzentos. desejos cheios de flores nos enganos. corpos à contraluz de hienas famintas.

pressinto-me ali ou além. como que parado no tempo. escutando no contratempo velhos cânticos. lendas do pagão templo dos sonhos. vã urbe de glória e lamentos. que não é no escuro musgo da calçada ou das nebulosas o berço onde as guerras descansam.

caminho com o corpo erguido por entre marés encruzilhadas de dedicação e ócio. espaços infinitos de soturna lucidez. pleno e satisfeito sob a lua suprema de uma altivez desajustada.

só queria uma cama de um musgo mais verdejante. daquelas que não oferecessem dores aos corpos lastimados pela agonia desesperante da esperança. que em nenhum outro encontro calma e bonança.

quando farto vivo contra o fardo da cova grotesca. os abismos reais das falsas imortalidades. mas a simplicidade fez de mim devoto. consciente de uma vida apaziguada com ilusão.


*luan oniuaba - nénia pelos caminhos do fogo

Hoje sei que mudei





Mudei, tenho consciência,
como o mundo
assim também mudou
a visão das coisas.

Hoje, não ontem,
mudei
e só me apetece
ficar por aqui
a pensar na cor das meias
que vou usar amanhã.


"Este é um mundo caído,

e não há consonância entre os nossos corpos,

as nossas mentes e as nossas almas."

J. Tolkien

12.23.2009

Quase nada ausente




















Às vezes tento esquecer
aquilo que não pareço ser,
só para poder existir
como os outros gostam de ver.

Por vezes tento esquecer-me
e perder o que procuro ser,
continuar com o mesmo ar
de quem não sabe como viver.

Quase sempre me esqueço
que o meu sossego é que deve existir,
ao perder-me num nada ausente
impossível de distinguir.


Sonhos de Compreensão



Não posso falar
quando não sei do que falo,
mais vale escrever
do que ficar calado.
Quando todos articulam
sem ninguém se escutar,
perco-me por pensamentos
que me fazem sonhar.

Os sonhos não têm cor
nem são a preto e branco,
Se os sonhos são o demónio
de um pintor sem encanto.
Os sonhos são lamentações
da nossa caótica alma,
são fantasias, lembranças
de outras vidas, novas eras.

Eu continuarei a escrever
sem desconfiar das razões,
quando os sonhos são os enigmas
das minhas estranhas alucinações.
Todos prolongam o discurso
sem ninguém se entender,
pelos meus sonhos compreendo-me
nesta vontade de me fazer esquecer.


Sonho Peregrino















"Waiting for a tram",
Jacek Yerka (giclee, 54x60cm)




Preso no corpo
Que me viu nascer
Acordo num sonho
Que vi desaparecer.
Amanhã será um novo dia
É assim que parece ser,
Aguardo o momento
De enfim renascer…

Sento-me às portas do tempo
Num descuido visual,
Sujeito-me a uma vida
Um tanto ao quanto
Informal…
O meu génio chama-me
E eu não sei quem sou,
Algo me prende bem longe
No tempo que me levou.

As horas passam,
Vejo que nada mudou.
As manhãs chamam-me
E não sei para onde vou.
Podia dar tiros no escuro
Mas estou consciente
Do destino que carrego.
Vivendo vivo numa cruzada
Sonhando como um peregrino.


Espontaneidades*



Não abdiques da eternidade
Se ela te aprouver,
Dá valor à tua vida
Se o destino assim quiser.

Se te sentes capaz de algo,
O destino é a tua vontade.
Usa o sonho como estandarte,
Segue-o por toda a parte.

E quando encontrares por aí
Homens que se sentenciam profetas...
Não os ouças, não falam de um deus qualquer,
Descrevem-se apenas poetas.


*[Reflexos (in)transitivos do Verbo]

12.19.2009

Não posso negar o coração


Como não posso esquecer
a dolência da contemplação,
o seu efeito imenso em mim
que me transforma sempre assim,
num louco inquietante
que se perde na adoração.
Quando o olhar são abraços
e os abraços gestos de ternura
que procuram os lábios
oprimidos por estranhas palavras,
suspensos em delicada perfeição.
Não, não posso negar o coração
mesmo que quase sempre
desconheça a genuína razão.

Contradições Esquecidas


O quanto de ti já sonhei,
O quanto por ti esperei
No tempo que passou
Sempre além do que desejei,
Quantas mágoas
Só eu o sei.

Deveria existir
Na simplicidade do verbo
Algo que te renunciasse,
Qualquer coisa que me desviasse
Deste fútil jeito de pensar,
De te reinventar lucidamente
Na proporção que me imagino.

Não abdico das ilusões
Que procuram fervorosamente
Exclamar por todas as tuas feições.
Irei esconder estas palavras
Como me oculto eu de ti,
Se os teus gestos meigos
Forem esquecidos assim...
Em gastas divagações convictas
Onde encontro o desgoverno
Destas malditas contradições.





Lhasa de Sela - La confession

Impassível

Ofereces-me o insondável vazio
Da dedicação que te consagrei.
Transformas-me num vagabundo,
Perdido nas miragens ambulantes
Do mar dos sonhos que naveguei.
Fazes-me beber o melífluo veneno
De estranhos enigmas diletantes,
Conseguindo que habitasse de novo
Admiráveis velhos mundos triunfantes,
Cheios de vida e cores radiantes
Que outros não clamam por ti.

E agora,
Onde estás na falta que me fazes,
Nesta indistinta inquietação?
Pálido é o silêncio do olhar
Anunciando o meu fim...
Se a existência é impassível,
O que restará de mim?

12.17.2009

«De Memória»



Nunca te surpreendeu o sorriso estático

das imagens antigas? Alguma coisa aqui

tivemos de perder. Percorro dias e corpos na memória,

mas o que procuro mais é não te ver.


Quem ama quem? As máscaras trocaram-se

e a tua voz ressoa neste palco.

Trouxe versos e música para te dar,

mas o rosto que tivemos já partiu;

fiquei eu só, à beira da memória,

água do mar que não serve para beber.


Porque esta foi a paixão, o grande acto,

a tímida paixão de asas de chumbo.

Eu vi-te muitas vezes frente ao mar,

mas quem de nós para acender a cinza?

- ronda-nos a ave de presa despojada

sobre os malefícios. Aliás, coisas passadas.


Não te surpreendeu? O amor

surpreende - não convém, desarruma.

E nunca se ama ao certo quem se ama.

Procuramos apenas um brilho,

um brilho muito intenso no olhar,

um brilho que não vamos definir

e que algum dia iremos renegar.




Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música"


12.15.2009

Interestelar


Somos
Filhos das estrelas
Vida por nós definida
Inteligência por nós inventada
Caminhando pelo todo
De onde divergimos
Dirigindo-se para o todo
Ao qual convergimos.

Somos
Partes de um nada consciente
O eterno vazio da criação
Passado de um futuro presente
Os nossos próprios receios.

Somos
Poeira das estrelas
Um dia unir-nos-emos às mães
Gerando uma nova era em procissão
Por entre os brilhos nunca efémeros
E os ocasos da luz.

12.13.2009

«Um Lugar»















hnzwert, cbr.07





era um lugar no telhado da cidade
com
senhoras de olhos calmos
e moscas gordas.
um sino abençoou o silêncio.
uma nuvem roçou a igreja
cumprimentando árvores
velhos e
pássaros.
era um lugar onde as sombras
se afundavam - náufragas
e regressavam ao mundo em silêncio - sobreviventes.
dali
as pessoas emprestavam os pés as pombas
e elas roçavam os telhados
para cumprimentar as casas.
certa manhã
ali sentado
ouvi o sino falar.
não decifrei o murmúrio
[não tenho o dom da quietude]
mas embebi-me do essencial:
aquele era também um deslugar
- chão apropriado para repousar os dedos
e esperar uma formiga passar;
esperar a mordidela também
sabendo-me vivo
em corpo de sangue.

Ondjaki
«UM LUGAR» (29/07/02)
Materiais para Confecção de Um Espanador de Tristezas
Caminho - Outras Margens -
2009

De Ânimo Sereno







Ausência minha, total, sem preocupações.
Tranquilidade e impassibilidade imperam sobre a existência da alma,
A paz, sim, essa chega com a imperturbabilidade do espírito.
Respondo à necessária experiência das virtudes e do óptimo,
Aceitando a carência de ansiedade neste prazer ético e estável...
Xadrez de paixões que devemos arremessar para as esquinas do triunfo,
Ignorando os raros, desleais, desejos superficiais,
Atendendo somente às sinceras vontades naturais.

____________________________________________________________

«As naturezas das pessoas não são todas iguais; para muitas, uma conclusão lógica transforma-se às vezes num sentimento fortíssimo que domina todo o seu ser e que é muito difícil de expulsar ou transformar. Para curar uma pessoa assim, é preciso modificar tal sentimento, o que apenas é possível substituindo-o por outro, de força igual. Isso é sempre difícil e, em muitos casos, impossível.»
Fiodor Dostoievski, in 'O Adolescente'

12.05.2009

«Crítica da Poesia»


Que a frenética poesia me perdoe
se a um baço rumor levanto o laço,
pois que verso não há onde não soe
a música discreta doutro espaço.

Horizonte do verso é a dureza:
já mansidão não cabe neste olhar
que se pousa na faca sobre a mesa
e aprende nela o fio do seu cantar.

Mas se olhar nela pousa, como corta?
E se as palavras sabemos retomar,
quem nos devolve a chave dessa porta
onde a herança está por encerrar?

Tão longe está de nós a poesia
como nuvem nos rouba a luz do dia.


Luis Filipe Castro Mendes, in "Viagem de Inverno"

12.03.2009

Ao Próprio



Que mais posso ser,
Se não eu,
Para ser eu próprio?

Quem mais próprio
Para o ser,
Do que o não-eu?

Quem mais sou,
Que o não próprio,
Para o não ser?


Quem mais seja,
Para ser eu próprio,
Quando sou eu?

Que mais sou eu,
Sem ser impróprio,
Sendo próprio o que quer que seja?

Quem pode ser impróprio,
Só quando não é,
Para que nunca o seja?


Que posso ser eu
Demais para que seja,
Sem nunca o ser?

Quem devo ser para que seja,
Sem ser outro, mais próprio
Do que eu?

Quem sou,
Que me desconheço próprio,
Apenas para o ser?

Ideias e Engenho

Falta-me tempo

Para entreter o tempo,

Encavalitando palavras

Sem duvidar do seu argumento

Mas falta-me tempo

Até para me entreter a mim…

Uso o tempo que me resta

E gasto-o assim,

Arquitectando no invisível

Das ideias do meu engenho

As horas onde vivi.

Se me apresento confuso

É esse o meu empenho

Foi aquilo que eu previ...

Um algo assim declinante,

Tão feliz enquanto sou diferente

Em cada voo mais alto da andorinha,

No paradoxo articulado da indefinição.

Paradigma das Horas Brancas



Hoje sinto a falta do tempo

Para falar das coisas do mundo.

Gela-me este ar

Se respiro fundo

E esvai-se o calor em fumo

Nesta lenta combustão...

Contudo aquece-me o sol

Por quem rogo salvação.


Quem me conhece

Sabe que não existo

No paradigma das horas brancas.

E de outros tempos têm lembranças,

Em quadros e heranças

Dos meus sonhos desmedidos,

Das minhas opressoras ânsias.

Espero pelos cenários prometidos

À subtil ingenuidade

Dos meus modos comedidos.

Aguardo o calor latente

E guardo-o com saudade...

Memórias dos bens do mundo

Onde, com acordo,

Desperto as vontades que recebi

De uma manhã tão fria,

Aceitando-as como a dádiva

Ou o pagamento da minha remissão.


Inoportunamente hoje sinto falta

Deste desejo presente

De compreender tudo o que é existente.

O espaço, os corpos inanimados.

Os seres vivos, a humanidade.

Os princípios de toda a generalidade.

A razão, o pensamento e a natureza...

E não abranger este tempo frio,

Onde trocamos a sua certeza

Por uma sombria condenação.

Ainda assim aquece-me o sol

Por quem rogo salvação.

Procura-se

Hoje falo no presente,

Aquele em que me sinto…

Não que reveja falsidade nos outros

Ou nas minhas fingidas divagações,

Apenas porque me sinto suspenso

Em frágeis versos e suposições.

Sei que os meus desalentos

Não passam de lamentos para alguns,

Mas a verdade é que bons poemas

Ainda não escrevi nenhuns…


Sou somente neste dia

O que fui em qualquer outro,

Um escriba que conta sonhos

E não que cria novas leis ou profecias.

Sou apenas um aprendiz

Do que a vida nos mostra nestes dias,

Do que este tempo nos diz…

Deduzindo e imaginando

Desejos e tormentos,

Consciências e aflições sem fim

Nas coisas que este mundo nos suscita

E me exclamam só a mim.


Agora não se enganem,

Dediquem-se à contemplação

Que toda a alma é erudita.

Mas se procuram poetas

Não me encontram a mim,

Só encaram a minha escrita...

Que eu não quero tornar-me perfeito,

Procuro apenas ser assim…

Não como um louco deambulando,

Mas destro poético, sim!