8.31.2009

Café Sucedâneo

Em cada rua deparo-me aos mistérios,

As palavras rumam de solilóquios a vitupérios,

E apenas sei que a verdade se esconde

No desterro de outros hemisférios.


A praça é gente em multidão,

A modesta presença é rumor e aflição,

E não sei se o murmúrio se estende

Pelo requinte de tão sublime apresentação.


Das esplanadas soltam-se sobejos

Que no encanto parecem simples bocejos,

E bem sei que o meu olhar se prende

Para desengano dos meus desejos.


Chega perfumada, ligeira e não fica de pé,

Cessa a eternidade a sós com a mesa de café,

E nem pergunto porque está sorrindo...

Grandíloqua ironia da condição de quem é.


Partem uns e voltam outros, esta cidade,

Paraíso imémore de inópia singularidade,

Despeço-me dos que não se esquecem

E partimos sós na comoção desta fatuidade.

Palíndromo


Real ou irreal, embora tente,

Invertida é no espelho

A sua imagem…

Tão-somente inocência

Quando a procuro

"...do outro lado do espelho".

Ela doce loucura

Ela meiga fantasia

Ela ilusão…


Aprendi a adorar o seu sorriso

Como se aprende a voar

Na tranquilidade natural

Que o seu olhar oferece.

Mas sinto-me fechado num espelho

Como um monstro medieval...

E agora já não consigo comunicar

Para além destas estranhas feições

Em que me tento manifestar.


Como sofisma para os sentidos,

A revolta dos meus sonhos,

A casta angústia de vida...

Quero perder-me assim

No íntimo dos tempos,

Sem afastar as constantes

Que nos transformem em pensamentos.

Quero seguir o seu fausto feitiço

E abalar-me por tais benignos tormentos.


Não é da minha índole

Adaptar-me por conveniência…

Nem certamente será a sua,

Mas entrego-me à sorte, se ela existir,

Entrego-me à bondade de um porvir

Que espante a morte das sensações...

Quando a minha vez chegar,

Bastar-me-á o sonho que desvanece

E a honra das palavras que inocentemente proferi.


Embora tente,

Não são sobreponíveis as imagens especulares,

Não se vive "...no país das maravilhas".

Neste lado do espelho,

As minhas cores têm outros sentidos,

Têm as dormências dos desejos

Que não perdi ao acordar,

São horas tragicamente esquecidas

A vê-la feliz, ao de longe, a acenar.

8.28.2009

«Emoção e Poesia»

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está profundamente apaixonado. A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta. Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. Três espécies de emoções produzem grande poesia - emoções fortes, porém rápidas, captadas para a arte tão logo passaram; emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império do seu país e para a história do seu povo não deseja - não pode desejar ter muitos dos seus soldados assassinados (mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação da sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para os seus homens) o golpe melhor, embora o faça perder cem mil homens, em vez da estratégia pior, ou mesmo a mais lenta, que lhe pode deixar nove décimos daqueles homens com quem e por quem luta, e a quem, em geral, ama. Torna-se um artista por amor aos seus compatriotas, e expõe-nos à carnificina por causa da sua estratégia.

Fernando Pessoa, in 'Heróstrato'

8.27.2009

Atalho

Que procures o sol e a lua,

Que esses te oferecia eu

Como se fossem meus...

Dou-te o meu mundo, mas não o mar,

Se todo o teu não me basta.


Dou-te o meu verde e imenso

Com as palavras que não chegam

E as vontades que só se sobejam

Pela tua respiração.


Que o tempo é sempre casto,

Que o epicurismo roubou-me às marés…

E na sublime perfeição da imperfeição,

Salvo os maiores desejos imperiosos

Comprando um bom calçado, suspirando leve,

Para que, pelos menos, não me doam os pés.

8.25.2009

«Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente»

Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.


Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"

""A Perturbação do Último Acontecimento""


A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: "Como poderia viver sem o ter lido!" e ainda: "Que pena não o ter lido quando era jovem!". Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.

Italo Calvino, in "Palomar"