10.20.2009

Dor de Pensar

Doem-me as ideias,
Já não suporto pensar.
Falta-me tempo...
Para que me possa entreter
Na minha consequente evasão,
Para que possa oferecer
Novas aflições ao pensamento,
Para que lhe possa dedicar
Uma atenção exigente
E daí possa extrair no seu desentendimento
Uma natural justificação diligente.
Falta-me tempo,
Não me falha a vontade.
Apenas são curtas as horas
Em que me desprendo da teia
E em que me distraio, só...
À minha invulgar maneira,
Numa divagação derradeira,
Ocultando-me entre o pó da vulgaridade
Que se deposita sobre os corpos.

O meu relógio não faz pausas,
Não tira férias, esgota-se a contar
Sem nunca ser interrompido.
Ficando eu, assim, entretido
Sem um claro tempo atribuído
A este impróprio vício de pensar.
Às vezes gostava de ter o juízo domesticado
E imprudentemente controlado
Viver submetido ao abismo da comunicação
E não mostrar à pérfida realidade
O meu discernimento emancipado
De um cruel monstro acordado
Que tenta em vão subjugar o tempo.
Tenho receio de faltar à chamada,
Aguardo com os sentidos despertos.
Benevolente perscruto o ensejo da convocatória,
Ninguém pode escolher quando acorda.
Há momentos mais fugazes é certo
Mas são eternos estes tormentos,
Os meus sonhos nunca efémeros.

Não me cansam as ideias,
O que não suporto é esperar
Pelo tempo que me falta,
Quando o que ainda me resta
Parece, enfim, esgotar-se…
Posso um dia deixar de ser crítico,
Se farto desta dor de pensar
Descompor o que me enleia.
Agora que me faço desconhecido
Posso pensar-me descomedido,
Posso ser quem eu quiser...
Mas depois, quando o meu tempo pecar,
Tudo será repetitivo, a escola é esta,
Não poderá ser meu o que me rodeia.
Talvez me transforme num viajante,
Procurando verdadeiras paragens
Onde se possa deixar de duvidar
Desta originalidade descomprometida
De me entregar aos desígnios
Do estranho modo do meu pesar.

2 comentários:

Rosesforthedead disse...

posso desde já dizer que em nenhum momento possuo o teu jeito para comentar. mas posso afirmar que em muito entendo a tua angustia da escassez de tempo, do todo que nos envolve a desenrolar-se em catadupa, da falta de meios para travar o tempo. Quanto à dor de pensar, uma das minhas mais veementes teorias é a de que quanto mais conheces, mais infeliz te tornas.

Gostei ;)
*

Susaninha disse...

ESPETACULAR:):)
SUUUUUUUUUrrisinhos:)