5.21.2009

«momento de poesia»

Se escrevo ou leio ou desenho ou pinto,
logo me sinto tão atrazado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar p'ra diante o tempo
e empurro-o,
empurro-o à bruta
como empurra um atrazado,
até que cansado me julgo satisfeito.
(Tão gémeos são
a fadiga e a satisfação!)
Em troca, se vou por aí

sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que está fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos de uma aflição
que não é minha,
que, sinceramente, não sei qual é melhor:
se estar sòzinho em casa a dar à manivela da vida,
se ir por aí e ser Rei de tudo o que não é meu.







«Momento de Poesia»
Lisboa, Novembro 1939.
José de Almada Negreiros

3 comentários:

Felisbela disse...

Gosto muito dos teus poemas!

João Afonso Adamastor disse...

Agradecido, mas este particularmente não é meu... :)

Joli disse...

Obrigado pelo teu comentário :DDD

Eu concordo com a Felisbela, mesmo este não sendo teu xD

Beijinhos*