12.09.2013

Voos migratórios






































vieste das sombras
do que nunca aconteceu,
despertar em mim
o que nunca existiu,
e agora sei o que é real
em tudo o que os poetas fingem.
chegaste para ficar
ao pedir o nada que fosse,
esperavas por mim quando partias
e com o entardecer dos dias
voltavas para mim sorrindo,
de mãos dadas às saudades pequenas.
nesta ausência de hoje
dominas toda a distância,
e presente ficas na consciência de cada espaço,
onde a paz que me deixas
consente nas palavras em que me beijas
o longo abraço das demoras.

3.10.2013

cedotardar



















a primavera cresce do interior
da terra alimentada pelo sol exterior,
de dentro para fora
como todas as coisas telúricas devem ser

de repente cedo o dia se fez tarde
quando a tarde se fez noite, choviam
sons como nuvens estagnadas e imortais,
de passagem apenas as notas
esmagadas pelos automóveis

nem sempre tudo está ao nosso alcance,
o comando da vida não prescinde de ligações terrenas
mas basta levantar um braço para se tocar no céu

1.09.2013

Excepção




Mas por mais bela que seja cada coisa
  Tem um monstro em si suspenso
Sophia de Mello Breyner Andresen
















escrevias-te
e eu escutava como
se me falasses

escrevias-me
e eu aceitava como
se fosse a verdade

escrevias-nos
e tudo era tão lascivo como
se não houvesse intimidade

agora tu já não escreves
perdemo-nos no encontro
e eu duvido se te resistes

tudo era mais fácil quando
não acontecíamos
e eu era único

como me enganava
por seguir o manual
que tarde esmorece

o desconserto quebrou
já ninguém escreve
a coisa nenhuma.