10.12.2009

Instantâneo


Se uma linha me permitisse,
Curva, longilínea e estonteante,
Descrever o seu ar seria a descoberta.
Fascínio de além-mar, fogo da tarde...
Idílica redenção perdida em palavras,
A minha alma discernível alterada,
A eterna cumplicidade muda.

Mundo sério, mundo ingrato,
Essencialmente quando se pretende estranho,
Enquanto homem no seu erro humano...
Destrói, reconstrói e não se satisfaz.
Desmancha, desencalha, esconjura
E desfaz-se do que já não quer como seu.

Nas sensações seguintes à ausência
O tempo imortalizou o traço
E o perfume cauterizou o embaraço.
Cresce em mim consternação,
Culpo o vento nascente...
Foi ele que me despertou as memórias.

É como se conhecesse e negasse
O facto de me perder no engano,
A razão de despender as ilusões.
É como me conhecesse e se espantasse,
Não pelas estéticas e convergências,
Apenas pelas figuras a que me presto.

A verdade é que desconheço o princípio,
Assim como todo o seu resto
Nas distâncias que medeiam o tempo.
Volta! Que volte o ocaso outra vez,
Não antes em soltos minutos
Mas sim na eternidade que fomento.

O ar não é o mesmo aqui,
A mesma brisa bate dolente
Mas as suas emanações são divergentes.
Devo muito à contemplação,
Recorri dela na mensagem
E já a abstracção não me distraía.

Só os olhares reservados me despertaram,
Bastou-me sentir presente a afeição
E, quando dei por mim, chegava...
Na mesma curvatura de ombros,
Com o mesmo perfil de cadeira,
A mesma postura, sempre meticulosamente centrada.

O rosto é a face que já não preciso ver,
Bem de frente apresentada espera...
A minha vontade de a vencer e negar.
Trajo o ridículo acessório,
Demonstro nos gestos a perturbação esperada,
Condiciono a fala numa representação falhada.

Demovo-me da condição que comove.
Se fosse forçado não seria perfeito,
Não tenho as penas para que seja espontâneo.
Mas ainda há pássaros no jardim...
Vi um que não via há muito,
Entretendo-se com as migalhas.

Fosse ele um bom actor,
Assim saberia como representar bem.
Contudo, só o medo o saudou
E partiu de um salto alado.
Foi a fuga mais sincera,
Enquanto a mesa agora vazia espera.

No verdadeiro instante não compreendi,
Salvou-me do autismo o seguinte,
Devo-o por mérito à dedução.
Das mais de vinte sem reserva,
Para mal das minhas promessas,
Revelou-se o afinco da aproximação.

Não fosse o encontro uma recorrência,
Não fosse a admiração a minha demência,
Julgava certo o truísmo de tais aparições.
Mas só de pobre orgulho se esmorece,
Que do coração ninguém se compadece
Pelas suas arritmias e compensações.

Pedaço instantâneo de eternidade,
Fosse antes como folhas no Outono
Devendo memórias às tílias e ao alecrim,
A doçura à camomila e o paladar às cerejas,
As longas suavidades às cores do mel e avelãs,
Que a minha serenidade já não vem só do jasmim
Em pequenos quentes travos surdos pelas manhãs.


1 comentário:

disse...

nunca soube bem mas quando u vejo algo que me deixa muito feliz digo XD é um pseudo neologismo que criei às tantas xD