10.30.2009

A Cela

Frio antro onde me escondem

Pérfida prisão onde me dou
À dor alarmante da graça de quem não sonhou.

Vendo-me longínquo ao tempo
Dou-me irascível a quem me usou
E estranho assim por perder-me

Ao ser quem nem sempre lutou.

Absorto pela revolta que ao vento surge

Embebido nos desejos e na sombra que me esconde

Sinto à luz fraca da agitação das horas

As voltas pungentes e as exposições frequentes

De quem me aprisionou por tamanhas afeições.

Sereno hoje sem esmero o princípio e o fim

Para que o nunca se sirva só na hora da decisão

Como um leve momento de sublevação patética

Como o fruto esforçado da sacra conspiração

E não apenas outro intratável instante de alívio

Para quem nem padece por tão incauta confissão.

Desta cela onde faltam os adornos estéticos do mundo real

Adoro só nos seus dias as sombras da luz que do sol não lhe chega

Na noite a escuridão e o fosco brilho do luar entre apertos convergentes

Não é por tanto venerá-los que assim os procuro roubar ao mundo

Enleio-me só nas formosas e fragosas falas soltas em sossegos desmedidos

Certeiros e pungentes aos guardiões dos meus embebidos sentidos doentes

Que escolhem as aflições que me culpam e que me prendem nos seus desígnios.


10.20.2009

Dor de Pensar

Doem-me as ideias,
Já não suporto pensar.
Falta-me tempo...
Para que me possa entreter
Na minha consequente evasão,
Para que possa oferecer
Novas aflições ao pensamento,
Para que lhe possa dedicar
Uma atenção exigente
E daí possa extrair no seu desentendimento
Uma natural justificação diligente.
Falta-me tempo,
Não me falha a vontade.
Apenas são curtas as horas
Em que me desprendo da teia
E em que me distraio, só...
À minha invulgar maneira,
Numa divagação derradeira,
Ocultando-me entre o pó da vulgaridade
Que se deposita sobre os corpos.

O meu relógio não faz pausas,
Não tira férias, esgota-se a contar
Sem nunca ser interrompido.
Ficando eu, assim, entretido
Sem um claro tempo atribuído
A este impróprio vício de pensar.
Às vezes gostava de ter o juízo domesticado
E imprudentemente controlado
Viver submetido ao abismo da comunicação
E não mostrar à pérfida realidade
O meu discernimento emancipado
De um cruel monstro acordado
Que tenta em vão subjugar o tempo.
Tenho receio de faltar à chamada,
Aguardo com os sentidos despertos.
Benevolente perscruto o ensejo da convocatória,
Ninguém pode escolher quando acorda.
Há momentos mais fugazes é certo
Mas são eternos estes tormentos,
Os meus sonhos nunca efémeros.

Não me cansam as ideias,
O que não suporto é esperar
Pelo tempo que me falta,
Quando o que ainda me resta
Parece, enfim, esgotar-se…
Posso um dia deixar de ser crítico,
Se farto desta dor de pensar
Descompor o que me enleia.
Agora que me faço desconhecido
Posso pensar-me descomedido,
Posso ser quem eu quiser...
Mas depois, quando o meu tempo pecar,
Tudo será repetitivo, a escola é esta,
Não poderá ser meu o que me rodeia.
Talvez me transforme num viajante,
Procurando verdadeiras paragens
Onde se possa deixar de duvidar
Desta originalidade descomprometida
De me entregar aos desígnios
Do estranho modo do meu pesar.

10.13.2009

Viagem ao Acaso

Neste dia eu era outro
Como posso eu esquecer,
Nesse dia que me desfiz
E renasci, como qualquer outro.

Vive comigo no esquecimento
Desde tão distante tempo
A imaginação que subverti,
Onde me perdi no fingimento.

Ficam as mágoas soltas
Como hino ao lamento
Que só assim sei soltar...
Como me prendo eu
Por estranhas inspirações?

Não procuro respostas
Quando apenas respeito emoções,
Esforçar-me-ei noutras viagens
Quando pesquisar verdadeiras explicações.

Que um dia, quando partir,
Desejarei apenas sofrer assim
Neste feliz e atormentado,
Mais que consciente, jeito de sentir.


Superstição


Julguei ter criado um pensamento mau,
como se soubesse o que é justo
com esta razão de
desdém...

Prematuramente desvendei
que esse conceito formado,
como não o esperava

não me oferecia satisfação,
não apresentava fundamento sério...
e deste modo, sem remédio,
já não passa de uma superstição.

Revi a gramática que me define,
procurando uma inflexível justificação,
e resolvi, sem prejuízo,
o
preconceito errado
a que outrora me referi.

No tempo intempestivo,
fora do tempo próprio que previ,
projectei-me no idóneo discernimento
que imprudentemente argumentei...
Mesmo assim, sobrou-me tempo
para que reflectidamente soubesse
como era desajeitado
esse meu descuidado deslumbramento,
essa minha estranha superstição.

Valeu-me a graça consciente
do meu racionalismo aparente,
para que hoje possa negar
todo e qualquer preconceito,
já que não posso negar a natureza humana,
a desgraça que destrói quem se finge herói
apenas por tentar agir sem vontade tirana.

Pensei criar uma funesta sentença...
mas permitiu-me a minha crença
diluir esse tão trágico desdém,
a sua fatal imprudência.

Fronteiras do Invisível

Dedico-me à compreensão
Das coisas, do tempo.
Proponho-me à contemplação
E uso os versos como instrumento.
Aos limites da vida
Sigo desenfreado...
A sua estrutura é complexa,
O seu corolário simplificado
E encontro neste caminho
O que não encontro em nenhum lado,
A face redentora
De um horizonte esperado.

Na fronteira do invisível
Espero despreocupado,
Todo o valor que está próximo
Deve-se ao seu preceito consagrado.
Se o meu percurso está definido,
O meu rumo está traçado…
Procurarei não me desviar
Do templo do tempo da salvação.
O que agora me descreve,
Prevê-se assim com indefinição...
A barreira do impensável
Que só estimula satisfação.

In Compreensão


Ergue-se a incompreensão

Desconhece-se mas pensa-se nela

Confronta-se a rude barreira da inútil ignorância

Ao prazer desconhecido em se aventurar

Na infinita escuridão das plenitudes

Com ódios, com ganâncias,

Com sede de inocentes vinganças

Por medos reservados ao destino mortal

Aliviados por esperanças de falsas fés

Que de tão originais nas virtudes

São maneiras de se glorificarem

Mostrando-se feios, bárbaros e rudes.


Pobres caminhos verdes e bem pisados

Nas entranhas das estranhezas vividas

Em aventuras, vãs maldições...

Renego dos sonetos e serenatas

As viagens pela corajosa ânsia de libertação

A mente, ao luar do monopólio da razão

De espírito retraído à sanguinária violência patética

De egocêntricos amargurados

Por tão reduzida inteligência

Pela deslealdade face à beleza na incerteza

Eu não a sei, apenas sobrevivo

Contemplando a sua complexa simplicidade.


Os tempos estão alterados

Desvendam-se culpas perfeitas que nunca existem

Erros de um absoluto comodismo global

Há o fumo perturbante e os estreitos maquinismos morais

Velozes, galopantes de tão brilhantes nos amarelos e cinzentos

Com os seus numerários e cânones embaciados.

Olham, chegam e partem...

Não se notam porque mudaram

Chegam sempre sem nunca partirem

Ninguém olha, outros sós reparam

Que são outros os espelhos desta sociedade.


Loucas passagens são os sonhos ultrapassados

Melancólicas imagens e sensações interiorizadas

Ser sofredor que o seja apenas como um trabalhador indefeso

Onde do rude potencial surge uma ilustração caótica

Um misericordioso eterno porque não faz juízos semânticos

Não cumpre os requisitos e dá um passo atrás na chamada

E logo é enviado para o estaleiro da compreensão e da espera.




10.12.2009

Espasmo Diferente


Renuncia à futilidade
Com olhares coloridos
E gestos sorridentes.

Com candura e firmeza,
Chega despertando a mesa
Dos seus desejos dormentes.

No gosto fino por traços suaves,
Na aparente beleza humilde,
Acorda com vontades vorazes.

Alberga no seu aroma a eternidade,
Deixa imensos sonhos à deriva,
Raras radiantes simplicidades.

Inocência perfumada,
Abismo de prazer e sedução,
Tão vil como a minha interjeição.

Como idiota perdido nas ideias,
Vivo o tempo divergente
Na memória de outras primaveras.

Perdi já a idílica loucura,
Sofro por não querer
E não quero porque sofro.

Preferia não saber quem é,
Que a sua provocação fascina-me
Na cadência de olhares.

Até mesmo na vontade sobrenatural,
Nos comuns gestos que faz,
Corrigindo a posição dos cabelos.

Agora que já não é Verão a química é outra,
Ocupando uma nova estação
De quimérica especulativa perfeição.


Instantâneo


Se uma linha me permitisse,
Curva, longilínea e estonteante,
Descrever o seu ar seria a descoberta.
Fascínio de além-mar, fogo da tarde...
Idílica redenção perdida em palavras,
A minha alma discernível alterada,
A eterna cumplicidade muda.

Mundo sério, mundo ingrato,
Essencialmente quando se pretende estranho,
Enquanto homem no seu erro humano...
Destrói, reconstrói e não se satisfaz.
Desmancha, desencalha, esconjura
E desfaz-se do que já não quer como seu.

Nas sensações seguintes à ausência
O tempo imortalizou o traço
E o perfume cauterizou o embaraço.
Cresce em mim consternação,
Culpo o vento nascente...
Foi ele que me despertou as memórias.

É como se conhecesse e negasse
O facto de me perder no engano,
A razão de despender as ilusões.
É como me conhecesse e se espantasse,
Não pelas estéticas e convergências,
Apenas pelas figuras a que me presto.

A verdade é que desconheço o princípio,
Assim como todo o seu resto
Nas distâncias que medeiam o tempo.
Volta! Que volte o ocaso outra vez,
Não antes em soltos minutos
Mas sim na eternidade que fomento.

O ar não é o mesmo aqui,
A mesma brisa bate dolente
Mas as suas emanações são divergentes.
Devo muito à contemplação,
Recorri dela na mensagem
E já a abstracção não me distraía.

Só os olhares reservados me despertaram,
Bastou-me sentir presente a afeição
E, quando dei por mim, chegava...
Na mesma curvatura de ombros,
Com o mesmo perfil de cadeira,
A mesma postura, sempre meticulosamente centrada.

O rosto é a face que já não preciso ver,
Bem de frente apresentada espera...
A minha vontade de a vencer e negar.
Trajo o ridículo acessório,
Demonstro nos gestos a perturbação esperada,
Condiciono a fala numa representação falhada.

Demovo-me da condição que comove.
Se fosse forçado não seria perfeito,
Não tenho as penas para que seja espontâneo.
Mas ainda há pássaros no jardim...
Vi um que não via há muito,
Entretendo-se com as migalhas.

Fosse ele um bom actor,
Assim saberia como representar bem.
Contudo, só o medo o saudou
E partiu de um salto alado.
Foi a fuga mais sincera,
Enquanto a mesa agora vazia espera.

No verdadeiro instante não compreendi,
Salvou-me do autismo o seguinte,
Devo-o por mérito à dedução.
Das mais de vinte sem reserva,
Para mal das minhas promessas,
Revelou-se o afinco da aproximação.

Não fosse o encontro uma recorrência,
Não fosse a admiração a minha demência,
Julgava certo o truísmo de tais aparições.
Mas só de pobre orgulho se esmorece,
Que do coração ninguém se compadece
Pelas suas arritmias e compensações.

Pedaço instantâneo de eternidade,
Fosse antes como folhas no Outono
Devendo memórias às tílias e ao alecrim,
A doçura à camomila e o paladar às cerejas,
As longas suavidades às cores do mel e avelãs,
Que a minha serenidade já não vem só do jasmim
Em pequenos quentes travos surdos pelas manhãs.