6.25.2009

Desalento Fundamental


Não consigo deixar os versos, a fantasia.

Nem consigo parar de pasmadamente reparar

Em tais feições de alegria.

E, em cada ciclo desta penosa jornada,

Espero o novo dia em que a timidez,

Sem jeito, afortunada,

Ofereça-me como dádiva de coragem iluminada

As percepções do teu encanto,

Permitam involuntariamente os desígnios serenos

Da dor que deveras sinto…

Encontrar-te nas palavras que sou,

Sempre que te vejo, quando nunca estou.


O que me constrói nunca ninguém viu,

Um espelho rígido que o mundo destruiu.

Frio a factos fúteis, dedicado aos enigmáticos,

Escondo-me da luz renunciando à atenção

De cenários paradigmáticos.

A vida não sustenta um guião...

Escrevo eu o meu, por própria pura compaixão,

Na vontade libertina de adorar o que é perfeito.


Sou distante, diferente do normal.

Sou o intermédio entre o génio e o louco,

O estranho e o fenomenal.

As únicas leis que respeito são as da consciência,

Da lógica, da razão…

Ausente de preconceitos de fácil ambiguidade,

Prevalecem intuições da divina simplicidade,

Dedicado, humilde e fiel à dor presente.


Tivesse eu apenas o que nunca tive,

Seria feliz por isso?

Continuamente vejo perder-me

Nos desejos que incitam ao desatino,

Agonistas de momentos do rasgo de génio libertino,

Porque o fardo do tempo é um desalento

Para quem só o vê passar...

Encontrei o que é perfeito

Encontrando o meu luar.

6.23.2009

Espelho



Adoro a maneira

Como te olhas no espelho,

Adoro o modo e o jeito

Como arranjas o cabelo.


Adoro as suas formas,

Os seus feitios e as suas cores…

Desconheço o que te move

Se desconheço os teus sabores.


Gosto da maneira

Como já não falas para mim.

Gosto do modo

Como utilizas as palavras,

Raramente usadas,

Porque me tratas assim.


Adoro tudo em ti…

As formas, os feitios e as cores.

Poderia inventar-te

Mas não renuncio às dores

Que dão ânimo aos corações.



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(in "Lamentos de um Espelho"; 1º andamento - Espelho ustório)

6.22.2009

Novo Mundo


Desperto num novo mundo

Que nenhum tirano conquistou,

Um lugar que só não resiste

A quem o consagrou.

Neste espaço o tempo é livre

Para quem nele se aprisionou,

Encobrindo os segredos contemplativos

De tudo aquilo que sempre sonhou.

6.19.2009

Resistência

Ainda não sinto

Em veias escuras

O azul devastador

Da minha alma em esgotamento.

Enquanto o meu coração

Bater assim violento

Terei a capacidade

De saudar o fingimento.


Recordarei o que se esquece

Se o futuro não esmorece

Como musgo pálido

Condenado à dessecação.


Continuarei a escrever

Acompanhando a respiração...

Negando-me compreendo-me

Se assim padecer de inspiração.



"Meu lamento", de Ataulfo Alves, por Dona Zica

Escrita

Adormeço de súbito

Sem os sentidos esperados,

Prevendo desígnios triunfantes

Nos meus tormentos guardados.

Vejo-me por fora, não ausente,

Preso no raciocínio displicente

De quem quer ver

Sem ser inteiramente visto.


Refaço o alinhamento suspenso

Por consentir com a pauta

Onde conjuro por enleio

O franco discernimento

Em que patenteio

Os precursores dos eventos,

Quadro coloridos, sem tons esbatidos,

Sofismas do meu arrependimento.


Desencadeio a cascata de reacções

Pelo meio que me controla

E por não sofrer de aliterações

Extingo-me da raiva e da cólera…

Mas sigo sempre por aí a vociferar

E a estranhar-me pela demora

Das minhas averiguações dormentes,

Da falta de eternos presentes

E da minha redenção.

6.17.2009

Trilho Verdejante

Desvaneço como fria água

Que num ribeiro passou,

Onde agora existe mágoa

Subsiste a sede de quem chorou.


Venha lá o tempo da entrega,

Venha lá o que vier…

Só o frio atrasa a colheita,

Que o sol já judia quando quer.


As tuas terras áridas,

Que o orgulho não lavou,

Serão pântanos esbaforidos

Que a chuva nunca mitigou.


O mesmo trilho verdejante,

Que embala num só sentido

Com um rubor clandestino,

É um enleio sem valor distante.

Iluminados

Ombros perfeitos, iluminados,

Descrevem os teus cabelos

Em recortes de enfeites ondulados,

De timbres perfumados

E outros tons estrelados.


Cabelos soltos, bem despertos,

Que dançam como o luar,

Num passo tão firme,

Num eterno balançar,

Sem artifícios ou ilusões

De um claro sublime encanto.


Gestos delicados, conscientes,

Feitos para fazerem sonhar

Sem enigmas, sem enganos,

Feitos para não duvidar,

São os desígnios dos tempos.


Olhares prometidos, atentos,

Ao futuro que nos desconhece,

Que no passado perdi as mágoas

No presente só me encontro em ti

E que de todo o resto nada cesse

Os sorrisos que a vida oferece.


Palavras escritas, outros silêncios,

Que pacificam o céu de cor,

Que falam sem se mostrar

E que nunca deixam de acertar

Os compassos das emoções.

6.16.2009

Dinâmica

Nada é constante,

Tudo é eterno

No ponto absorto

Do meu trono espacial.


Do meu sistema

Avisto o mundo do absurdo,

O meu universo físico…

Que é um algoritmo, um problema,

Um processo aleatório de coisas nenhuma.


Axiomas e silogismos

Nada concretos, mas verdadeiros,

Ausentes de trocas entre o sistema

E o mundo da reacção.


A objectividade não é isolada,

Quanto muito diz-se fechada

E tão favorável à compreensão.

Consciência


Tratas mal do teu corpo,

Fazes do quarto a sala

E da rua a cama.

Só dormes, não descansas

Retendo desatento as lembranças,

Como não soubesses quem és…

Esperas por quem te acorde

Mas ninguém sabe o teu nome,

Quando todos te chamam

E simplesmente não respondes.

Ikaria

Por ti, verdumância da floresta,

Espanto de idílica fantasia,

Eu respiro a cobardia

De um horizonte longínquo.


Por Ikaria me renego,

Não sei quem fui e só de onde vens

Posso escutar o esgotamento

Do bater arrítmico das emoções.


Nórdicas imaginações estéticas

De bétulas, pinheiros e acácias,

Que para além das minhas falácias

Me entretêm enquanto penso,

Porque aquecem-me o entretenimento

Por razões mais que presentes

E intenções tão divergentes

Como o fulgente pasmo do aroma.


Por ti, seara fértil,

De corpo não sentido,

Perco-me infindável

Pelo imenso castigo,

Pelo tudo ou nada

De um trono que não existe,

Quando o que não dizes

É sempre compreendido.


Vejo o meu sol como castigo

E não mais tardes de solidão,

Que no murmúrio dos tempos

Sobejam-me vagas de ilusão.


Que de tão brandos os gestos,

De tão brancos nos leitos,

De tanta cor são os versos feitos

Nos silêncios dos meus campos.


Pelos teus olhos claros dilatados

E por tanto luar sinto ardor,

Do gosto perfumado,

Do corpo em fogo,

Do meu ânimo em flor.

6.14.2009

Responsabilidade

Voltam a mim as palavras
Quando me pensava desfeito em cinzas.
Embora benevolente, estóico e indiferente,
Percorro o horizonte do desatino
Em busca da fuga,
Daquilo que cativa os sentidos.

Ocupo bem o absorto vazio
Das horas pretendidas ao tédio e fastio,
Revogando o pensamento
Não metafórico-apelativo
De que em mim divagam todas as poesias,
Sendo a poesia uma só,
Sempre que embebido na inquietude
Fantasiosamente existencial.

A vida também é só uma,
Simples, poética e desconcertante...
Também eu vejo os moinhos
Que para D. Quixote eram gigantes.