9.29.2009

Ode Sentimental *


Não há quem a escute,
Ninguém a conhece
E só eu a compreendo.
Vil canção que embala,
Que me inebria,
Que me faz exaltar...
Acordando para a vida,
Quando ainda devo mudar.

Repouso para ver
O nevoeiro chegar.
Sonho, não sofro,
Para não desesperar.
O que nada espero
Tardará em chegar...
E a esperança resiste
Por essa luz me enfeitiçar.

O engenho e a arte
De a envolver em fantasia
É esquecer o passado
Ao despertar simpatia,
É criar um novo mundo
E enche-lo de alegrias...
É dar vida ao sonho
Vivendo sem agonias.

Fecho-me em segredos
Sentindo a luz como punhal,
Cravado no fundo profundo
Deste ser sentimental.
Desperta-me o desgosto
Tão velho e frio como o mar...
Mas farto desta maresia
Nem uma lágrima sei já soltar.

Afundo-me de sobressalto
Em dúvidas e timidez,
Numa dor sem sintonia
Que me conforta outra vez.
Quando as farpas da sua luz
Dilaceram-me a razão...
Nesta vertigem ilusória
De chamar a atenção.




* (Ode Sentimental de Patética Disposição Afectiva)

9.20.2009

Mundo Vago


Nos minutos das horas,

Os segundos são os silêncios

Dos meus tempos vagos.


Chego ao mundo, vejo o sol e o sal,

O vento e as faces secas do areal.

As estrelas, a noite, as flores e o luar.


Depois a tempestade veio do mar

E partiu bem cedo ao amanhecer...

Que o sol surge só e desacertado.


As estrelas já não se vêm,

O vento embate nas folhas ressequidas

E o arranjo de flores já sem vida

Espraia-se na minha imaginação.


Do sal finjo a inexistência de recordações,

A tempestade foi o choro do céu pela terra

Que o mar recalca ao sabor da maré de rosas

E o sol queima em benevolentes aproximações.


Como se fosse pelas palavras ou pelo gosto,

O mesmo aroma, o esmero ao toque,

De vozes e lábios ásperos como pétalas

Que pendem no equilíbrio das ilusões.



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9.18.2009

Descida


Mais uma vez engana-me o cadafalso,

E quebro pelo precipício

Do principio em que me desfaço.

Já não me sinto a pairar,

Como noutros tempos

Julgava ser livre.


Esses sonhos com asas,

Não maiores que simples desejos,

Tomam sem efeitos as minhas aspirações.


Mais uma vez nego o sofrimentos

E deixo-me precipitar,

Sem teias ou ilusões.


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Não me Peçam Razões...



Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

9.17.2009

Motivo Sensacionista


Abranjo-me da consciência da sensações,
Medeio entre filósofos e cientistas
E confiro as possíveis abstracções mentais.
Transfiguro as desregradas complexões
De palavras ocas em prudentes expressões,
Transcrevo-os em objectos contemplativos
De uma sensação numa outra,
Nova e filha da intelectualização.

Nunca decomponho uma emoção,
Não lhe remeto análises dirigidas
Ou faço avaliações instintivas.
Nunca promovo a alteração do seu valor,
Nem a entrada de elementos estranhos,
Pois assim se expressa uma razão vazia.

As sensações não intelectualizadas
São falsas, imberbes, bisonhas...
Têm sempre um mesmo efeito definido.
Assim proponho uma nova dimensão,
Uma outra realidade, inteiramente divergente
E bem diferente do aconchego original,
Fora das sensações interiores ou exteriores,
Designando-a como verdadeiramente pura
Para a factualidade do sensacionismo,
Onde devem prevalecer as sensações do abstracto.

9.15.2009

Espelho (II)


Eu sou o outro

O que vive e respira

Para lá do lamento

Deste reflexo aparente

Sou o viajante

Não um turista da vida

Sigo por outros caminhos

Esta estrada é desconhecida

Perfaço sem alma

Nego o tom à proclamação

Faltam-me as palavras

E padeço de inspiração

Vejo um espelho

E quase nada me diz

Mas encontro as razões

Para assim me tornar feliz

Eu queria era ser o outro

Que vive para lá do espelho

Não para usar

Não para destruir

Só para lhe olhar

Profunda e melindrosamente

O mesmo modo como me vê

Nesta ausência descontente

9.12.2009

Palavras Banais


Há dias em que as palavras
Parecem-me apenas banais...
As minhas, nunca as dos outros,
Porque nessas busco o que procuro
E encontro a esperada calmaria
Para outros tantos vendavais.

As palavras não são o sustento,
São o lúcido e frio desperdício...
Sinais das próprias ideias espontâneas,
Que se deixam bem enlaçar em nós
Na tonta carolice das carícias do argumento,
Na redução dos pensamentos a vocábulos
Que de súbito fogem à conquista do mundo,
Sem existirem ameaças ou maus tratos,
Sem terem vontades de auto-contenção.

Todos os homens no seu combalido truísmo
Conferem-lhes maior cuidado do que às coisas,
Em memórias, lugares-comuns e frases feitas.
Acordam com o que não procuram entender
E acreditam na imaginação de um mal-entendido…
Nem sempre tudo vem assim depressa em nosso auxílio.
Esquecem-se que o justo encontro está comprometido,
Que a voluptuosidade dos sentidos está presa às palavras
E as palavras são a existência exterior dos sentidos.


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"Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de - com a máxima imediaticidade e adequação possíveis - fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão. Que cada um tente fazê-lo. Verificará que é muito mais difícil do que se costuma pensar. Porque para os homens, infelizmente, as palavras são de um modo geral toscos substitutos. Na maior parte das vezes o homem pensa ou sabe melhor do que aquilo que exprime.

Goethe, in 'Máximas e Reflexões'

«Contemplação»

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...

Antero de Quental, in "Sonetos"

9.09.2009

Lamentos por Irkalla e os Tempos



A luz invade a escuridão da aurora perene

E há vozes que não falam porque se calam

À prova distinta que o novo amanhã chegou.


Ante os templos, do jovial crepúsculo e do sofrimento cego,

Sem vontade, deixam-se indagar pelas impressões do olhar,

Adivinham os futuros no céu descritivo, suspiram às estrelas,

Formam descrenças, demónios, outras ciências e inquisições.


No chão terreno das almas férteis, sós pela soberba e imperfeição,

Desenham-se as grafias dos tempos sem conjuras, nem remédios,

Devotos à compaixão de Ereshkigal ou Enlil - Patrono dos Ventos.


No silêncio interior das redondezas e das florestas, vigilantes e imperceptíveis,

Estremecem os rumores que se propagam como insistentes bombos de batalha.

Perscrutando na imensidão do remoto vazio, prostrados ao medo e à glória infame,

Pedaços de carne descorada, entranhas, icor e homens dilacerados juncando o chão.


Espraia-se um manto negro aos horizontes, só um escudo circular ilustra-se ao centro,

Diversos outros pontos reluzentes, sobre ególatra piromancia insana, espelham ao sol

Milhares de mortes e muitos moribundos desramados, todos brutalmente desfigurados,

Enegrecidos de tão queimados vivos sob o martírio da resina, alcatrão e azeite ardente,

O renascimento da terra feito pelo desbaste dos homens e que dos próprios se alimenta.


* * *


9.03.2009

«A Queda»

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro,
Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
Morro à mingua, de excesso.

Alteio-me na côr à fôrça de quebranto,
Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Olho do alto o gêlo, ao gêlo me arremesso...

. . . . . . . . . . . . . . .

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

9.02.2009

Entendido


O ponto da casta estagnação

Atinge o equilíbrio do império

Como que inibido redondamente

Pelo peso das sérias averiguações.

O amarelo desperta-se tanto

Que o cinzento apenas adormece

Sem que chegue ao suposto fim

Do ridículo inesperado, da fúria.


Tudo acontece em desequilíbrio,

Borbulha à toa o caos constante,

Há de Crasso quem negue a fuga,

Há quem da mesa renegue a ordem,

E cedendo o tempo sempre se perde.

Quando a destruição é a inversa,

Quando a culpa gasta-se no declínio

E a razão atinge o retrocesso.


No desmoronar de calamidades,

O erro, esse cai na culpa da redenção,

Que não encontrando desculpas

Desenrola-se num melindroso perdão.

Surgem recônditos ridículos inesperados,

Da lei à tábua, do dito ao escrito

Em supostos julgamentos determinados

À sentença do livre-arbítrio.

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"Há a ideia de que quando se concede à razão inteira liberdade ela destrói todas as emoções profundas. Esta opinião parece-me devida a uma concepção inteiramente errada da função da razão na vida humana. Não é objectivo da razão gerar emoções, embora possa ser parte da sua função descobrir os meios de impedir que tais emoções sejam um obstáculo ao bem-estar. Descobrir os meios de dminuir o ódio e a inveja é sem dúvida parte da função da psicologia racional. Mas é um erro supor que diminuindo essas paixões, diminuiremos ao mesmo tempo a intensidade das paixões que a razão não condena."


"Nada há de irracional nas paixões como paixões e muitas pessoas irracionais sentem sómente as paixões mais triviais. Ninguém deve recear que ao optar pela razão torne triste a vida. Ao contrário, pois a razão consiste, em geral, na harmonia interior; o homem que a realiza sente-se mais livre na contemplação do mundo e no emprego da sua energia para conseguir os seus propósitos exteriores, do que o homem que é continuamente embaraçado por conflitos íntimos. Nada é tão deprimente como estar fechado em si mesmo, nada é tão consolador como ter a sua atenção e a sua energia dirigidas para o mundo exterior. "


Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"