7.30.2009

Alerta

À estação espacial

Que escuta este latino

Desespero sólido

Da nação que sou

Em deflagração.

Pertenço ao hemisfério

Do nada ausente

Em códigos abstractos

De dicionários devorados.


Sou o destinatário

E o remetente

Da lei que subscrevo

Nesta irracionalidade aparente.

Se comunicar bem

Quem aprenderá

A discutir o que sei

E o que faço

Não transparecer?


Do alto do abismo

Vejo águias perigosas,

O negativo retém-se

Na razão do entendimento

E volto atrás,

Desenhando palavras

Com a orientação

Humilde dos desejos.

Longe Presente


Hoje subo aos degraus do tempo

E não falo no meu passado,

Escrevo do presente…

Longe desse local amargurado

Onde me fechei intangível,

Onde permaneci ausente.


Hoje relembro nos teus gestos

Enganos cativantes,

Na ausência dos teus beijos

Outros desejos delirantes...

E na saudade do teu perfume

Onde continuamente

Procuro eu inspirar-me,

Olhares angustiantes,

Quando os teus não os vejo

E é na falta desse ébrio brilho,

Nessa mera recordação,

Que me faço apaziguar

E procuro perdão…


O que hoje desejo simplesmente

Numa alta aspiração ao impossível

É habitar com um coração cheio

Este mundo vasto e vazio…

Não me procuro corromper,

Nem louvar a desilusão.

Afastando-me de caminhos nocivos,

Persisto na minha adoração,

Criando pensamentos decisivos

Ao contemplar a salvação.

7.22.2009

Eva Mitocondrial


Diz-se que somos seus filhos,

De seu nome Eva, ela é a nossa mãe…

Pensa-se mulher de Adão

Mas desconhece-se o motivo, sendo ela a primordial,

Se por um conflito natural também seria a sua mãe.


Sabemos que Eva existiu, Adão provavelmente não…

Faltam dados que realmente provem que é o verdadeiro pai,

Fenómeno que se decompõe sem aparente explicação.

Eva é a mãe primordial, Adão será somente especulação?


Sendo ela a original,

Também crescida e criada no monte Citerão,

Onde, como Édipo presenciou ou como assim conta a tradição,

Viu crescer a árvore da ciência onde o fruto proibido

Não é apenas mais do que um complexo mal resolvido

Que axialmente nos atormenta e sem razão.


Do medo e do vazio que ocupou a nossa emancipação,

Ela imortaliza a sua verdadeira essência

Fora do microcosmo das forças da criação...

Eva perpetua-se em cada um de nós,

Adão penso eu que não ou, se estóico me engano,

Dificilmente eterniza assim a sua divina condição.


Se Eva é a primeira mãe, será filha de quem?

E Adão, será o seu filho, o pai ou o irmão?!

Dúvidas que obliteram-me com apreensão…

Pois também ele comeu o fruto

Que nos priva a perspectiva de uma vida infindável,

A minha mais absurda, perfeita e pura realização.


Talvez devemos-lhes a humanidade

E Eva habitará sempre a nossa concepção,

Assim como os conceitos de transgressão herdados

Por uma constante inata aflição de culpa

Face a uma curiosa existência condenada à morte.


«Espaço Sombrio»

"Aqui, porém, nada pode ocorrer. Em vez de testemunhar a presença, atributo da paisagem, do lugar, este ambiente só evidencia a ausência. A luz que invade aquele espaço sombrio não vem, como o raio na paisagem, revelar o que ali está acontecendo. Ela traz justamente o que ocorre lá fora, o que não se passa ali."

(texto: W. Caldas)

Deslumbramento Cronológico

Inspiro as sensações do tempo,

Retenho-me num ponto fixo,

Tão imóvel como eu…

Quando acordo vejo que o sol

Apaziguadamente desapareceu.

Penso-me confuso e não encontro

Na dimensão do meu olhar

As estrelas que em outras horas avistei,

Deparo-me com o azul medonho

Do dia tenebroso em que mergulhei

E só assim encontro entendimento

Para um outro dia que já foi meu.


Respondo às dúvidas que me surgem

E distraio-me nas suas indefinições,

Tento expressar os seus enleios

Mas fracas são as minhas afirmações.

Procuro no tempo acertado outras explicações

Mas esse certo tempo já partiu

E fico eu pasmado à espera

Do próximo contratempo.

Tudo parece-me estático

No turbilhão infalível das horas.

Mudam-se os traços joviais

Mas a estética é a mesma,

Sempre o mesmo dilema

Com as razões do sábio problema

Que fica mais uma vez por resolver.


Os ponteiros mudos mudam a sua posição,

O tempo passa em excesso e com aversão…

Todos exclamam a sua desgraça

E eu, fico por aqui, sentado à espera do sol

Que por estas horas já não vem.

Talvez chegue amanhã ou depois,

Espero que se lembre de mim.

Enquanto esse tempo não chega,

Procuro outro que me agrada

Na sua inquietação dedicada.


Falam-me das coisas do passado

E eu não nego, nem confirmo nada,

Não estando lá para duvidar

Ninguém confiaria em mim.

Esse tempo era outro, se lá estivesse

Eu próprio também seria outro,

Quando o contratempo surgiu.

Esqueço as fúteis lamentações,

Tenho agora muitas e emancipadas.

Não procuro suportar outras,

Comprometer-me e mantê-las encerradas

Num arquivo organizado cronologicamente

Onde se escrutina a ordem dos acontecimentos

Pela vontade própria do homem liberal.

Que diferença faz que haja fome e miséria,

O meu chuveiro avariou,

Não posso lavar a minha consciência

Mas tenho que ir trabalhar de qualquer maneira.


Chego à débil conclusão

Nada acontece como antecipadamente esperamos,

Tudo tem o seu tempo…

E que tempo é este quando tudo parece no seu lugar.

Chegamos atrasados à chamada

E deparamo-nos com o contratempo.

Assim dedico-me neste instante

Por inspirações extemporâneas

Ao deslumbramento cronológico,

Onde nada aparenta estar errado

Há excepção do meu sol

Que não chega às horas esperadas,

Oferecendo-me tempo precioso

Para não duvidar das suas legítimas explicações.

7.21.2009

Sinédoque dos Sonhos

Não posso falar

Quando não sei do que falo,

Mais vale escrever

Do que ficar calado.

Quando todos articulam

Sem ninguém se escutar,

Perco-me por pensamentos

Que me fazem sonhar.


Os sonhos não têm cor

Nem são a preto e branco,

Os sonhos são o demónio

De um pintor sem encanto.

Os sonhos são lamentações

Da nossa caótica alma,

São fantasias, são lembranças,

Outras vidas, novas eras.


Eu continuarei a escrever

Sem desconfiar das razões,

Quando os sonhos são enigmas

Das minhas estranhas alucinações.

Todos prolongam o seu discurso

Sem ninguém se fazer entender,

Pelos meus sonhos compreendo-me

Nesta vontade de me fazer esquecer.

7.16.2009

Sonhos Conscientes

Hoje quero transbordar de sonhos

Como o fazia outrora,

Quero imaginar o futuro

Antes desta febre se ir embora.

Cheio das coisas que nunca tive

E que com tanta simplicidade

Ansiosamente esperei...

Porque os desejos são humildes,

São realidades perfeitas,

Que advogo com alma

E que não efluem do pensamento.

Espero-as taciturno

Como as andorinhas o frio,

Sem existirem novas paragens

Onde ao calor possam regressar.

Nem o meu governo chega,

Enquanto o fogo do espírito

Transborda com esta essência...

Navegarei em silêncio,

Entregue às flutuações,

Aos segredos e às emoções

Dos meus sonhos conscientes

Ávidos por indefinições.

7.15.2009

Perfume


Infalível perfume em que suspiro silêncios confusos...

Inevitável fragrância que me desterra este meu ar altivo,

Um efeito que nunca falha, por ele sinto-me corrompido

Pela forma como me empalidece e o ânimo não esmorece.


Veneno gracioso, ágil, fatal, perigoso...

Franco, nocivo e impetuoso.

Sinto-o tão cegamente que a minha loucura se envaidece

Pela sua agradável exalação, embala-me em sonhos,

Faz-me inconsciente das irrealidades.


Funesto amora que me fascina,

Perfume ou encantamento que dá sentido aos meus desejos,

Verdade aos meus tormentos.

Inspiro nas suas contemplações vulneráveis

Os meus versos fantasiados, os meus patéticos pensamentos.

Diálogos de Frasqueira

Diz-me porque te constranges

Quando te peço que faças escolhas,

Sempre o fiz premeditado,

E não as quero absorver todas.


Boca quente,

Adstringência notável,

Toque aveludado...


Sim, o acontecimento é digno de rigor,

E sei que demoro o meu devido tempo,

Mas trata-se de um contra-relógio

A selecção do mais etílico encantamento.


Bom equilíbrio,

Alguma complexidade,

Extremamente envolvente...


Afonso, não acredites nos rótulos,

Melhor era que elas não os tivessem.

Por vezes do que vem escrito transcrevem-se

Diáfanas descrições e outros enganos.


Estrutura elegante,

Paladar jovem,

Fresco e exuberante...


As dos finos traços são certezas,

Porque simulam sempre o que são.

Mesmo que nos iludam as aparências,

De algumas até aceito os custos que dão.


Cor de rubi carregado,

De gosto suave, agradável

E muito persistente...


Mas são rótulos, prezado irmão,

Por muito que assim não penses,

Servem-se deles nessa gratidão,

Nas suas estéticas inocentes.


Mas tenho dúvidas, João...

Tratando assim o vinho como gente

Não se expõe assim a sua indefinição?!


Ah, que grande equação de espanto

Se da sede de Baco te sentes aflito,

É ditoso como se apresenta o artifício

Mas nunca convence o que vem escrito.

7.12.2009

Desdém Olvido

Esqueci-me como era elegante o teu sorriso

Esqueci-me como era meigo o teu olhar

Esqueci-me com era doce a tua voz...

Só não me esqueci desta dor que manifesto,

Desta distinta forma como eu me sinto

E que me arde no peito por reclamar

Pelas tuas bem-aventuradas memórias.


Não desprezei que são delicados os teus lábios

E que desvaneço na metonímia de os embalar,

Não desprezei que são fatais as tuas aparições

E que basta pouco para delas me enfeitiçar,

Não desprezei que são dolentes os teus encantos

E que nem um dia só deixei de os recordar...

São o pouco que resta para nunca deixar de sonhar.

Tempo Disperso

Acordas e dás por ti
Longe um dia inteiro.
Descanças, já é manhã,
É já sexta-feira...
Termina o mês,
Passou-se uma década inteira.
O tempo vai, evapora,
Ultrapassa-te galopante
Sem viveres a hora entediante
Em que o tempo se esgotou...
Acordas e dás por ti,
O teu tempo já passou.

Desespero


Aflição a minha,
Porque não sinto
Tal como deveria
A sede e a fome,
A dor e a agonia,
Que não me atinge
E só assim se exprime.

Nada se repete,
Nada me compromete,
Tudo se desvanece
E fico eu, assim,
A olhar para o céu
Do meu quarto,
Do meu mundo,
Encondendo no olhar profundo
O sofrimento que não é meu!

7.08.2009

Sobre o poeta


O poeta não é nada,

Não crê em nada, nem em ninguém…

É devoto no navio da prisão estelar,

Ostaga da mansarda literal,

Da construção, da intensão e da estética.


Quando se faz é outras mensagens

E corajoso é quem o entende

Quando procura encontrar,

No que foi dito por não dito,

O que não se pretende.


Só torna insustentáveis as suas próprias lamentações,

Porque se esquece sempre da tristeza

Da triste vida de que todos padecemos.

Assim, prefere ser daqueles que se lavam por dentro

Com as lágrimas que pouco a pouco todos contemos.


Apenas pensa em tanta coisa,

Tem ideias, procura-as, pondera e resolve

Desenhando sonhos com as palavras que encontra…

Mas também não é nada,

Nunca nega essa afronta.







"Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Álvaro de Campos (in 'Tabacaria', 15-1-1928)


7.07.2009

Retroactividade

Sou o meu próprio paradoxo,
Pelo menos aparentemente.
Sou a contradição e o contra-senso
E sou-o ao mesmo tempo,
Sempre que me julgo diferente
Do que vêm pela janela,
O que não sou...
Só assim me faço
Para que não se sintam enganados
Por descrições comprometidas,
Por razões atraiçoadas,
Por mim próprio, é verdade,
Mesmo que o faça sem propósito.

A mais pura explicação
Ultrapassa a ambiguidade,
O que sou e o que de mim fazem
Justifica-se sem uniformidade.
Quem não me conhece pinta-me de azul,
Os outros sabem o que eu sei...
E, num passado já desgastado,
Representam-me nada assustado
Pelas palavras que emprestei
À loucura onde consagrei
Este meu juízo concertado.

O vazio construtivo,
Em que desfaço as horas
Com o meu ideal retroactivo,
É um todo que é nada
Num nada que é tudo,
Como uma alma dissimulada
Num corpo não inerte, mas perdido...
Escrevendo componho-me
Mas não me descrevo com igualdade,
Proponho-me apenas fingindo
A mais complexa simplicidade.

7.06.2009

Atenções Reflectivas

[Atenções Reflectivas - Reflexões sobre versos reflectidos]


As palavras do momento

Não são apenas reflexões

Nem reflexos intransitivos

De próprias experimentações

São vertigens aterradoras

Sem concreta racionalidade

Onde se ocultam visões

Ausentes de idoneidade.


As palavras que proponho

São apenas superstições

Paradigmas deduzidos

De dissimuladas aflições

Que não me infligem temor

Enquanto procuro despertar

Em mim a única dor

Que tão nobremente me perturba

Quando consinto preservar

Nesta propensão profana

Galanteios à dissensão dos dias.


____________________________________________________________


"For poems are not,

as people think, simply emotions

(one has emotions early enough)

-- they are experiences."


'The notebooks of Malte Laurids Brigge'

R.M. Rilke, 1910


7.04.2009

Descontrolo remoto

Desliguem as televisões

Que nada de bom vos oferecem,

Das suas caixas construam aquários

Que os peixes, encarcerados, esquecem.


Das antenas formem satélites,

Comuniquem em todas as direcções,

Palavras ditas em números

Que expressem as vossas evasões.


Mas não se percam com orações,

Sintonizem sim outras emissoras

Que não definam novas prisões

Nos mesmos descontrolos.


Que os homens insistem em criar fronteiras

Invisíveis, cruéis e inconsideradas, ilusões...

Injustas mas legitimamente pensadas

Para atormentar aqueles que procuram informações.


Hoje são os impassíveis computadores

Agentes de Prometeu em funções,

A vontade humana pelo conhecimento

Atingindo toda a espécie de proporções.


7.03.2009

Petulantes Gracíolas Artimanhas

Acredito na sinceridade,
A vaidade é para feiticeiros,
Bruxos, mandingas, macumbeiros...
Que eu escondo as minhas fatuidades
Em poemas sem histórias,
Como recordação das subjectividades.

Aponto o dedo e aponto-o,
Nunca o faço em qualquer lado,
Direcciono-o para onde guardo recados,
Para onde os deuses não existem,
Onde a estupidez é mental,
A falsidade é humana
E a honestidade paranormal.

Que alegro alegórico,
É tão bom acreditar viver,
E entristecer, penar, escurecer…
Que o maior silêncio de lipotimia
É deixar-se desvanecer.

7.01.2009

Sombras e Luz

Alvorece, sol feito criança...

Da brancura, a candura;

Do tormento, o vento;

E do verde, a esperança.


Esperava-te de negro

Mas não és sombra...

És luz, frágil e bela,

De humildade sincera.


E no intento das brumas

O luar manteve-te suspensa,

Voltando-se para os velhos livros

Que do tempo vivem-se esquecidos.