5.12.2009

Absortividade

Recomponho o meu perfil
Em sintonia com os severos modos
Desta percepção contemplativa dos dias...
Quase nada do que varia
Me faz realmente mudar
E o que de bem assim se consegue
Manifesta-se sem conciliação
Com a sua vontade perpetua
De aflitivamente me perturbar.

Repara na distância
Em que disfarço a agonia,
Em que desfaço a mentira,
Em que atiro ao ar
A personificação das coisas
Que invariavelmente não sou.

Como posso avistar novas cores
Quando nada de inquietante
Realmente se manifestou?
Tratar-se-à de percepção desatenta,
De quando os sentidos são enganados,
Por quem a nada assim aspirou?

Recomeço o antigo desalento,
Hoje acordei sem contentamento
Porque vejo que nada mudou,
Para além do dia que canto...
Exprimindo o mesmo sentir,
Respondendo ao mesmo encanto.

Recordo velhas profecias,
As míticas paragens em que me perdi.
Relembro as promessas do sonho
Que incondicionalmente outrora conferi...
Como me sinto absorto
Por livremente sonhar assim,
Reencontrando no que não se vê
O que mais ninguém via,
Até o delírio cair em mim.

Esta paixão que me alimenta,
Por me perder na poética alegoria,
Representa-me fiel e eterno
Como a ilusão que me prende
À invocação de cada novo dia.
Onde respeitando a sua lembrança,
A sua motivação e a sua fantasia,
Posso aguardar o salvador devaneio
Ou ser escravo da sua eterna simpatia.

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