12.17.2009

«De Memória»



Nunca te surpreendeu o sorriso estático

das imagens antigas? Alguma coisa aqui

tivemos de perder. Percorro dias e corpos na memória,

mas o que procuro mais é não te ver.


Quem ama quem? As máscaras trocaram-se

e a tua voz ressoa neste palco.

Trouxe versos e música para te dar,

mas o rosto que tivemos já partiu;

fiquei eu só, à beira da memória,

água do mar que não serve para beber.


Porque esta foi a paixão, o grande acto,

a tímida paixão de asas de chumbo.

Eu vi-te muitas vezes frente ao mar,

mas quem de nós para acender a cinza?

- ronda-nos a ave de presa despojada

sobre os malefícios. Aliás, coisas passadas.


Não te surpreendeu? O amor

surpreende - não convém, desarruma.

E nunca se ama ao certo quem se ama.

Procuramos apenas um brilho,

um brilho muito intenso no olhar,

um brilho que não vamos definir

e que algum dia iremos renegar.




Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música"


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