3.20.2009

Articulação Introspectiva de um Adeus


Já consumi os dicionários pela rua, a minha loucura,
E o que em mim permanece não chega
Para apartar o cinzento do meu mundo.
Desperdicei tudo menos o silêncio.
Neguei aos olhos o sal das lágrimas,
Deteriorei o papel com a força das canetas,
Esgotei as horas e os bancos das esplanadas
Com divagações fúteis.

Recorro à memória e não encontro consciência.
Antigamente temia actos que produziam remorsos;
Era como se as dúvidas e os medos fossem meus:
Quanto mais delirava mais podia sonhar.
Por vezes julgava pensar: amanhã tudo será diferente.
E eu acreditava.
Acreditava porque em delírio todas as coisas são possíveis.

Mas isto era no tempo misterioso e oculto,
Era no tempo em que o tempo não acabava,
Era no tempo em que os meus pensamentos
Eram realmente delírios.
Hoje são apenas os meus pensamentos.
É pouco mas é verdade,
Uns pensamentos como todos os outros.

Já devastei as ilusões.
Quando agora digo: perfeição,
Já não se passa absolutamente nada.
E, neste meio tempo, antes das convicções desfolhadas,
Tinha como verdadeiro
Que todas as coisas estremeciam
Só de sentir o seu perfume
Na cegueira da minha utopia.

Não tenho já nada para mudar.
Como dentro de mim
Não há nada que desvaneça com a água.
O passado é tão fútil como o futuro.
E agora vos afirmo: amanhã tudo será diferente.
Adeus.

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