2.11.2009

«Noite»





















"Acordo de noite subitamente.
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora,
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez..."

F. Pessoa, na voz de Alberto Caeiro

2.03.2009

Outros Problemas

Ninguém me vê sonhar
Outros há que não me entendem,
Bebendo dos meus poemas
Raras paisagens que pretendem
Entreter os meus problemas.

É este o meu pranto,
Os sempre mesmos dilemas,
Tantos outros posso contar...
Espero apenas pelo momento certo
Sei que um dia há-de chegar.

Interrogo-me e aguardo
Numa euforia militante,
Inspirando das brumas matinais
Mais um desejo triunfante.

Imagino, quase em segredo,
Garantindo só para mim
Os sonhos expectantes
Que relatam o que eu vi.