5.21.2009

«momento de poesia»

Se escrevo ou leio ou desenho ou pinto,
logo me sinto tão atrazado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar p'ra diante o tempo
e empurro-o,
empurro-o à bruta
como empurra um atrazado,
até que cansado me julgo satisfeito.
(Tão gémeos são
a fadiga e a satisfação!)
Em troca, se vou por aí

sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que está fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos de uma aflição
que não é minha,
que, sinceramente, não sei qual é melhor:
se estar sòzinho em casa a dar à manivela da vida,
se ir por aí e ser Rei de tudo o que não é meu.







«Momento de Poesia»
Lisboa, Novembro 1939.
José de Almada Negreiros

Fascínio Impessoal

Acordo desfeito em pó,
Como areia fina
De um mar de lágrimas
Que nunca derramei.
O deserto abrange-me
Na sua pacificação
Como o silêncio descuidado
Da mais vaga lamentação.
Vejo, na sombra existente,
A delicadeza clemente
De alguém que se perde
Por equidistâncias longínquas,
Numa manhã diferente.

Porque haveria de ser assim
O espaço que julguei meu,
A cegueira confunde-me
Na sua escravidão...
A luz, que hoje vejo,
Fui eu que a desejei
Mas desconfio da sua razão,
Do modo como me prende
Em toda a sua admiração.

Dedico-me ao fascínio
Das coisas que não abdico,
Sem esquecer o princípio
Da sua descoberta redenção.
Sonhei ver a luz,
Agora cega-me na escuridão,
Porque vejo as suas cores
Embebidas na indefinição,
Quando suponho ser nobre
Em toda a sua justificação...
Quando me basta,
Na magnitude do meu desejo,
Ser um servo casto
De fértil esmeralda.

Ofereço ao espaço curvo
Toda a minha atenção,
Acredito serem fieis
As vontades da comunicação.
Se me perco em fantasia,
Pelo seu gosto e sedução,
Será pela forma como acordo
Extasiado de imaginação,
Bastar-me-ia uma palavra
Para não me fazer esquecer...
Supondo um novo momento
Assim como espero pelo amanhecer.



«A fronte há-de ser ampla, ou seja, larga, alta, cândida e serena... A altura há-de ser tanta quanto a metade de sua largura: assim, esta deve ser duas vezes tão larga quanto a sua altura, de modo que da largura pode-se deduzir o comprimento, e do comprimento, a largura»
[Agnolo Firenzuola, "Discorsi delle bellezze delle donne"]

5.12.2009

Absortividade

Recomponho o meu perfil
Em sintonia com os severos modos
Desta percepção contemplativa dos dias...
Quase nada do que varia
Me faz realmente mudar
E o que de bem assim se consegue
Manifesta-se sem conciliação
Com a sua vontade perpetua
De aflitivamente me perturbar.

Repara na distância
Em que disfarço a agonia,
Em que desfaço a mentira,
Em que atiro ao ar
A personificação das coisas
Que invariavelmente não sou.

Como posso avistar novas cores
Quando nada de inquietante
Realmente se manifestou?
Tratar-se-à de percepção desatenta,
De quando os sentidos são enganados,
Por quem a nada assim aspirou?

Recomeço o antigo desalento,
Hoje acordei sem contentamento
Porque vejo que nada mudou,
Para além do dia que canto...
Exprimindo o mesmo sentir,
Respondendo ao mesmo encanto.

Recordo velhas profecias,
As míticas paragens em que me perdi.
Relembro as promessas do sonho
Que incondicionalmente outrora conferi...
Como me sinto absorto
Por livremente sonhar assim,
Reencontrando no que não se vê
O que mais ninguém via,
Até o delírio cair em mim.

Esta paixão que me alimenta,
Por me perder na poética alegoria,
Representa-me fiel e eterno
Como a ilusão que me prende
À invocação de cada novo dia.
Onde respeitando a sua lembrança,
A sua motivação e a sua fantasia,
Posso aguardar o salvador devaneio
Ou ser escravo da sua eterna simpatia.

Palavras sem Sintonia

É de longe que defino
Os teus traços perfeitos,
Sentidamente comprovados...
É de bem perto que descrevo
Estes meus versos humildes,
Pesadamente condenados.

Peço-te sentidas desculpas
Por os ter tornando assim...
Perdoa-me por tudo aquilo
Que eu nunca fui, enfim.

Desculpa-me algo mais
Que fluí em mim...
Que as culpas se as houve,
Se as há, não me prendam
Mais do que esta inocência.

Não culpo ninguém!
Só a minha imaginação,
Excedida pela irreverência
Do teu desatento desdém
Que gosta de me perturbar
Quando procuro a contemplação...
E que mal isso tem?

Quando tudo me parece tão fácil
E não o é para mais ninguém,
Talvez pela sua idoneidade...
Porque se tudo fizesse sentido
Nunca se extinguiria a eternidade.

Desculpa e perdoa, não nego
A forma como me expresso,
Este intratável modo de te adorar
Com a sinceridade rítmica do verso,
Fiel mas que não te comove, enfim...
Palavras sem sintonia
Que só me acalmam a mim.

Laços

Como é possível ao tempo
Apartar os parcos laços
Que enfeitam as oferendas.
Nem suponho quem os angariou,
Já estou velho pelo cansaço
E finjo ser quem nunca os desapertou.
Vejo-os balançar num só sentido,
Na frágil caixa de vidro,
Voltando sempre atrás…
Parecem que têm sempre outro vigor
Mas é repetente o movimento
Que sempre os faz oscilar.
Hoje relembro o equilíbrio cobiçado,
Que julgava outrora ultrapassado,
Mas com verdade não o esqueci…
Como me é possível com o tempo
Encarar esses mesmos laços
Tão diferentes dos que eu previ.

5.11.2009

O dia seguinte

Amanhã será um dia inexistente,
Mais antigo do que resistente.
Longínquo será como tantos outros
Ausentes de tormentos vulgares,
Fieis à passagem melindrosa do presente.

Se mesmo assim chover prata e ouro
Aguardo o princípio que persiste
Para nos encontrarmos todos por cá.
Mas pelos seus motivos concretos
Sei que certa gente não virá,
Com as minhas razões divergentes
Só noutros dias não estarei por lá.

Espera-se o paço cálido e repleto
Para assim perder-me entre a multidão,
Em luares de um abismo complexo,
Incisivo face ao calendário precedente...
Porque o amanhã que começa hoje
É um dia mais belo que subsistente
Pelo tinir vítreo da deflagração
Da ociosa dança de sede urgente
Por cânticos e epopeias desmedidas,
Pelo simples reencontro da satisfação.

5.06.2009

Tempo por que espero

Tenho medo de sentir
A falta dos sentidos,
Tenho medo dos encontros
E dos dias reprimidos.

Tenho receio de quem vê
Mentiras na minha verdade
Ou quem me eleva aos céus
Esquecendo a simplicidade.

Tenho vontade para que o mundo
Deixe de ser assim,
Tenho dúvidas em aceitar
Que procuro refúgio em mim.

As palavras não são o escudo,
Nem um incentivo à crueldade.
Só não quero estar ausente
Quando o tempo chegar, outra idade.

Que as tréguas deste tempo
Não são as trevas do outro,
Enquanto procuro não vivo
E não me encontro absorto.

Falta-me ainda compreender
Os segredos desconhecidos
Quando as noites se apresentam
Em quadros desvanecidos.

Que entre este mundo e um outro
Existe tanto e tão pouco por explicar,
Se espero acordado sobrevivo
Ao novo tempo sem me encontrar.