4.30.2009

Negra Imensidão

Ao princípio a dúvida,
Seguindo a incerteza...
Vejo sempre a indecisão
Concluir-se sem clareza.
Se procuro no fundo
Uma verdadeira questão,
Deparo-me com o branco
E as curvas da interrogação.
Que nada se explica
Sem pouco se entender
E por muito que se diga
Mesmo assim há coisas
Que eu não consigo ver.

4.29.2009

Olhar Longínquo

Como se perdesse a mágoa,
Assisto à vida de pensamento ausente,
Pronto para desvendar o meu porvir.
Do meu trono alcanço a cegueira,
Aquela que me impede de ver
O que se projecta no mundo,
O que me faz sonhar e sentir.
Decido consciente o meu rumo
De olhar bem fixo no fundo
De um qualquer juízo longínquo
Dentro dos limites do horizonte.
Mostrar o que não se sente
É dar esperança aos homens
Numa verdade que não mente.
Na falta de fértil discernimento,
Perco-me no tempo e vejo os dias passar.
Não é por esquecimento, é por distracção...
Pelo medo, pelas desculpas, pela aflição
De viver governado e sem sustento
As quimeras do meu deslumbramento.

4.27.2009

A tua floresta

A tua floresta delimita a expansão
Dos campos verdes da minha imaginação,
Que tropeçam na névoa oculta das tuas raízes,
Nos mesmos raios de luz que te atravessam.
Ofuscantemente envergonhados, os homens,
Incapazes de te afrontarem durante séculos
Com receio de caírem fatalmente
Nos pecados dos meus caminhos,
Criaram ameias nas tuas penhas
E por elas, sem descarto, uma e outra vez,
Procuraram subjugar um jubiloso destino
Manchando os campos de sangue inimigo
Em trilhos longos e perdidos em mim,
Embrenhando-se de novo no teu espírito liberto
Em busca da rendição de Géia...
Correndo nus e destemidos,
Entre a verdura dos meus passos
E os segredos da tua floresta.

4.22.2009

Dilema das Dúvidas

Quem não tem indecisões,
Incertezas, problemas por resolver,
Estranhas suspeitas, hesitações...
Quem não vê o seu caminho
Por entre a nebelina de pensamentos
E segue rumo ao precipício...
Quem não pensa que o pensamento é um vício?

Ah! Pudessem as minhas dúvidas
Viajar... partir em jornada,
Percorrer a caminhada
Para chegar a um outro lugar qualquer...
Um espaço novo a inventar.
Pudesse eu ser igual,
Pudesse eu transformar-me
Sem nunca mudar,
Alterar-me e assim ficar.

Nunca ando satisfeito,
Quero sempre melhorar...
Como um perfeccionista errante
Que contende o que viveu
E questiona a dúvida de pensar,
Vivendo num pequeno dilema...
Por não conseguir viver sem pensamentos
Quando dos pensamentos faz um problema.

4.21.2009

Outras dimensões (III)

Mais uma vez, uma e outra vez,
Perco-me pela metafísica do sonho.
O lugar onde não me encontro,
Onde justamente apenas suponho
Responder às minhas indefinições.

Desvio-me do caminho
À procura de justificações,
Para o modo como me expresso,
Nos traços confusos das alucinações.
Invento-me e escondo-me
Daquilo que nunca vi,
Uma manhã tão desperta
Como aquela em que senti
O mundo estranhamente satisfeito
Com os sonhos que construí.

O cinzento não me inibe,
Pintando o mundo com as cores
Desmedidas dos meus desejos...
Prefiro soltar versos
Difíceis, arqueados, confundidos
Quando viajo à deriva
Numa nova fantástica dimensão,
Solidariamente comprometidos
À aurora das brumas
Em que os vejo com predilecção
Pelos tons perturbantes
De uma expansiva dedicação.

Acordo onde o sol se põe,
Sem sentir o seu conforto,
Vivendo onde não vivia...
Sentindo o pulsar eminente
De um dia diferente,
Onde me sinto tão igual
Como nunca me sentia.
Só nesta nova dimensão
Desfruto o prazer displicente
Da mais radical alegoria.

4.20.2009

Outras dimensões (II)

Sinto o pulsar da acção
Sentindo-o em contratempo,
Desmedido em exaltação.
Prevejo-me noutras dimensões,
Penso-me fora de interjeições
E encontro-me excluído de mim,
Longe das cruéis emoções
Que julgo não sentir...
Só à minha volta, avisto
O estranho verde que habito
Nas cores em que medito.

Poderá o mundo ter uma razão,
Um sentido existencial,
Se tudo o que acredito
Com esta visão em discernimento,
Expeditamente paranormal,
Não é frágil, fútil ou substancial.
O paradoxo que nos abrange
Afasta-nos na verdade
Da realidade em que vivemos,
Seguimos por caminhos confusos
De necessidades e abusos
Excluídos da moralidade elementar.
O homem é suficientemente crente
Para não acreditar, se persuadido
Pela falsidade manifesta...
Não estará a velha lei degenerada,
Sem sentido e ultrapassada?

Acredito numa nova dimensão,
Num percurso de transformação,
Onde se possa abstrair
Toda a inibitória dispersão
De novas ideias que surgem
À sombra luminosa da emancipação.
Sendo este desejo o possível caminho
Para uma real compreensão,
Assim sinto os meus sonhos
Como a minha salvação....
Serei fiel à sua luz confidente,
Crente na sua total definição.

Outras dimensões (I)

No meu sonho,
Onde o sol acorda,
Medito ao som perturbante
Dos ramos verdes que estalam
Na floresta onde repouso.
Nem um momento
Sinto o eterno descanso,
Quando inutilmente
Sempre me deito junto
Ao velho pinheiro manso.
Purifico-me com o ar
Mas não me alivio deveras.
Só nestas estações encontro
Pólen, flores, primaveras...
Sentindo o que não sentia,
O calor que me domina
Na frieza da noite
Ou no entusiasmo do dia.

4.16.2009

Encontro

Vejo-te chegar no teu passo calmo e brando,
Solto um cúmplice olhar ao teu sorriso gracioso
Por sentir o voluptuoso aroma do teu jeito ligeiro
De te fazeres mostrar quando nos vêm cumprimentar
As palavras e os fonemas dos sonhos e das aflições…
Só na dúvida me perco por tamanhas ilusões derradeiras,
Como se previsse que na fatalidade do teu toque aconchegante
Se realizem os teus mais ávidos e imediatos desejos maiores,
Ao sangrarem-me as prometidas emoções patéticas.
Assim a solene angústia eufórica começa em mim
Só por enaltecer o murmúrio das batidas do coração
Quebrando-se no meu peito desfeito em feitiços
De trágicas expectativas, esperanças e tormentos…
Como se quisessem abrir em mim uma porta
Que facilitasse a dispensável comunicação,
Dizendo-te uma qualquer palavra de apreço ou saudação,
Oferecendo-te a vulgaridade da estima que dominas,
Avaliando a nobreza dos encantos que sublimas,
Na minha humilde, funesta e distintiva contemplação.
O encontro começa assim, como se por anseio
Existisse a imaculada gravidade do fascínio
No ardor do teu reflexo estático em paradoxo
Com a forma sedutora como me impões,
Perante os contraste de luz e o silêncio do teu olhar,
A graciosidade que tu já tens e em todo o tempo tiveste,
A magnificência que nunca precisaste sustentar…
Tudo isso me cumprimenta em cada noite
E tudo isso é como se me beija-se sibilinamente,
Dia após dia, mudando as feições do teu rosto
Por arrancar em mim a máscara do que me faço,
Contra-quebrando o trautear palpitante dos sentimentos.
Tudo isso me ofereces tu, sem injúrias, sem ardis,
Com a surpreendente naturalidade em que te apresentas
Quando suavizas os mais quentes e ofegantes suspiros,
Quando insinuas o simples desafio da aproximação,
Quando no mal que me faz bem me ofereces
A paz do imenso artifício da conjunção
Da sedução dos teus encantos e do prazer que me dão
Em raros, sublimes, sempre breves encontros.

Destino Prometido

Ninguém consegue quebrar o feitiço
Quando se sofre em contentamento,
Ninguém consegue verdadeiramente opor-se
Ao que se vive como um fértil lamento.
Apenas consegue-se, aliado ao mistério,
Responder em franca confidência
A um qualquer sentimento sincero.

Procuro sem surpresa descrever o que não posso,
O que não sei, nem consigo alcançar
Nesta falsa incapacidade de compreender.
Assim espero mais um dia, perder-me nesta agonia,
Para sonhar com os doces sons e sabores
Que me alegram em fraterna fantasia.

Apenas quero ser livre desta estranha hesitação,
Ser tão claro como a luz, mais do que fiel à razão.
Não sei quando chegará esse dia, essa noite,
Em que regressarei diligente ao tempo desejado,
Num final ultrapassado, mais perfeito do que eu sonhei.
Para assim conseguir edificar-me num novo espaço
Onde julgue não sentir a redenção da sua claridade
Na avaliação persistente do afastamento lógico
Que permeia a degeneração dos meus sentidos,
A singeleza com que os ponteiros nos afastam
Nas distâncias da dança dos minutos sobre as horas,
Que privam a existência dos mais exaltados rumores
De um destino consagrado à mais poética afirmação.

Só em noites cheias de sonhos envolvo-me na esperança revolta
Das manhãs que se confirmam com a minha alma desorientada.
Ainda guardo a recordação dos desejos triunfantes
Que clamam por confiança nas sensações de perseverança
Em que me penso não dissolver quando dou ouvidos à razão,
Criando convicções que respeito simplesmente por assim resistir
Às noites cheias de fábulas convictas ao fado prometido
Onde me julgo eu fingir na ilusão quimérica da minha negação.

4.13.2009

Esquecimento

Fugiram as palavras
Em que me encontrava suspenso,
Como recortes de jornal
Apaziguadamente dispersos ao vento.

Julgava ser imprescindível
Comprovar o seu valor,
Na vontade como espero
Que a mim possam regressar
Em total indefinição.

Nas manhãs em que despertarem
Novas formas vigorosas,
Não temerei o último
Frágil e angustiante olhar
Que se abate perante mim
E mais uma folha vazia...
Descrevendo em formas rigorosas
O esquecimento obliterante.

Moralização*

Gostava de escrever coisas alegres,
Mas há certos (tristes) dias
Em que os dias alegres
São todos os (outros) dias.

Não sei o que errei...
Que errei é certo,
Como é certo que o erro
Se fui eu que o despertei
É simplesmente meu.

Para quê partilhar
O que nem para nós queremos?
Que se manifeste guardado
Na forma que melhor sabemos.
*(do erro ou da desculpa)

Amanhã o sol renasce

Não sei o que aconteceu,
Se debaixo do sol
Foi mais cinzento o dia
Que de novo esmoreceu.
Não sei se esqueci
A promessas que fiz
Ou se a normalidade dos dias
Assim me obrigou.

O calor fugiu,
Aquele brilho sumiu
E a mesma vontade partiu...
Não será mera distracção
Este tempo sem motivo
Que a distância destruiu?
Partiram também as recordações,
Cessaram as inflexíveis motivações
Ou este sossego indiferente
Já não cativa as sensações?

Terá valor esquecer o tempo,
Como quem se esquece
Do que o fascina?
Será saudável negar
Tudo aquilo que se viveu
Ou já nada terá sentido
Se toda a esperança padecer?

Qual será o novo caminho,
Recordar satisfeito
Ou viver fugindo
Das memórias sorridentes
De sentimentos diferentes
Que não se voltarão a sentir?
Terá valor sentir mágoa,
Apelando ao sofrimento
Ou será mais valoroso
Superar o contratempo,
Guardando satisfeito
O passado desfeito
Por romances e epopeias?

Desconheço os acontecimentos
E a neblina que avisto ao longe
Mas reconheço as memórias
De velhos dias de sol.
Será mais fácil para mim
Reter na imaginação
Esses dias fulgentes
De fascínio e admiração,
Siga cada qual a sua moral.

É certo que o tempo mudou,
Como mudamos nós...
Só a distância nos recorda
Quando estamos fatalmente sós,
Trazendo razões à memória,
Destruindo as dúvidas
E as aflições confusas,
Fazendo-nos esquecer
Que o sol amanhã
Poderá de novo nascer.
Acalma o teu sofrimento,
Não vale a pena sofrer
Mesmo que te cause maior dor
Ou se tens medo de perder
As forças do desejo, o teu valor.

4.03.2009

Nada Especial

Como se fosse nada
O que eu sinto,
A mim apenas me importa
O que o coração se indigna.

As aparências esqueço-as
Perdendo os seus enganos,
Tudo é diferente...
Algo sinto-o especial.

E no coração os meus enganos
Por nada me fazem mal
Num bem que foi imposto
Por inspiração sobrenatural.

Sinto-a sem a compreender
E sem fazer nada por isso,
Satisfaz-me a dúvida incerta
De um pecado sem compromisso.

Como se fosse especial
O nada que eu sinto,
Tudo é ilusão...
Embora não aparente.

Que o meu mistério é frequente,
A minha dedicação dormente
E por falência das sensações
Descrevo-me em silêncios.

Pudesse aspirar a um nada especial
Ou ser especial pelo nada que sou,
Recebendo com verdade
O que o meu coração negou.

4.01.2009

À Luz do Momento

No espaço cinzento
Que hoje cobre
O reino dos homens
Cai sobre mim
Uma forte luz, que não vejo
Se me é possível acreditar
Nas cores triunfantes
Da perfeita imaginação.
Debaixo do sol
Existe sempre sombra
Se algo fielmente
Nos suporta a consciência.
Aves divagam pelos céus,
Como eu em palavras,
Sinto a sua espontaneidade
À luz de cada momento.

Cegueira Poética

Recomeço onde parti,
O céu azul manifesto
Das coisas que nunca vi.
A húmida névoa
Recordo tardiamente
Nos traços curvos
Do mais fiel deslumbramento.
Sobre o estado do mundo
Esvai-se o desejo profundo
De me fazer comprometido
Às coisas que não vejo.
O equilíbrio não me basta,
Esqueço a fúria ser querer,
E o tempo que se gasta
Impede que me desfaça
Com o que não quero ver.
Se eu fingir o fingimento,
Contrariando em contratempo
As patéticas rimas soltas
Do mais saudoso encantamento,
Talvez consiga compreender
Que na mais poética rejeição
Realmente me afasto
Das coisas que não consigo ver.

Consagração

Aqui, onde a ciência
Faz uso ao nome,
Deslizam matizes
Em tons de cinza,
Como a conquista
De um tempo eterno
Pleno em génio
E delicada dedicação,
Como os finos traços
Desta poética consagração.

O tempo desconhece
Fáceis justificações,
Só a vida nos oferece
Resposta às nossas inquietações.
Os bons exemplos
Serão eternamente recordados
E pela genialidade saudados
Em humildade construída
Nas graciosas feições da palavra.

A pura retórica ultrapassada,
Sem pretensões, presunção ou vaidade
Faz valer o rigor racional
Num conjunto organizado
De conhecimentos constantes
Em relações objectivas verificáveis,
Dotadas de um valor universal.

Assim existe arte em ciência
Quando esta continua a encantar
Com a mais triunfante eloquência
De quem se quer bem ouvir,
De quem se faz bem falar...
Num discurso brilhante na forma,
Continuamente notável em ideias.